Capítulo 4 Lara

Passei a noite inteira pensando na proposta de Artur.

Eu me virava de um lado para o outro naquela cama enorme, encarando o teto e tentando entender como minha vida tinha chegado àquele ponto.

Ser mãe.

A palavra sozinha já me assustava.

Eu tinha apenas vinte anos.

Nunca tinha namorado.

Nunca tinha sequer beijado um homem.

E agora um desconhecido estava me propondo que eu tivesse um filho para ser seu herdeiro.

Por mais que a proposta fosse absurda, havia uma coisa que não saía da minha cabeça.

Artur não tinha me tratado como meus tios.

Ele não havia gritado.

Não havia me humilhado.

Não havia me chamado de inútil.

Pelo contrário.

Ele havia me olhado como se eu pudesse ser alguém.

Peguei a fotografia dos meus pais na mesa de cabeceira.

— O que vocês fariam no meu lugar?

Passei o dedo sobre o rosto da minha mãe.

Eu sabia que ela teria medo por mim.

Meu pai também.

Mas eles provavelmente diriam para eu pensar no meu futuro.

E era justamente isso que eu precisava fazer.

Pela primeira vez, eu precisava pensar em mim.

Na manhã seguinte, acordei decidida a conversar novamente com Artur.

Desci para o café e encontrei Matteo sentado sozinho.

Assim que me viu, ele levantou os olhos.

— Bom dia.

— Bom dia.

Sentei do outro lado da mesa.

Ele continuou tomando café como se eu não estivesse ali.

Eu tentei fazer o mesmo.

Mas o silêncio ficou desconfortável.

Até que ele perguntou:

— Dormiu bem?

— Mais ou menos.

— A casa é muito diferente da que você vivia?

Olhei para ele.

— Muito.

Ele assentiu.

— Está se acostumando?

— Ainda não.

— Vai precisar.

— Por quê?

Ele me encarou.

— Porque provavelmente ficará aqui por bastante tempo.

Meu coração acelerou.

— Você sabe alguma coisa?

— Sei que meu padrinho está considerando uma proposta que envolve você.

Baixei os olhos.

— Ele contou?

— Não.

— Então como sabe?

— Artur nunca faz nada sem me envolver.

Eu não sabia se aquilo deveria me tranquilizar ou assustar.

— Ele quer ter um filho — falei.

Matteo ficou imóvel.

— Ele contou isso a você?

— Sim.

— E você aceitou?

— Ainda não.

Ele soltou o ar devagar.

— Espero que pense muito antes de aceitar qualquer coisa.

— Eu estou pensando.

— Dinheiro pode mudar a vida de uma pessoa.

— Eu sei.

— E também pode destruir.

— Eu sei disso também.

Matteo pareceu surpreso com minha resposta.

— Você não parece tão inocente quanto eu imaginava.

Aquilo me irritou.

— E você não parece tão inteligente quanto tenta parecer.

Ele levantou uma sobrancelha.

Eu imediatamente me arrependi.

Mas não pedi desculpas.

Ele soltou uma risada curta.

— Você tem coragem.

— Não tenho.

— Acabou de me desafiar.

— Talvez eu esteja aprendendo.

Por alguns segundos, ficamos em silêncio.

Então ele sorriu de lado.

Foi a primeira vez que vi uma expressão diferente naquele rosto tão sério.

— Talvez Artur tenha escolhido certo.

Não respondi.

Antes que pudesse perguntar o que ele quis dizer, Artur apareceu.

— Estou interrompendo alguma coisa?

Matteo se levantou.

— Não.

Artur olhou para mim.

— Podemos conversar?

Assenti.

Seguimos para o escritório.

Assim que a porta fechou, ele apontou para a cadeira.

— Você pensou?

— A noite inteira.

Ele sorriu.

— E?

Respirei fundo.

— Eu aceito.

Artur não comemorou.

Apenas fechou os olhos por um instante.

Parecia aliviado.

— Tem certeza?

— Tenho.

— Lara, quero que você entenda uma coisa. Não quero comprar você.

— Eu sei.

— Se em algum momento se sentir desconfortável, pode desistir.

— E se eu desistir depois da inseminação?

Ele ficou sério.

— Você continuará tendo todo o suporte necessário.

— Mesmo assim?

— Mesmo assim.

Aquilo me deu ainda mais confiança.

— Então eu aceito.

Artur estendeu a mão.

— Temos um acordo.

Apertei sua mão.

Naquele momento, não sabia que aquela simples decisão mudaria minha vida.

Os dias seguintes foram diferentes.

Médicos começaram a aparecer.

Exames foram marcados.

Eu passei por consultas que nunca imaginei fazer.

Artur fez questão de que tudo fosse explicado detalhadamente.

Ninguém me pressionou.

Eu tinha direito de perguntar.

Direito de recusar.

Direito de entender.

E isso fazia toda diferença.

Enquanto os preparativos aconteciam, Artur começou a cumprir a outra parte da promessa.

Meu primeiro professor chegou naquela semana.

Depois outro.

E outro.

Eu comecei a estudar administração.

Finanças.

Etiqueta.

Inglês.

Comunicação.

Até aulas sobre mercado financeiro.

No começo, parecia impossível.

Eu errava.

Ficava frustrada.

Chorava escondida algumas vezes.

Mas continuava.

Artur dizia que eu precisava aprender porque não queria que ninguém pudesse me enganar no futuro.

— Conhecimento é uma forma de proteção — ele dizia.

Eu comecei a entender.

Enquanto isso, eu acompanhava Artur diariamente.

Descobri que ele tinha uma rotina muito cansativa.

Mesmo doente, insistia em trabalhar.

Passava horas analisando relatórios.

Participava de reuniões.

Falava com diretores.

Eu ficava observando.

Aos poucos, comecei a entender aquele mundo.

E descobri que gostava.

Gostava de aprender.

Gostava de perceber como uma empresa funcionava.

Gostava principalmente da sensação de finalmente construir alguma coisa.

Matteo continuava desconfiado.

Ele aparecia quase todos os dias.

Às vezes conversava com Artur.

Às vezes apenas observava.

Eu sabia que ele estava tentando descobrir se eu tinha algum interesse escondido.

Mas eu não tinha.

A única coisa que eu queria era uma oportunidade.

Uma oportunidade que ninguém nunca havia me dado.

Certa tarde, eu estava na biblioteca estudando quando ouvi vozes no corredor.

Saí para ver.

Dois homens estavam discutindo com Artur.

Eu os reconheci.

Eram os irmãos dele.

— Você não pode fazer isso — um deles dizia.

— Posso fazer o que quiser com aquilo que construí — Artur respondeu.

— Você está doente.

A expressão de Artur mudou.

— Isso não dá a vocês direito sobre minha vida.

— Estamos falando da empresa.

— Não. Vocês estão falando da minha morte.

Os dois ficaram em silêncio.

— Quando eu morrer, vocês querem tudo — Artur continuou. — Mas nenhum dos dois esteve ao meu lado quando precisei.

Um deles olhou para mim.

— E quem é essa?

Eu senti meu corpo ficar rígido.

— Lara — respondi.

— A garota que apareceu aqui do nada?

Artur deu um passo à frente.

— Escolha melhor suas palavras.

O homem riu.

— Ela está claramente atrás do seu dinheiro.

Meu sangue ferveu.

Eu poderia ter ficado quieta.

Era mais fácil.

Eu havia passado anos aprendendo a não responder.

Mas alguma coisa havia mudado dentro de mim.

— Se eu estivesse atrás do dinheiro dele, não passaria horas estudando.

Os dois olharam para mim.

— Você não sabe do que está falando — um deles respondeu.

— Sei exatamente.

Artur tentou interromper.

— Lara...

Mas eu continuei.

— Vocês são irmãos dele. Deveriam estar preocupados com a saúde dele. Mas a primeira coisa que perguntam é sobre a empresa.

O homem ficou vermelho.

— Cale a boca.

Meu coração disparou.

Mas eu não recuei.

— Não.

Matteo apareceu no corredor.

Eu percebi sua presença.

Ele ficou observando.

— Essa garota...

— Essa garota tem nome — respondi.

O homem avançou um passo.

Matteo imediatamente se colocou entre nós.

— Chega.

O tom dele encerrou a discussão.

Os irmãos de Artur saíram irritados.

Eu respirei fundo.

Só então percebi que minhas mãos tremiam.

Artur colocou a mão sobre meu ombro.

— Obrigado.

— Eu só disse a verdade.

— E foi justamente por isso.

Matteo continuava me observando.

— O que foi? — perguntei.

Ele balançou a cabeça.

— Nada.

— Está me olhando por quê?

— Estou tentando entender você.

— Já falei que não quero o dinheiro de Artur.

— Eu sei.

Fiquei surpresa.

— Sabe?

Ele desviou o olhar.

— Começo a acreditar.

Meu coração bateu diferente.

Não sabia por quê.

Talvez porque aquela fosse a primeira vez que Matteo demonstrava um pouco de confiança em mim.

Naquela noite, quando fui dormir, fiquei pensando naquela frase.

“Começo a acreditar.”

Talvez fosse pouco.

Mas para mim, significava muito.

Eu ainda era a garota vendida pelos próprios tios.

Ainda tinha medo.

Ainda não sabia o que o futuro reservava.

Mas estava aprendendo.

E, pela primeira vez, eu começava a perceber que talvez pudesse construir uma vida que fosse realmente minha.

Só não imaginava que, enquanto eu aprendia a lutar pelo meu futuro, Matteo começava a me enxergar de uma maneira completamente diferente.

E isso poderia ser muito mais perigoso do que qualquer dívida que meus tios haviam deixado para trás.

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