Capítulo 3 PRAZER EM CONHECÊ-LA, EU SOU SAMANTHA
Depois da cena que presenciei na universidade de Camille, meu marido continuou bancando o parceiro perfeito. Ou, pelo menos, era isso que ele tentava aparentar. Passou a chegar em casa com lembrancinhas baratas, compradas em qualquer esquina, como se pequenos presentes fossem suficientes para apagar anos de desprezo. Quando me beijava, não havia amor algum naquele gesto; bastava um segundo para perceber o incômodo que ele fazia questão de esconder. Era um hipócrita.
Dessa vez, porém, eu não cairia novamente em sua armadilha.
Naquela noite, Cristopher me convidou para participar de um jantar com os sócios da empresa, e resolvi aceitar. Passei a tarde inteira no salão de beleza: cortei o cabelo, fiz uma maquiagem impecável e deixei as unhas perfeitas. Depois, comprei um vestido branco justo, que valorizava meu corpo. Mesmo depois de dois filhos, eu continuava cuidando da minha aparência. Talvez muita gente considerasse que, aos trinta e quatro anos, eu já não fosse mais tão jovem, mas eu pensava exatamente o contrário. Nunca havia me sentido tão bonita, e sabia que estava. Queria apenas ver a reação do meu marido.
Cristopher passou para me buscar no horário combinado. Como sempre, estava impecavelmente vestido. Era um homem bonito, elegante e extremamente vaidoso. Apesar de ser dez anos mais velho do que eu, mantinha uma excelente forma física. Nunca faltava à academia, cuidava da aparência com disciplina e o tempo parecia não deixar marcas em seu rosto. Seus olhos azuis ainda tinham o poder de acelerar meu coração.
Foi naquele instante que percebi o quanto ainda estava apaixonada por aquele homem. Estávamos casados havia mais de quatorze anos... E, mesmo assim, eu nunca o conhecera de verdade. Como alguém a quem entreguei toda a minha vida podia querer me destruir daquela maneira? Maldito.
— Meu Deus... Amanda... Como você está linda! Escondeu toda essa beleza esse tempo todo?
Pela primeira vez em muito tempo, aquele elogio pareceu sincero. Os olhos de Cristopher se arregalaram, e suas pupilas dilataram ao me ver.
— Obrigada, querido. Você também está muito bonito.
Sorri e estendi a mão para ele. Cristopher segurou meus dedos com delicadeza e depositou um beijo sobre eles. Depois, sua mão deslizou lentamente pelo meu braço até alcançar meu pescoço. Meu corpo inteiro reagiu àquele toque. Por um breve instante, senti vontade de me entregar, mas logo recobrei a razão: era tudo mentira, tudo fazia parte do plano dele. Eu precisava me lembrar disso e não podia permitir que meu coração falasse mais alto.
— Vamos, querido. Vamos nos atrasar.
Dei um beijo rápido em sua bochecha e me afastei antes que ele tentasse se aproximar ainda mais. Sua expressão mudou imediatamente. Era evidente que meu afastamento havia ferido seu orgulho, e aquilo me deu uma discreta sensação de satisfação.
A noite acabou sendo muito melhor do que eu esperava. Não por causa de Cristopher, mas por causa dos sócios da empresa. Eles conversaram comigo o tempo inteiro, fizeram elogios sinceros e me trataram como se eu ainda fosse uma jovem encantadora. Pela primeira vez em muitos anos, eu me senti bonita, desejada e importante. O mais curioso foi perceber que meu marido parecia incomodado e ciumento. Cheguei a me perguntar se ainda existia algum sentimento dentro dele.
Na volta para casa, o celular de Cristopher não parava de tocar. Já havíamos tomado alguns drinques, e eu sabia perfeitamente quem insistia tanto naquela ligação.
— Pode atender. Sua amante deve estar desesperada porque você ainda não respondeu.
Olhei para ele com um sorriso carregado de ironia. Cristopher lançou um olhar irritado em minha direção.
— Amanda, sinceramente, não estou com paciência para as suas provocações. E também não gostei nem um pouco do seu comportamento hoje. Você passou a noite inteira conversando com outros homens. Você não é mais uma garotinha.
Soltei uma risada baixa.
— Ah, é mesmo? E quem disse que fui tratada como uma mulher da minha idade?
Os olhos dele escureceram imediatamente, e seu maxilar ficou rígido. Qualquer pessoa acreditaria que aquela reação era fruto do ciúme de um homem apaixonado, mas eu conhecia a verdade. Se ao menos ele fosse um ator melhor...
Naquela noite, Cristopher desligou o celular, deitou-se ao meu lado e tentou me procurar na cama. Mas minha dignidade falou mais alto que qualquer desejo; fingi que estava profundamente adormecida. Pela segunda vez no mesmo dia, foi ele quem teve de lidar com a rejeição. Confesso que aquilo me trouxe uma satisfação que eu jamais imaginei sentir.
Nos dias seguintes, tudo continuou exatamente igual. Cristopher seguia interpretando o marido arrependido, cercando-me de falsas demonstrações de carinho e de um amor que nunca existiu. Enquanto isso, Camille cumpria a missão que havíamos combinado. Ela conseguiu se aproximar da garota com quem meu marido mantinha um relacionamento e por quem pretendia destruir a nossa família. Apesar da pouca idade, minha filha era extremamente madura; em pouco tempo, conquistou a confiança da garota e reuniu informações importantes.
Na tarde em que fui buscá-la na universidade, encontrei as duas conversando na saída.
— Oi, mãe! Que bom que você veio! Quero apresentar uma pessoa. — Camille abriu um sorriso animado.
Aproximei-me naturalmente.
— Então você é a nova amiga da minha filha? Muito prazer. Eu sou Amanda. — Estendi a mão.
A jovem sorriu imediatamente.
— Olá, dona Amanda. Prazer em conhecê-la. Eu sou Samantha Avile.
— Que nome bonito. — Sorri cordialmente. — E então, meninas? Que tal irmos comer alguma coisa?
Eu precisava conhecer aquela garota de perto. Seu rosto ainda transmitia a delicadeza e a inocência típicas da juventude, mas, por trás daquela aparência angelical, eu já sabia muito bem o tipo de pessoa que ela era. Naquele dia, Samantha usava uma minissaia de couro, um top curto que mal cobria os seios, os cabelos soltos e um par de tênis modernos. Era jovem, bonita e tinha todo o direito de se vestir da maneira que quisesse.
— Ah... Muito obrigada pelo convite, dona Amanda, mas infelizmente vou precisar recusar. Meu namorado costuma vir me buscar quase todos os dias e hoje nós vamos fazer compras. Sabe como é... Não dá para recusar. — Ela sorriu de orelha a orelha enquanto segurava o braço de Camille.
Minha filha apenas retribuiu com um sorriso educado.
— Claro. Eu entendo perfeitamente. Quando o assunto é fazer compras, realmente fica difícil dizer não. — Minha voz saiu carregada de frieza.
— Pois é. Ele me dá tudo o que eu quero. Então tenho que aproveitar.
Senti meu sangue ferver.
— Tudo? — Perguntei, encarando-a diretamente.
Por um instante, tive vontade de apagar aquele sorriso do rosto dela. Não importava que fosse apenas uma garota; naquele momento, minha vontade de confrontá-la era quase incontrolável.
— Mãe, vamos? Estou morrendo de fome. — Percebendo que eu estava prestes a perder o controle, Camille segurou meu braço e tentou mudar de assunto.
Antes que eu respondesse, o celular de Samantha começou a tocar. Ela tirou da bolsa um aparelho de última geração. Eu não precisava perguntar quem havia comprado aquele telefone; as unhas impecáveis, as roupas caras e todos os acessórios denunciavam a origem de cada presente.
— Oi, meu amor... Onde você está, minha vida? — A voz dela tornou-se exageradamente doce.
Sem sequer se despedir, afastou-se sorrindo enquanto atendia à ligação. Fiquei observando até ela desaparecer. Meu peito queimava. Cristopher enchia aquela garota de presentes caros enquanto, para mim, sobravam flores murchas e lembranças sem valor. Eu já nem conseguia definir exatamente o que estava sentindo: raiva, humilhação, nojo, ou talvez tudo isso junto.
— Mãe... — Camille me abraçou com força. — Fica calma. Ele não merece destruir você desse jeito. Está na hora de começar a pensar em si mesma. O Santiago já é independente, não precisa mais de você o tempo inteiro. Faça uma faculdade, um curso, vá para a academia... Qualquer coisa. Mas, por favor... Pare de viver apenas para ele. Eu não quero mais ver você sofrendo.
As palavras da minha filha atravessaram meu coração. Ela sabia que, por dentro, eu estava completamente destruída e, mesmo sem poder resolver aquele problema por mim, tinha razão em tudo o que dizia. Sem conseguir conter as lágrimas, escondi o rosto em seu ombro. Eu havia tentado permanecer forte o tempo todo, mas era impossível. Meu marido havia me trocado por uma garota comum, muito mais jovem do que eu, gastava fortunas para realizar todos os caprichos dela e, como se isso não bastasse, ainda planejava tirar de mim tudo o que era meu. Durante todo esse tempo, eu havia sido manipulada pelo homem em quem mais confiava. Mas aquilo não terminaria assim. Cristopher pagaria por tudo o que fez comigo.
