Capítulo 2 O PLANO

Limpei a garganta de propósito para que ele percebesse minha presença.

Meu marido se virou imediatamente e abriu um sorriso, como se tivesse acabado de ver um anjo.

Ou talvez um demônio.

Pensando bem, duvido que Cristopher ainda enxergasse um anjo em mim.

— Querida... Há quanto tempo você está aí? — perguntou, com as bochechas coradas.

— Acabei de chegar. Por acaso eu deveria ter chegado antes? — arqueei uma sobrancelha.

Mesmo depois de ouvir cada palavra daquela ligação, engoli o choro e fingi que não sabia de nada. Eu não podia deixar que ele percebesse.

— Claro que não, meu amor. Você chegou na hora certa. Que tal sairmos para almoçar juntos hoje?

— Faz mais de os cinco anos que você não almoça comigo.

Minha resposta saiu carregada de estranheza, embora eu soubesse exatamente o motivo daquela mudança repentina. Ele queria que eu acreditasse que nosso casamento ainda tinha salvação para conseguir minha assinatura no divórcio, preservar toda a fortuna e me abandonar sem um centavo para ficar com a amante.

Se dependesse da vontade que eu sentia naquele instante, eu o mataria.

Meu marido era um verdadeiro canalha.

— Meu amor, decidi que as coisas entre nós precisam mudar. Quero recuperar nosso casamento. Você é a minha rainha, a dona de tudo o que eu tenho.

Ele caminhou até mim e depositou um beijo delicado em meu rosto.

— Sério? E desde quando?

Como esquecer que eu o havia flagrado em três traições?

— Amanda, por favor... Isso já passou. Quero que voltemos a ser um casal feliz. Vamos? — Ele estendeu o braço para que eu o segurasse.

— Me dê alguns minutos para me arrumar, Cris. Quero que você tenha orgulho de sair ao lado da sua esposa.

— Você sempre está linda para mim... Mas vá se trocar.

Subi para o quarto.

A hipocrisia de Cristopher me dava náuseas.

Ao mesmo tempo em que eu queria desaparecer, entendia que ele jamais voltaria a me amar como antes.

As lágrimas encheram meus olhos.

Naquele momento, percebi que havia chegado a hora de voltar a dar valor a mim mesma.

Pouco depois, desci usando um vestido preto de decote elegante, salto médio e os cabelos soltos.

Cristopher me observou e sorriu.

Um sorriso falso.

Nem ele conseguia esconder.

— Vamos, minha esposa. Hoje teremos um almoço maravilhoso.

Cristopher me levou a um restaurante simples da cidade.

Simples até demais para alguém com a fortuna que possuíamos.

Por um instante, imaginei que ele escolheria um dos restaurantes mais sofisticados. Logo me lembrei de que tudo aquilo fazia parte do teatro.

O almoço transcorreu de forma tranquila.

Conversamos pouco, mas, para um lugar tão modesto, a comida era surpreendentemente boa.

Percebi também quanto tempo fazia que eu não saía de casa.

Durante anos, minha vida havia se resumido a cuidar dos meus filhos e do meu marido.

Nunca precisei trabalhar.

Cristopher administrava todos os negócios da família, enquanto eu assumia a responsabilidade de criar nossos filhos.

Camille e Santiago eram a razão da minha existência.

Era por eles que eu continuava de pé.

Agora Camille já estava entrando na faculdade, e Santiago, na pré-adolescência, já era muito mais independente.

Meu tempo, enfim, havia se tornado mais livre.

Mesmo assim, eu não fazia absolutamente nada.

Tínhamos empregadas para cuidar da casa.

Eu não tinha amigas.

Não tinha uma profissão.

Não tinha hobbies.

Passava os dias assistindo novelas enquanto meu marido vivia fora de casa.

E eu me perguntava...

Em que momento eu tinha errado?

Eu havia dedicado toda a minha vida à minha família.

— Vamos, querida. Está na hora de irmos embora. Espero que tenha gostado do passeio.

— Claro, amor. Muito obrigada.

Sorri para ele.

Um sorriso tão falso quanto o dele.

Naquele momento, comecei a pensar em uma maneira de conseguir o divórcio sem colocar meu patrimônio em risco.

Eu possuía dinheiro fora do regime de bens do casamento, mas não permitiria que Cristopher tivesse o prazer de me deixar na miséria. Agora que conhecia seu verdadeiro plano, jamais cairia em sua armadilha. Ele fingia me amar apenas para que eu assinasse o divórcio sem questionar as cláusulas, preservando toda a fortuna dele e me deixando na rua. Mas isso não aconteceria. Ele pagaria por cada lágrima que me fez derramar.

Nos dias seguintes, Cristopher continuou representando o marido arrependido. Chegava em casa com presentes e tratava-me como uma rainha, algo que não fazia havia muitos anos. O mais irônico era que, apesar de eu ser bem mais jovem do que ele, Cristopher sempre me fazia sentir como se eu fosse a velha da relação. Muitas vezes me senti feia, insuficiente e frustrada. Nas duas traições anteriores, ele sequer demonstrou culpa; pelo contrário, chegou a debochar da minha dor. Para ele, o dinheiro sempre vinha em primeiro lugar.

Dessa vez, porém, eu também comecei a representar. Passei a fingir que estava feliz, agradecia cada presente sem graça como se fosse o maior tesouro do mundo, mostrava carinho e sorria. Quando ele me procurava na intimidade, eu correspondia aos seus desejos. Mas tudo aquilo não passava de atuação. Eu precisava ganhar tempo até encontrar a maneira perfeita de conseguir o divórcio.

Camille nunca foi filha de Cristopher. Desde pequena, sempre foi extremamente dedicada aos estudos. Concluiu o ensino médio antes da idade comum e, aos dezessete anos, estava prestes a iniciar o curso de Direito em uma das universidades mais prestigiadas da cidade. As mensalidades eram pagas pela fortuna do meu pai. Embora Cristopher a tivesse criado desde os dois anos de idade, jamais desenvolveu um verdadeiro amor por ela. Seu filho favorito sempre foi Santiago; afinal, ele carregava o seu sangue. Eu sempre tive a impressão de que Cristopher fazia distinção entre os dois e, por isso, fui eu quem sempre esteve ao lado de Camille. Eu a levava para todos os lugares, buscava e acompanhava.

No primeiro dia de aula da faculdade, decidi levá-la pessoalmente. Camille sempre foi muito tímida e estava nervosa por estudar ao lado de pessoas mais velhas. Resolvi acompanhá-la diariamente até que ganhasse confiança. Duas semanas se passaram. Continuei levando e buscando minha filha todos os dias. Enquanto isso, em casa, Cristopher permanecia exatamente igual. Cheguei até a pensar que o plano cruel que ouvi naquela ligação não passava de um impulso ou que, de alguma forma, ele realmente tivesse voltado a me amar. Pouco a pouco, minha vontade de enfrentá-lo começou a desaparecer.

— Pronto, filha. Chegamos. Tenha um ótimo dia.

— Obrigada, mãe. Acho que, a partir da semana que vem, já posso vir sozinha no meu carro. Estou me sentindo mais segura.

Camille abriu a porta para descer, mas, de repente, parou. Fechou a porta novamente e ficou imóvel, encarando algo do lado de fora.

— Mãe... Aquela caminhonete não é do Cristopher?

Segui a direção do seu olhar. Era. E ele não estava sozinho.

Meu rosto perdeu toda a cor. Ao lado dele havia uma garota de, no máximo, vinte e três anos; talvez parecesse até mais nova. Loira, magra, muito bonita, com um rosto delicado e angelical. Meu coração pareceu despedaçar dentro do peito. Uma coisa era ouvir suas ligações, outra completamente diferente era vê-lo com meus próprios olhos. Naquele instante, senti uma parte de mim morrer.

— Mãe! Você não vai fazer nada? O que está esperando? Vai lá! Puxa aquela mulher pelos cabelos! Ela está praticamente devorando o Cristopher!

Camille bateu com força no painel do carro. Ela estava indignada. Enquanto minha filha gritava, gesticulava e exigia uma reação, eu permanecia completamente imóvel. Mal conseguia respirar, e o único som que chegava aos meus ouvidos era um zumbido constante. De repente, Camille abriu a porta do passageiro, decidida a ir até eles. Foi então que despertei. Inclinei-me rapidamente para o lado e, antes que ela colocasse os dois pés para fora, segurei sua jaqueta e a puxei de volta para dentro do carro.

— Mãe! O que está fazendo? Eles vão embora! Me deixa ir!

— Não, meu amor. Agora não. Precisamos ser mais inteligentes do que ele. Abaixe a cabeça e não deixe que nos vejam. Vamos descobrir quem é essa garota e para onde ela vai. — Tentei manter a voz firme.

— Mas, mãe... O Cristopher está sendo injusto com você. Ele merece pagar por tudo isso. — Ela respirava com dificuldade de tanta raiva.

— Não se preocupe. Esse homem vai receber o castigo que merece. Eu prometo. Espere só mais um pouco. Depois eu entro com o carro pelos fundos para você entrar sem que ele perceba que esteve aqui.

— Mas ele sabe que eu estudo nesta universidade. Mais cedo ou mais tarde vai descobrir que a amante dele frequenta o mesmo lugar que eu. — Ela afundou no banco, completamente frustrada.

— Filha... Para Cristopher, nós duas somos invisíveis dentro daquela casa. Ele só continua casado comigo por causa do dinheiro. Se eu pedir o divórcio agora, ele perde uma fortuna e ainda coloca em risco os negócios que está fechando com o seu avô. As empresas podem desmoronar. Para ele, eu nunca passei de uma peça no tabuleiro.

— Esse homem não é meu pai! Você devia pedir o divórcio imediatamente! — Ela estava cada vez mais revoltada.

— Tudo tem seu momento. Você vai entender. Mas agora preciso que descubra quem é essa garota. Quero saber o nome dela, o que estuda, tudo o que conseguir descobrir.

Sem desviar os olhos da caminhonete de Cristopher, senti meu coração acelerar. Meu plano finalmente começava a tomar forma.

— Pode deixar, mãe. Eu vou descobrir tudo. Esse homem vai pagar por cada coisa que fez com você.

— Não deixe o ódio tomar conta do seu coração. Isso é um problema meu. Se realmente quiser me ajudar, descubra tudo sobre essa garota. Do resto, eu cuido. Quando Cristopher voltar para casa, continue agindo normalmente. Quero que isso fique só entre nós duas. Confio em você. Tudo o que vou fazer é para garantir que você, seu irmão e eu possamos ser felizes de verdade.

— Está bem, mamãe.

Camille me abraçou com força. Naquele instante, tive certeza de que, quando reunisse todas as provas necessárias, pediria o divórcio e faria Cristopher perder tudo por causa da própria infidelidade. Minha vingança começava ali.

Cerca de dez minutos depois, vimos a jovem descer da caminhonete. Ela carregava uma mochila nas costas, usava uma minissaia curtíssima e um decote profundo que valorizava o corpo. Era bonita, muito bonita, mas sua aparência deixava claro que era apenas uma garota comum. Antes de ir embora, ela se despediu de Cristopher pela janela. Ele colocou um grosso maço de dinheiro em sua bolsa. Ela colocou os óculos escuros, sorriu de forma triunfante e entrou na universidade.

Era inacreditável. Meu marido havia se deixado levar por algumas curvas e fazia todas as suas vontades. Pior do que a traição era saber que ele pretendia me destruir para ficar com tudo o que também era meu. Se eu não tivesse ouvido aquela ligação naquele dia, teria acreditado em cada palavra do falso arrependimento dele. Foi naquele momento que comecei a planejar tudo o que faria. Jurei pelos meus filhos que, custasse o que custasse, Cristopher pagaria por toda a infelicidade que havia causado à nossa família.

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