Capítulo 3 LARA
Naquela noite, eu descobri que uma casa enorme também podia parecer vazia.
Depois que Artur terminou nossa conversa, Teresa me acompanhou até o quarto que haviam preparado para mim. Eu caminhava atrás dela observando tudo em silêncio, tentando entender como uma pessoa podia viver em um lugar tão grande e, ainda assim, parecer tão sozinha.
Meu quarto era maior do que a casa inteira onde eu havia crescido.
Havia uma cama enorme, um banheiro particular, um guarda-roupa cheio de roupas que eu não reconhecia e uma janela que dava para o jardim.
Parei diante dela.
— Tudo isso é meu?
Teresa sorriu.
— Enquanto estiver aqui, sim.
— Eu não trouxe quase nada.
— Eu sei.
Ela abriu uma das portas do guarda-roupa.
Vestidos.
Blusas.
Calças.
Sapatos.
Tudo novo.
Tudo bonito.
Passei a mão por um vestido azul-claro.
— Quem comprou?
— O senhor Artur pediu que providenciassem.
Eu imediatamente me virei.
— Mas eu não pedi nada.
— Ele sabe.
— Não quero parecer interesseira.
Teresa me encarou por alguns segundos.
— Minha filha, aceitar uma roupa não transforma você em uma pessoa interesseira.
Baixei os olhos.
Talvez eu tivesse passado tanto tempo sendo acusada de ser um problema que já não sabia mais receber qualquer coisa sem desconfiar.
— Obrigada.
Ela tocou meu ombro.
— Descanse. Amanhã será um dia longo.
Depois que ela saiu, fiquei sozinha.
Tirei a fotografia dos meus pais da bolsa e coloquei sobre a mesa de cabeceira.
Sentei na cama.
Tudo parecia um sonho.
Um sonho estranho.
Naquela manhã eu estava na casa dos meus tios, acreditando que seria obrigada a continuar vivendo como uma empregada.
Agora estava em uma mansão.
Com roupas novas.
Um quarto enorme.
E um homem doente que precisava de cuidados.
Mas eu ainda não sabia exatamente qual era o meu lugar ali.
Olhei para a fotografia.
— Mãe... o que você faria?
Não houve resposta.
Apenas o silêncio.
Deitei e tentei dormir.
Não consegui.
Qualquer barulho me fazia abrir os olhos.
Eu estava acostumada a dormir alerta, esperando uma porta bater ou meu tio aparecer para mandar que eu fizesse alguma coisa.
Naquela casa, ninguém gritou comigo.
Ninguém bateu na porta.
Ninguém me chamou.
Mesmo assim, meu corpo não conseguia relaxar.
Quando finalmente adormeci, já era madrugada.
Na manhã seguinte, acordei com três batidas suaves.
— Lara?
Era Teresa.
— Pode entrar.
Ela abriu a porta.
— O senhor Artur pediu que você tomasse café com ele.
Levantei rapidamente.
— Agora?
— Daqui a meia hora.
Olhei para o guarda-roupa.
— Eu não sei o que vestir.
Ela riu.
— Então vamos escolher juntas.
Pouco depois, eu estava diante do espelho usando um vestido simples, elegante e discreto.
Olhei para meu reflexo.
Era estranho.
Eu parecia outra pessoa.
Não porque a roupa fosse bonita.
Mas porque, pela primeira vez, alguém tinha escolhido algo pensando em mim.
Desci para o café.
Artur já estava sentado.
Ele usava uma camisa clara e parecia um pouco melhor do que na noite anterior.
— Bom dia — falei.
— Bom dia, Lara. Sente-se.
Sentei diante dele.
Havia uma mesa enorme, cheia de comida.
Eu fiquei sem saber por onde começar.
Artur percebeu.
— Você não precisa esperar alguém mandar.
Peguei um pedaço de pão.
Ele sorriu.
— Está melhor?
— Um pouco.
— Dormiu?
— Quase.
— Por quê?
Hesitei.
— Não estou acostumada com lugares assim.
— Vai se acostumar.
— Não sei.
Artur me observou.
— Eu gostaria que você ficasse.
Parei de comer.
— Aqui?
— Sim.
— Por causa do trabalho?
Ele ficou em silêncio por alguns segundos.
— Por muitas razões.
Meu coração acelerou.
Antes que eu pudesse perguntar, Matteo entrou.
Ele estava impecável em um terno escuro.
Seus olhos passaram por mim rapidamente.
Depois se fixaram em Artur.
— Bom dia.
— Sente-se — Artur pediu.
Matteo puxou uma cadeira.
Eu imediatamente fiquei mais quieta.
Não sabia por quê, mas a presença dele me deixava nervosa.
Talvez fosse o jeito como me observava.
Como se estivesse tentando descobrir qual era o meu verdadeiro interesse.
— Lara — Artur chamou.
— Sim?
— Depois do café, quero conversar com você no escritório.
Matteo levantou os olhos.
— Sobre o quê?
Artur respondeu tranquilamente:
— Assuntos meus.
Matteo pareceu não gostar.
— Ela acabou de chegar.
— Eu sei.
— Talvez seja melhor esperar.
Artur apoiou os talheres.
— Você está preocupado?
— Estou tentando proteger o senhor.
— E eu agradeço.
Ele olhou para Matteo.
— Mas não preciso que decida quem pode conversar comigo.
Matteo ficou calado.
Eu abaixei os olhos para o prato.
Não queria estar no meio daquela conversa.
Depois do café, segui Artur até o escritório.
Ele fechou a porta.
— Sente-se.
Obedeci.
Ele ficou alguns segundos me olhando.
— Lara, eu preciso ser honesto com você.
Meu coração começou a bater mais forte.
— Eu sei que chegou aqui por causa da dívida dos seus tios.
Assenti.
— E sei que não escolheu estar aqui.
— Não escolhi.
— Eu não vou fingir que você está aqui por acaso.
Fiquei em silêncio.
— Minha saúde está piorando.
Aquelas palavras fizeram meu peito apertar.
— Quanto tempo o senhor tem?
Ele respirou profundamente.
— Os médicos não conseguem me dar uma certeza. Talvez alguns meses. Talvez mais.
— Eu sinto muito.
— Não quero sua pena.
— Não é pena.
Ele sorriu.
— Eu sei.
Artur abriu uma gaveta e retirou alguns documentos.
Colocou-os sobre a mesa.
— Eu construí minha empresa durante décadas.
Olhei para os papéis.
— E não tenho ninguém em quem confie para deixar tudo.
— Sua família?
Ele riu sem humor.
— Minha família está esperando minha morte.
Fiquei arrepiada.
— Seus irmãos?
— Eles não querem saber de mim. Querem saber do que acontecerá depois que eu morrer.
Ele empurrou os documentos para perto de mim.
— Eu não quero que eles recebam aquilo que nunca ajudaram a construir.
— Então o que pretende fazer?
Artur respirou fundo.
— Quero ter um filho.
Fiquei imóvel.
— Um filho?
— Sim.
— Mas...
— Não tenho tempo para esperar que a vida aconteça naturalmente.
Ele desviou o olhar por um instante.
— Existe um procedimento médico. Inseminação artificial.
Meu rosto esquentou.
— Eu não entendo.
— Não quero que você se sinta obrigada.
Ele fez questão de enfatizar aquelas palavras.
— Quero lhe fazer uma proposta.
Meu coração parecia estar na garganta.
— Que proposta?
— Quero que você seja a mãe do meu filho.
Fiquei completamente sem reação.
Olhei para ele.
Depois para os documentos.
Depois novamente para ele.
— Eu?
— Você.
— Por quê?
Artur respondeu sem hesitar:
— Porque conheci você.
— Mas o senhor mal me conhece.
— Conheço o suficiente.
Ele se inclinou um pouco.
— Eu vi uma jovem que foi maltratada durante anos e ainda assim não perdeu a capacidade de se importar com outra pessoa.
Minha garganta apertou.
— Eu não sou especial.
— É exatamente isso que uma pessoa especial costuma dizer.
Desviei o olhar.
— E o que eu ganharia?
Artur foi direto.
— Segurança para você e para seu filho.
Meu coração disparou.
— Seu filho?
— Nosso filho.
Aquelas duas palavras me assustaram.
Ele continuou:
— Quero deixar minha fortuna para vocês. A empresa também.
— Eu não sei administrar uma empresa.
— Ainda.
Ele sorriu.
— Eu quero que você estude.
— Estudar?
— Administração, finanças, etiqueta, idiomas, tudo o que for necessário.
— Por quê?
— Porque não quero deixar uma fortuna nas mãos de uma mulher que não sabe defendê-la.
Eu fiquei em silêncio.
— Quero que você se torne uma mulher capaz de entrar em qualquer ambiente sem abaixar a cabeça.
Aquelas palavras tocaram em uma parte de mim que eu havia escondido durante anos.
— E depois?
— Você ficará ao meu lado enquanto eu estiver vivo.
— Como sua esposa?
Artur balançou a cabeça.
— Não.
— Então como?
— Como a mãe do meu filho. Como minha família.
Ele fez uma pausa.
— E ninguém precisa saber como essa criança foi concebida.
Eu senti minhas mãos tremerem.
— O senhor quer esconder?
— Quero proteger você e meu filho dos interesses da minha família.
Fiquei olhando para os documentos.
Era uma proposta absurda.
Uma garota de vinte anos, sem dinheiro, sem família e sem futuro, sendo convidada a se tornar mãe do herdeiro de um bilionário.
Mas havia algo ainda mais assustador.
Eu queria aceitar.
Não pela fortuna.
Não pela empresa.
Mas porque Artur havia sido a primeira pessoa em anos a olhar para mim e enxergar alguém.
— Eu preciso pensar.
Ele assentiu.
— Pense.
— Posso fazer uma pergunta?
— Claro.
— O senhor realmente acredita que eu conseguiria?
Artur sorriu.
— Lara, você sobreviveu a dez anos de crueldade sem se tornar cruel.
Ele se levantou.
— Se aprender a usar essa força, ninguém mais conseguirá colocar você no chão.
Saí do escritório com a cabeça cheia.
No corredor, encontrei Matteo.
Ele me encarou.
— O que ele queria?
— Conversar.
— Sobre?
— Assuntos pessoais.
Ele deu um passo na minha direção.
— Você sabe que meu padrinho não é um homem fácil de enganar, certo?
Franzi a testa.
— Eu não estou enganando ninguém.
— Espero que não.
Passei por ele.
Mas ouvi sua voz atrás de mim.
— Lara.
Parei.
— Eu vou descobrir quais são suas verdadeiras intenções.
Olhei para ele.
Pela primeira vez, não baixei a cabeça.
— Então descubra.
Continuei andando.
Meu coração estava disparado.
Eu ainda tinha medo.
Mas aquela pequena resposta pareceu uma vitória.
E talvez fosse.
Porque naquele dia eu comecei a perceber que talvez Artur tivesse razão.
Talvez eu ainda pudesse aprender a ser forte.
Só não imaginava que, ao aceitar aquela proposta, eu estaria colocando meu destino nas mãos de um homem que ainda nem sabia o quanto mudaria minha vida.
E, principalmente, nas mãos de seu afilhado.
O homem que já havia decidido desconfiar de mim antes mesmo de me conhecer.
