Capítulo 5
Ponto de vista de Emily Windsor
Outra noite sem dormir.
O espelho do banheiro refletia um rosto sem cor — pálido, de olhos fundos, assombrado.
Encarei meu reflexo. Era a mesma Emily Windsor que esquartejava adversários no tribunal, que não perdia um caso havia sete anos. Mas a mulher que me encarava agora tinha o terror gravado em cada linha do rosto.
Eu tinha feito um acordo com o próprio diabo.
A percepção caiu sobre mim como água gelada, me congelando até os ossos.
Eu me obriguei a me mexer. No automático, fui até o closet e escolhi meu tailleur mais imponente — linhas afiadas, camisa branca impecável, salto alto de matar. Fiz a maquiagem com precisão, construindo camadas de armadura profissional ao redor do pânico que ameaçava me engolir.
A manhã se arrastou interminável. Sentei à mesa, encarando sem expressão os autos do processo, incapaz de me concentrar numa única palavra. Meu olhar insistia em desviar para a janela.
Toda vez que um carro preto passava lá embaixo, doze andares abaixo, meu coração se apertava.
Às 11h59, Joe bateu e entrou, com uma expressão estranha. — Emily, tem um cavalheiro lá embaixo pedindo para falar com você. Ele disse... que vocês tinham um compromisso.
Meu coração parou no meio da batida. Meus dedos apertaram a caneta até os nós ficarem brancos.
— Já estou descendo. — Mantive a voz firme, sem denunciar nada, enquanto pegava o casaco e a bolsa.
Do lado de fora do prédio, uma Bentley Mulsanne preta estava parada junto ao meio-fio — discreta, mas impondo uma presença inegável.
O vidro escurecido desceu, revelando um perfil marcado no banco do motorista. Não era o Luke.
O motorista saiu e abriu a porta traseira com uma reverência respeitosa. — Senhorita Windsor. O senhor Reed está esperando a senhora.
Puxei o ar fundo e deslizei para dentro.
O interior era espaçoso, caro, impregnado do mesmo cheiro que eu reconhecia do Luke — cedro e tabaco, frio e intoxicante.
O carro entrou no trânsito com suavidade. Observei a paisagem da cidade borrar do lado de fora, sentindo como se estivessem me levando para um abismo do qual eu não podia escapar.
Por fim, paramos diante de um clube privado exclusivo.
A segurança era rígida — ninguém passava por aquelas portas sem reserva. Um recepcionista de terno impecável me conduziu por corredores silenciosos até uma sala reservada.
A porta se abriu.
Luke estava sentado num sofá de couro perto das janelas do chão ao teto, girando distraidamente um isqueiro de metal entre os dedos.
Hoje ele usava calça cinza-chumbo e um suéter preto de cashmere — sob medida, refinado. Sem o terno formal, o traço perigoso que ele carregava parecia mais suave, mais lânguido. De algum jeito, isso o tornava ainda mais inquietante.
Ele ergueu o olhar. Aqueles olhos azul-gelo — calmos como água profunda, mas capazes de te afogar sem aviso.
— Sente-se! — Ele apontou para o sofá à minha frente. Não era um pedido. Era uma ordem.
Eu não me mexi. Meu olhar se fixou no envelope pardo sobre a mesa de centro entre nós. — Onde está o meu brinco?
Os lábios de Luke se curvaram no vestígio de um sorriso. Ele enfiou a mão no bolso e tirou o ponto de safira, deixando-o repousar na palma.
A luz do sol atravessou a janela, pegou na joia e refratou um azul intenso. Meus olhos arderam.
— Senhorita Windsor, parece que você está com pressa. — Ele me observou com a satisfação preguiçosa de um predador brincando com uma presa encurralada.
— Foi só uma transação entre nós — eu disse, forçando aço na voz. — Quando isso acabar, a gente deve seguir em frente e deixar um ao outro para trás.
Com isso, Luke riu — um som baixo e sombrio. Ele se levantou e atravessou a sala em minha direção.
Ele era pelo menos uma cabeça mais alto e, à medida que encurtava a distância, a simples presença dele ameaçava me sufocar. — Senhorita Windsor, você realmente acredita que aquela noite foi só uma transação?
O olhar dele me cortou como uma lâmina, arrancando cada camada de fingimento.
Dei um passo para trás por instinto — e meus ombros bateram na porta. Encurralada.
— O que você quer de mim? — Minha voz saiu mais dura do que eu pretendia, embora um tremor se insinuasse nas bordas.
Ele não respondeu. Em vez disso, ergueu uma das mãos, a ponta dos dedos roçando minha bochecha com uma leveza insuportável antes de repousar no meu lóbulo. — Emily Windsor. Vinte e oito anos. Diploma de Direito pela NYU. Sete anos de atuação, com um histórico invicto. Seu pai é professor universitário. Sua mãe era pianista de concertos — faleceu há três anos. Você é alérgica a amendoim. Toma café preto, sem açúcar...
A cada palavra, o sangue ia sumindo ainda mais do meu rosto. Parte daquelas informações era de domínio público. Mas outra parte... detalhes que nem Jacob sabia.
Meu sangue virou gelo. — Você me investigou?
— Gosto de estar preparado. — Luke recolheu a mão, colocando o brinco na minha palma. A ponta quente dos dedos dele roçou minha pele — um sussurro de contato que me arrancou um arrepio involuntário. — Especialmente quando se trata de entender as minhas... companheiras.
Aquela última palavra — dita tão baixo — me atingiu como uma marreta.
Humilhação e medo se embolaram, fazendo meu corpo inteiro tremer.
— Quem diabos é você? — Apertei o brinco com força, as pontas mordendo dolorosamente a minha palma. A fisgada aguda me ancorou, ajudou a recuperar à força um fiapo de compostura.
— Quem eu sou não importa. — Luke deu um passo para trás e voltou ao sofá, cruzando uma perna sobre a outra com uma facilidade irritante. — O que importa, senhorita Windsor, é que tenho muito interesse no caso da família Victor que você acabou de assumir.
A família Victor.
Tudo se encaixou com uma clareza nauseante. Todas as minhas piores suspeitas confirmadas num instante.
— Eu não sei do que você está falando. — Eu me obriguei a manter a calma; meu treinamento jurídico entrou em ação enquanto eu tentava avaliar a situação.
— Vai saber. — O olhar de Luke deslizou até o envelope pardo. — Esse caso é mais profundo do que você imagina.
As palavras dele caíram como pedras num lago parado, espalhando ondas de pavor dentro de mim.
— Eu não preciso dos seus avisos. — Virei em direção à porta, desesperada para escapar daquele cômodo sufocante.
— Sexta à noite. Sete horas. Eu vou buscar você. — A voz dele me seguiu, sem deixar espaço para discussão. — Vamos conversar sobre o caso.
Congelei, a mão na maçaneta. Não me virei. Não respondi.
— Ah, e Emily? — ele acrescentou, quase como se fosse depois de pensar. — Fique longe do Jacob e daquela Julie. Eles não valem o seu tempo.
Arranquei a porta e fugi — não há outra palavra para isso —, eu praticamente corri pelo corredor e saí para a rua.
De volta ao carro, eu desabei contra o banco, completamente exaurida.
O brinco de safira parecia gelado na minha palma, um lembrete brutal de que tudo o que acabara de acontecer era real.
Eu não tinha apenas me envolvido com um mafioso. Eu tinha me envolvido com alguém que sabia tudo sobre mim — e que pretendia me amarrar ao mundo dele, eu querendo ou não.
O que eu podia fazer? Recusar?
Eu não tinha a menor dúvida de que, com os recursos dele, rejeitá-lo terminaria mal. Talvez pior do que o que aconteceu com a minha avó.
Mas obedecê-lo significava me aliar às próprias pessoas que eu mais odiava. Significava trair o voto que eu fiz diante do túmulo dela.
O carro parou diante do prédio do meu escritório. Eu saí cambaleando, atordoada, vendo o Bentley desaparecer na esquina.
Não notei o sedã discreto estacionado a meia quadra dali, nem o homem dentro dele erguendo o telefone.
— Senhor, a senhorita Windsor voltou para o escritório.
Do outro lado da linha, Luke estava diante de janelas do chão ao teto numa cobertura, olhando para o horizonte cintilante de Manhattan.
Seus olhos azul-gelo revolviam profundezas insondáveis.
— Fique de olho nela — disse ele baixo, com um tom impregnado de uma posse inconfundível. — Qualquer um que tentar chegar perto dela — Jacob ou qualquer outro —, resolva.
