Capítulo 5 Cont Lara
Os dias começaram a passar de uma maneira diferente depois que aceitei a proposta de Artur.
Minha vida, que durante anos havia sido resumida a obedecer, trabalhar e sobreviver, agora estava cheia de coisas que eu nunca imaginei fazer.
Eu estudava pela manhã.
À tarde, acompanhava Artur sempre que ele precisava de mim.
E, à noite, revisava tudo o que havia aprendido.
No começo, eu me sentia perdida.
Era muita informação.
Administração, economia, investimentos, contratos, reuniões, etiqueta, idiomas...
Às vezes eu fechava os livros e pensava que aquilo tudo era grande demais para mim.
Mas então lembrava dos meus tios.
Lembrava de todas as vezes que disseram que eu não seria ninguém.
E continuava.
Eu não queria apenas receber o que Artur estava me oferecendo.
Queria estar preparada para merecer aquilo.
Naquela manhã, eu estava na biblioteca quando ouvi passos atrás de mim.
— Você estuda até nos intervalos?
Reconheci a voz.
Matteo.
Continuei olhando para o livro.
— Tenho muita coisa para aprender.
Ele puxou uma cadeira e sentou ao meu lado.
— Artur está exagerando.
— Não está.
— Você tem vinte anos.
— Justamente por isso tenho muito tempo para aprender.
Ele ficou me olhando.
— Você mudou.
Levantei os olhos.
— Em poucos dias?
— Não.
Ele pensou.
— Desde que chegou aqui.
Fechei o livro.
— Talvez porque, pela primeira vez, alguém tenha me dado a oportunidade de mudar.
Matteo ficou em silêncio.
Eu não sabia o que ele estava pensando.
Na verdade, eu nunca sabia.
Ele era um homem difícil de entender.
Às vezes parecia frio.
Às vezes parecia preocupado.
E, em alguns momentos, eu percebia que ele me observava por mais tempo do que deveria.
— Você ainda acha que sou interesseira? — perguntei.
Ele desviou os olhos.
— Eu acho que você sabe o que quer.
— Isso é diferente.
— Muito.
Sorri.
— Então talvez esteja começando a me conhecer.
Ele não respondeu.
Antes que pudesse continuar, ouvimos a voz de Artur no corredor.
— Lara?
Levantei imediatamente.
— Já vou.
Artur apareceu na porta.
— Tenho uma reunião daqui a pouco. Quero que você venha comigo.
— Eu?
— Sim.
Matteo se levantou.
— Ela ainda não está preparada.
Artur olhou para ele.
— Então é justamente por isso que deve ir.
Eu escondi um sorriso.
Matteo parecia contrariado.
— Ela não entende nada de negócios ainda.
— E você entendia tudo aos vinte anos?
Ele ficou quieto.
Artur sorriu.
— Pensei que não.
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A reunião aconteceria na sala principal da empresa.
Foi a primeira vez que entrei oficialmente na companhia de Artur.
Eu já tinha visto fotografias, documentos e relatórios.
Mas estar ali era diferente.
O prédio era enorme.
Funcionários circulavam pelos corredores.
Executivos conversavam.
Telões mostravam gráficos.
Tudo parecia rápido.
Organizado.
Importante.
Eu respirei fundo.
— Está nervosa? — Artur perguntou.
— Um pouco.
— Não demonstre.
Olhei para ele.
— Isso faz parte das aulas de etiqueta?
— Não.
Ele sorriu.
— Faz parte da vida.
Entramos na sala de reuniões.
Havia aproximadamente dez pessoas sentadas ao redor da mesa.
Algumas olharam para mim imediatamente.
Uma mulher cochichou alguma coisa para o homem ao lado.
Eu senti minhas mãos esfriarem.
Artur percebeu.
— Senhores, esta é Lara.
Alguns cumprimentaram.
Outros apenas observaram.
Um homem de cabelos grisalhos perguntou:
— Ela é sua nova assistente?
Artur respondeu:
— Não.
— Então?
Ele me olhou.
— Ela está aqui para aprender.
O homem sorriu de maneira estranha.
— Aprender o quê?
— Tudo.
Sentei ao lado de Artur.
A reunião começou.
Eu não entendia todos os assuntos, mas prestava atenção.
Quando apresentaram os resultados de um dos setores, percebi uma informação que não fazia sentido.
Esperei.
Continuei ouvindo.
Então pedi licença.
— Posso fazer uma pergunta?
Todos olharam para mim.
Artur assentiu.
— Claro.
Apontei para o relatório.
— Esse número aqui não deveria ser diferente?
O diretor financeiro franziu a testa.
— Por quê?
Expliquei o cálculo que havia estudado.
Ele pegou o documento.
Conferiu.
Depois olhou novamente para mim.
— Ela está certa.
A sala ficou silenciosa.
Meu coração bateu forte.
Artur sorriu discretamente.
— Continuem.
A reunião seguiu.
Eu fiquei quieta depois disso.
Mas alguma coisa havia mudado.
As pessoas começaram a me olhar diferente.
Não como a garota que havia aparecido na casa de Artur.
Mas como alguém que estava aprendendo.
Quando saímos da sala, Artur colocou a mão sobre meu ombro.
— Está vendo?
— O quê?
— Você consegue.
Sorri.
— Eu ainda tenho muito a aprender.
— E vai aprender.
Matteo estava esperando no corredor.
— Como foi?
Artur respondeu:
— Excelente.
Matteo olhou para mim.
— Você falou na reunião?
— Uma vez.
— E?
— Descobri um erro.
Ele pareceu surpreso.
— Você?
Cruzei os braços.
— Algum problema?
— Nenhum.
Um pequeno sorriso apareceu em seu rosto.
— Parabéns.
Foi uma palavra simples.
Mas eu gostei de ouvir.
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Naquela noite, Artur não conseguiu jantar.
Percebi que estava mais cansado do que nos outros dias.
— O senhor está bem?
— Estou apenas cansado.
— Quer que eu chame um médico?
— Não.
Ele tentou se levantar.
Cambaleou.
Corri até ele.
— Artur!
Segurei seu braço.
Ele respirou com dificuldade.
— Estou bem.
— Não está.
Ele tentou sorrir.
— Você está começando a falar como uma esposa.
Fiquei sem graça.
— Eu só estou preocupada.
Ele sentou novamente.
— Eu sei.
Peguei o telefone e chamei o médico.
Dessa vez, ele não reclamou.
Matteo chegou pouco depois.
Entrou na sala e imediatamente percebeu que alguma coisa estava errada.
— O que aconteceu?
— Ele passou mal.
Matteo foi até o padrinho.
— Por que não me chamou?
Artur respondeu:
— Porque não precisava.
— Sempre diz isso.
Eu fiquei observando os dois.
Era evidente que Matteo se importava com ele.
Talvez muito mais do que demonstrava.
O médico chegou e examinou Artur.
Depois pediu alguns exames.
Eu fiquei ao lado dele durante todo o tempo.
Quando o médico saiu, Artur segurou minha mão.
— Não precisa ficar aqui.
— Eu quero.
— Lara...
— Eu quero ficar.
Ele me olhou por alguns segundos.
— Está bem.
Matteo estava perto da janela.
Eu percebi que ele observava nossas mãos.
Não entendi por quê.
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Mais tarde, Artur foi dormir.
Eu estava voltando para meu quarto quando encontrei Matteo no corredor.
— Você não precisa fazer isso — ele disse.
— O quê?
— Cuidar dele desse jeito.
— Por que não?
— Porque você não é responsável pela doença dele.
Parei.
— Talvez não seja.
Olhei para a porta do quarto de Artur.
— Mas ele é responsável por ter me dado uma chance.
Matteo ficou quieto.
— Ele não precisava me ajudar — continuei. — Poderia ter me tratado como uma dívida. Como meus tios fizeram. Mas não fez.
— Você gosta dele.
Sorri.
— Sim.
— Como?
A pergunta me surpreendeu.
— Como alguém que eu respeito.
Matteo desviou o olhar.
— Entendi.
— Você parece incomodado.
— Não estou.
— Está sim.
Ele ficou alguns segundos em silêncio.
— Eu só não quero que você sofra.
Meu coração apertou.
— Por quê?
Ele me encarou.
Dessa vez, não havia frieza naquele olhar.
— Porque meu padrinho já sofreu demais.
Aquela resposta me fez entender um pouco mais sobre ele.
Matteo não estava apenas desconfiado de mim.
Ele tinha medo de perder Artur.
Talvez fosse por isso que me observava tanto.
— Eu não vou machucá-lo — falei.
— Espero que não.
— E você?
— O quê?
— Vai continuar desconfiando de mim?
Ele deu um passo para trás.
— Ainda estou tentando entender você.
Sorri.
— Então continue tentando.
Passei por ele.
Entrei no meu quarto e fechei a porta.
Encostei as costas nela.
Meu coração estava acelerado.
Eu não sabia explicar o que tinha acontecido naquele corredor.
Matteo continuava sendo um homem perigoso.
Um homem que eu deveria manter distante.
Mas, pela primeira vez, eu percebi que talvez por trás daquele jeito frio existisse alguém que também carregava suas próprias dores.
E eu sabia uma coisa sobre mim.
Eu reconhecia a dor das pessoas.
Talvez porque tivesse passado a vida inteira convivendo com a minha.
Naquela noite, antes de dormir, olhei novamente para a fotografia dos meus pais.
— Acho que finalmente estou encontrando meu caminho.
Sorri.
Mas meu sorriso desapareceu quando pensei em Artur.
Ele havia dito que tinha pouco tempo.
E eu não conseguia imaginar como seria quando aquele tempo acabasse.
Eu ainda não sabia que o homem que estava mudando minha vida começava uma luta contra o relógio.
E que, antes de partir, ele deixaria em minhas mãos algo muito maior do que uma fortuna.
Deixaria um filho.
Uma empresa.
Um legado.
E uma promessa que mudaria para sempre a minha relação com Matteo.
