Capítulo 6
Ponto de vista de Emily Windsor
O escritório estava incomumente caótico quando voltei ao escritório.
Ainda assim, por dentro, meus pensamentos estavam tão mortos quanto a própria morte — as palavras de Luke se enrolando em mim como correntes invisíveis.
No instante em que atravessei a porta, Joe veio apressado na minha direção, a ansiedade estampada no rosto. “Emily, a Julie voltou. Ela trouxe a equipe jurídica do Jacob. Disse que está aqui para recolher todos os arquivos do caso da família Victor.”
Minha testa se franziu, quase imperceptivelmente.
Julie certamente agia rápido. Ou melhor, a obsessão do Jacob por ela tinha chegado a um ponto em que as consequências já não importavam.
Respirei fundo, coloquei a bolsa sobre a mesa e alisei o paletó do meu terninho. Mantive cada grama de emoção trancada a sete chaves.
— Mande ela entrar. — Minha voz saiu perfeitamente neutra, sem entregar nada.
Momentos depois, Joe empurrou a porta. Julie entrou como se fosse dona do lugar, com dois advogados de terno logo atrás. Um deles carregava uma caixa volumosa de arquivos.
Ela tinha se produzido hoje — um conjunto Chanel sob medida, maquiagem impecável, cada fio de cabelo irradiando aquela satisfação presunçosa. O olhar dela passeou por mim, pingando desprezo e provocação sem o menor disfarce.
— Emily, o Sr. Johnson me mandou buscar todo o material do caso da família Victor. — Sem introdução. Sem cortesia. O tom vinha com o peso de uma ordem, não de um pedido.
Ela enfatizou “Sr. Johnson” como se o nome do Jacob, por si só, lhe desse toda a autoridade de que precisava.
Levantei os olhos, fitando a caixa de arquivos atrás dela. Não respondi de imediato.
O escritório ficou em silêncio, exceto pelo clique seco dos saltos de Julie no chão e pela respiração desconfortável dos dois advogados atrás dela.
— Srta. Perez, você parece ter esquecido uma coisa. — Minha voz cortou o silêncio — firme, precisa, carregando todo o peso de sete anos de experiência jurídica. — O caso da família Victor ainda está sob a minha supervisão. De acordo com os protocolos profissionais, a transferência de materiais de um caso exige o procedimento adequado. As pessoas que você trouxe têm autorização para recebê-los?
A expressão presunçosa de Julie congelou por uma fração de segundo antes de voltar ao lugar. — Emily, por que você está sendo tão difícil? O Jacob disse que você não é mais sócia do nosso escritório, o que significa que o caso da família Victor deve ser conduzido inteiramente por nós. Você só está enrolando porque não sabe perder.
Os dois advogados atrás dela trocaram olhares — claramente desconfortáveis com a abordagem direta e insultuosa de Julie —, mas, por causa da posição do Jacob, ficaram de boca fechada.
Soltei uma risada baixa e me levantei da cadeira, indo parar diante da mesa. As duas mãos apoiadas na borda.
Meu olhar se cravou em Julie como uma lâmina. — Srta. Perez, em toda a minha carreira, “perder” nunca fez parte do meu vocabulário. Quanto à decisão do Sr. Johnson, eu a respeito. Mas tudo precisa ser feito conforme as regras.
Dei um passo adiante. Julie mal chegava ao meu ombro — teve de erguer o queixo para encontrar meus olhos. Olhei para baixo, minha presença esmagadora. — O caso da família Victor é mais profundo do que você consegue imaginar. Você nem sequer tem licença para advogar e quer se enfiar nisso? Você faz ideia das consequências que isso pode trazer?
O rosto de Julie empalideceu, mas ela rapidamente endireitou a coluna, recusando-se a recuar. — Se eu sou qualificada ou não, quem decide é o Sr. Johnson! Emily, você não passa de uma mulher que ele descartou. Que direito você tem de bancar a superior na minha frente? Não pense que eu não sei — você estava naquele clube chique outra noite, afogando as mágoas e se atirando em cima de homens aleatórios. O quê, não consegue sobreviver sem o Sr. Johnson?
As palavras dela atingiram como punhais, acertando cada ponto vulnerável que eu tinha.
Minhas unhas cravaram nas palmas das mãos, e a dor aguda trouxe uma lasca de clareza em meio à névoa.
— Senhorita Perez, você parece interessada demais na minha vida privada. — Respirei devagar, e minha voz ficou glacial. — Infelizmente, meus assuntos pessoais não dizem respeito a você. No entanto, seu comportamento já violou a ética profissional — e constitui difamação.
Voltei-me para os dois advogados atrás dela, com um olhar afiado como navalha. — Senhores. Como advogados do escritório de Jacob Johnson, vocês devem saber muito bem que exigir materiais de um caso sem a devida autorização e sem a documentação de transferência é uma violação grave. Além disso, a senhorita Perez acabou de me atacar publicamente e me difamar. Isso constitui fundamento para uma ação judicial. Têm certeza de que querem compactuar com esse comportamento?
O rosto dos dois escureceu na mesma hora.
Eles eram profissionais experientes. Sabiam o que estava em jogo. Enfrentar de igual para igual uma das melhores litigantes da área comercial — especialmente quando ela os tinha completamente encurralados pelos fatos — não era brincadeira.
Julie claramente não esperava que eu revidasse com tanta força. Sua bravata desmoronou. — Vo-você está distorcendo minhas palavras! Quando foi que eu ataquei você?
— Ah, é mesmo? — Sorri friamente e peguei meu celular da mesa. Bem na frente de Julie, abri o aplicativo de gravação de voz.
Minha voz ecoou pelo escritório, calma e inabalável. — Senhorita Perez, cada palavra que você acabou de dizer — incluindo seus insultos e sua difamação — foi integralmente gravada. Se Jacob deseja obter esses arquivos por esses métodos, terei o maior prazer em atender. Mas entenda uma coisa: assim que entrarmos em processo judicial, senhorita Perez, sua conduta será responsabilizada.
Fiz uma pausa, sustentando o olhar de Julie mais uma vez. Havia um aviso sutil entremeado nas minhas palavras. — O caso da família Victor não é um brinquedo para você usar como quiser. Jacob jogou essa granada nas suas mãos. Tem certeza de que consegue segurá-la?
O rosto de Julie passou por tons de vermelho, branco e verde pálido. O medo lampejou em seus olhos.
Ela claramente nunca imaginara que eu elevaria a situação ao nível de ameaças legais. Só tinha vindo até ali para me humilhar enquanto cumpria sua tarefa, embriagada pelo favoritismo de Jacob. Em vez disso, eu havia invertido completamente o jogo.
— Eu... eu só estava... — ela gaguejou, incapaz de completar uma única frase.
— Emily, nós só viemos entender a situação hoje. — Um dos advogados finalmente rompeu o silêncio, tentando conter os danos. — Vamos tratar da transferência dos arquivos pelos canais apropriados.
— Excelente. — Guardei o celular no bolso, e meu tom voltou à compostura habitual — como se o duelo verbal nunca tivesse acontecido. — Por favor, informem a Jacob que continuarei supervisionando o caso da família Victor até que os procedimentos formais de transferência sejam concluídos. Até lá, ninguém tem autoridade para interferir.
Meu olhar passou por Julie uma última vez, carregando um aviso inequívoco. — Quanto a você, senhorita Perez, um conselho: não transforme o ambiente de trabalho em campo de batalha para seus ressentimentos pessoais. Há coisas que, uma vez que você toca, nunca mais consegue lavar das mãos.
Julie me lançou um olhar fulminante, mas não conseguiu dar uma única resposta. Virou-se e fugiu do meu escritório, escoltada pelos dois advogados.
No instante em que a porta se fechou, Joe soltou um longo suspiro. Ele me olhou com preocupação. — Emily, você está bem?
Balancei a cabeça e afundei na cadeira do escritório, puxando o ar fundo.
A raiva dentro de mim ainda não tinha se dissipado por completo, mas pelo menos eu havia me mantido firme. Tinha conseguido ganhar algum fôlego.
A provocação de Julie era só o começo. O caso da família Victor — e Luke, aquele homem perigoso — se erguiam diante de mim como dois icebergs. Eu não sabia o que viria em seguida. Mas meus instintos jurídicos gritavam que eu precisava estar mais afiada, mais forte e mais vigilante do que nunca.
Peguei o arquivo do caso da família Victor sobre a mesa, passando os dedos pela capa.
Luke tinha dito que esse caso era mais perigoso do que eu imaginava.
O que ele sabia?
E como eu deveria me proteger e descobrir a verdade — no meio desse redemoinho?
