Capítulo 6 🥀 Capitulo 6 🥀
Hannah Brooks.
O último mês, desde que fui expulsa de casa por me recusar a trancar a faculdade para financiar o carro da minha irmã, foi uma sequência de tombos. Sinto como se o universo me fizesse de palhaça. Estou exausta.
Passei os primeiros cinco dias no quarto de hóspedes da Susan e do Peter. Eles foram incríveis e me acolheram sem prazo para sair, mas o orgulho e o medo de ser um fardo falaram mais alto. Não queria me sentir um peso na vida de ninguém.
Desabafei com a Jane no trabalho e, duas frases depois, decidimos dividir um apartamento. O lugar é simples, com dois quartos e cozinha americana, mas é um teto. Dividimos tudo meio a meio. Para mim é até vantajoso; eu já pagava metade das contas na casa dos meus pais e ainda fazia o trabalho doméstico. A diferença é que agora ninguém joga na minha cara que devo ser grata por morar aqui.
Mas os problemas não pararam. Uma semana após a mudança, recebi um e-mail da universidade. Meus pais tentaram me passar para trás: ligaram se passando por mim para cancelar minha matrícula e, como sou maior de idade e a tentativa falhou, enviaram uma carta falsa com uma assinatura falsificada solicitando o desligamento. Foi um caos. Tive que correr atrás de coordenação, provar a fraude e reverter o absurdo. Jane foi meu porto seguro em cada etapa.
Para completar, briguei feio com o Ryan umas quatro vezes este mês. O motivo é sempre o mesmo: ele insiste para eu morar com ele, alegando que é o "próximo passo" e que assim ele poderá focar na carreira de músico. Eu sempre apoiei os sonhos dele, mas não vou bancar homem marmanjo enquanto mal consigo me sustentar e pagar a faculdade. O Ryan ficou frio e distante após os meus recusas, mas repito a mim mesma que vamos nos acertar. Só precisamos de tempo.
— Hannah, tá pronta? — Jane chama da porta. — Levi e eu já estamos de saída.
— Saindo em um minuto! — Jogo água no rosto, tentando lavar o cansaço e o peso acumulado de trinta dias de puro inferno.
O dia havia sido brutal. Corrido demais, exigente demais, com mais cobrança do que deveria existir para um salário tão baixo que beira a ofensa. Gente impaciente, pedidos errados, caras tortas por atrasos que não dependiam de mim. O pacote completo da vida adulta mal paga.
Seco o rosto com papel-toalha, jogo a mochila sobre os ombros e saio do banheiro, agradecendo mentalmente aos céus por ter sobrevivido a mais um turno sem perder completamente a sanidade. Jane e Levi já estão no estacionamento da lanchonete, próximos à caminhonete dele, ambos rindo de alguma coisa aleatória, daquele tipo de riso leve que parece um pequeno luxo depois de um dia pesado.
Estou prestes a me aproximar quando alguém para bem na minha frente, como se fosse uma muralha humana, disposto a impedir minha passagem.
Dou um passo para o lado.
O homem à minha frente repete o movimento.
Dou um passo para o outro lado.
Ele copia de novo.
Paro. Respiro fundo. Conto mentalmente até três para não xingar um completo desconhecido no estacionamento mal iluminado de uma lanchonete.
Ergo o rosto para encará-lo, tentando identificar se já o tinha visto antes. Mas não, nenhuma lembrança vem à mente. E, sinceramente, a meia-luz amarelada dos postes não estava ajudando em nada.
— Com licença — começo, reunindo toda a calma que me resta depois de passar o dia inteiro lidando com o público. — Eu preciso passar e você não está colaborando. Pode, por favor, sair da frente?
— Estou mais do que disposto a deixá-la ir embora, mas antes preciso que me conceda apenas cinco minutos da sua atenção.
A voz dele ecoa firme, rouca, formal demais para qualquer ser humano normal às oito e quinze da noite de uma terça-feira. Aquela entonação que parece saída de um escritório com ar-condicionado, não de um estacionamento cheirando a gordura fria e gasolina.
Eu o encaro por um momento. Ele usa roupas sociais, que destoam completamente do cenário ao redor. Ergo os olhos para observar melhor seu rosto: maxilar firme, traços marcantes, barba por fazer como se tivesse esquecido de si mesmo por alguns dias, alto — bem mais alto do que eu —, cabelos escuros presos atrás da cabeça, olhos azuis… gélidos, firmes, analíticos.
Bonito, ao menos sob a iluminação questionável do estacionamento.
E claramente mais velho.
— Você é algum tipo de advogado que meus pais contrataram para me infernizar por eu não querer financiar o carro da minha irmã? — pergunto, sentindo minha paciência se esvair pelos dedos. — Porque, se for, já vou avisando que…
— Eu não sou nenhum advogado e… — ele faz uma pausa, me encarando com uma curiosidade quase genuína. — Espera. Seus pais estão te processando por você não querer financiar um carro para sua irmã? Isso é… possível?
Ele me olha como se eu fosse um ser de outro mundo, o que me faz revirar os olhos com força suficiente para quase ver o cérebro.
— Eu nem sei se é possível. Mas eles estão tentando — dou de ombros, cansada demais para me chocar com o absurdo da minha própria vida. — Se você não é advogado, então… é algum líder de culto maluco querendo me converter para a sua religião?
— O quê? — a estranheza na voz dele me faz segurar o riso. — Quer dizer… não, eu não sou.
Ele respira fundo, passando a mão pelos cabelos, como se estivesse tentando organizar um discurso que claramente não ensaiou direito.
— Eu não sou advogado dos seus pais, não sou líder de culto e… o que quer que esteja passando pela sua mente agora, eu só… — ele hesita, escolhendo as palavras com cuidado. — tenho uma proposta a lhe fazer e…
— Agradeço, mas eu já tenho namorado. Noivo, na verdade. Então não preciso de um sugar daddy… apesar que… — levo a mão ao queixo, fingindo ponderar seriamente. — Eu preciso de dinheiro, então talvez não fosse uma ideia tão ruim. O problema é que, droga… o Ryan não iria gostar muito disso. Você se importaria se eu continuasse com meu noivo?
— O QUÊ?! — ele eleva o tom de voz, me fazendo erguer os olhos e voltar a encará-lo de vez. — Eu não…
— Merda, eu sei, é irreal, né? — continuo, sem lhe dar espaço. — Você não pode sustentar a mim e ao Ryan. Ele também é orgulhoso, não aceitaria algo assim.
Faço um beicinho de falso pesar, teatral demais até para mim mesma.
— É uma pena, mas eu amo meu noivo. Então vou ter que recusar você como meu sugar daddy. Mas, ei… boa sorte por aí.
O homem à minha frente pisca algumas vezes, como quem ainda tenta entender em que universo paralelo foi parar. Se ele, que causou essa situação bizarra, está confuso, quem dirá eu, que nem conheço esse maluco.
