Capítulo 7 Capítulo 7
Ao cruzar a saída do corredor que dá para o hall, deparo-me com uma mulher que parece uma modelo, de tão bela. Ela é bem mais alta do que eu e possui um corpo curvilíneo, mesmo sendo magro. Seus intensos olhos azuis me fitam de cima a baixo, e noto um ponto de interrogação se formar na sua testa. Ela desliza os dedos sobre os cabelos platinados, balançando-os de um lado para o outro como se estivessem em câmera lenta. Se é que isso é possível.
— Quem... — ela começa, mas Dami já adianta:
— Esta é a senhorita Laura Flores, a nova babá, senhora. — A loira olha para Damiana, depois volta o olhar para mim e assente.
— Hum... ok! Onde está seu uniforme, querida? — Ela mal acabou de me conhecer e está preocupada com o meu uniforme? É sério isso?
Damiana explica que o uniforme não coube em mim e que já pediu peças novas. A mulher assente, ainda me encarando. Felipe me ajuda dizendo o quanto fiquei feia com a roupa, e faz questão de rir da minha cara enquanto minha chefe continua me avaliando. Acho que não passei na primeira impressão, pelo visto.
Os dois menores me deduram para a mãe, comentando sobre a sopa que foram obrigados a tomar, porque não quis dividir com eles a pipoca que fiz e, a todo momento, desvio os olhos fingindo uma inocência descabida. Esses pestinhas fofoqueiros! Finjo que não vejo a cara feia que a mulher está fazendo enquanto encaro o bonito hall, e posteriormente assisto Alice, permanecendo onde está, sem se dignar a cumprimentar a madrasta.
— Acho que a senhorita Flores pode preparar pipoca salgada amanhã quantas vezes vocês quiserem, não é mesmo? — A mulher pergunta para mim, e sou obrigada a responder que sim.
As crianças soltam risadinhas maliciosas demais para o meu gosto e, quando estou prestes a dizer que está na hora de subirmos, escuto uma voz grossa soar firme do lado de fora da porta:
— Gustavo, por favor, leve as malas para os nossos aposentos.
— Papai. — Os gêmeos falam em uníssono e andam em sua direção. Noto que Alice levanta-se da mesa e caminha cabisbaixa até o pai. Viro-me automaticamente para a porta e, ao ver o senhor Delamont cruzá-la, sinto como se todo o ar tivesse sido tirado de dentro de mim; ou quase isso.
O homem, de quase dois metros de altura, desvia automaticamente seus olhos na direção dos filhos. Ele é bonito, não tenho como negar, simplesmente uma vasta definição da palavra viril. Ele está usando uma blusa branca de botões que, mesmo contendo mangas compridas, não escondem os músculos proeminentes nem os ombros largos que possui. Ele passeia os dedos pela cabeleireira espessa, e as madeixas negras e onduladas parecem ainda mais revoltas. Observo-o abraçar um por um de seus filhos, de forma mecânica.
— Crianças, precisamos descansar, nossa viagem foi cansativa demais, e acho que já está na hora de nos recolhermos. — A senhora Sophia comenta, e Alice fecha o semblante. — Laura, querida, faça o seu trabalho e leve as crianças para o andar de cima.
Ao escutar sua esposa, o homem enfim olha para mim. Noto o momento em que seus olhos, tão azuis quanto o mar, titubeiam e no quanto ele parece confuso. Sinto as palmas das minhas mãos suarem conforme ele parece penetrar a minha alma com aquelas safiras profundas. Há algo distinto ali, posso sentir, algo parecido com tristeza, solidão, abismo. Um precipício incapaz de ser penetrado.
— Eu sei onde fica o meu quarto! — Alice brada roubando minha atenção para si.
— Alice, por favor, filha. — O tom de voz do homem soa seco e ele finalmente se dirige a mim. — Prazer, sou Nikolas Delamont, quem é a senhorita mesmo?
Abro a boca para falar, porém minha chefe é mais rápida:
— Amor, esta é Laura Torres... — corto-a:
— Flores.
— Isso. — Sua voz sai nasalada. — A nova babá.
— Ah, claro! Damiana já informou tudo sobre o seu trabalho, senhorita Flores? — Assinto e ele emenda: — Ótimo! Faça-o bem, que será remunerada bem. — Somente assinto, ainda mais depois de ouvir tais palavras curtas e grossas.
— Bom... — A senhora Sophia bate palmas e diz virando-se para as crianças: — Como já está tarde, chega por hoje. A babá levará vocês até os aposentos de cada um, e amanhã decidiremos o que vamos fazer.
Noto que as crianças murcham. Olho para o meu relógio de pulso e constato que não deu nem nove horas da noite. Eles mal chegaram, trocaram meia dúzia de palavras com os filhos e já querem descansar, porém, como realmente é meu trabalho, peço às crianças para se despedirem dos pais e noto Alice não fazer questão de falar com eles. Ela gira sob os calcanhares e sobe para o seu quarto na frente dos irmãos pequenos. Observo as carinhas decepcionadas dos gêmeos, enquanto sobem as escadas devagar, e tento não pensar no quanto essas crianças são carentes de afeto. O pai parece um homem feito de gelo, e a mãe uma socialite que aparentemente não tem paciência com os próprios filhos. Ando pelo corredor, tentando pensar numa maneira de compensar os pestinhas, mas nada me vem à mente. Ao entrar no quarto, encaro os lençóis emaranhados nas suas camas e lembro-me de várias noites que fazia festas do pijama com minha mãe, antes de a mesma falecer, e com vó Berta.
— Ok! Que tal uma festa do pijama? — Bato palmas ao virar-me para eles.
— Como assim? — Lipe é o primeiro a questionar. Dora parece tão perdida quanto o irmão.
— Vocês nunca fizeram uma festa do pijama? — Os dois pequenos fazem que não com a cabeça. — Beleza! Dora, chama Alice aqui e não diz nada ainda. — A menina, de cabelos escuros, faz que sim com a cabeça e corre pelo corredor. — Lipe, me arrume quantos lençóis e travesseiros puder.
O menino logo se anima e começa a juntar os lençóis e travesseiros em cima de sua cama. Dora e Alice voltam logo depois, e procuro explicar à mais velha sobre a minha ideia. Claro que a senhorita emburrada-mirim não fica feliz, porém, não questiona também. Peço para que arrume algumas caixas de papelão e cadeiras numa das salas, mas a criatura precisa retrucar:
— Eu não vou carregar nada! — Cruza os bracinhos finos.
— CreinDeuspai, mas tu é a cara do papai! — refiro-me ao fato dela ser ranzinza igual a ele. — Até rimou! — gargalho. A menina me olha mais irritada ainda e sai bufando. — Vou procurar alguns doces, ok! — Os gêmeos assentem, e desço.
Mais uma vez, passo pela porta que não deve ser aberta nem questionada, e a mesma sensação estranha volta a me assombrar. Sabe quando parece que tem alguém observando você? Então, essa é a sensação. Passo pelo corredor estreito, chegando rapidamente no saguão, quando meus olhos são automaticamente puxados para o quadro na parede. A mulher na foto não é a senhora Sophia. Me aproximo devagar e observo que seus olhos me acompanham. Faço o sinal da cruz, porque isso não pode ser coisa de Deus, e quase grito ao dar de cara com o senhor Nikolas Delamont de frente para a pintura. Por incrível que pareça, mesmo com todo o tamanho desse homem, ele conseguiu ficar invisível na penumbra do corredor.
— Jesuscristin! — ele me encara e franze a testa. Levo minha mão ao peito e, por alguma razão ridícula — diga-se de passagem —, espero a tranquilidade anterior voltar para o meu corpo. — Credo, como consegue se esconder assim? — Sei que pareço histérica, mas não estou ligando para isso nesse momento.
— E por que esse escândalo todo? — Seu tom de voz é alto.
Ok! Minha sanidade voltou na mesma hora depois desse corte.
— Bom, não sou de ferro... — Dou de ombros, lembrando-me com quem estou falando e, tentando me retratar, completo: — Senhor Delamont.
Ele assente e volta a encarar o quadro estranho que parece olhar na minha direção.
— O senhor não tem medo de encarar essa coisa esquisita?
— Esquisito é alguém que mal conheço dizer o que fazer dentro de minha própria casa! — Gente, quando eu pensava que não viriam mais coices, eis que surgem mais. — Se não posso admirar o quadro de minha esposa, a quem devo admirar?
Franzo a testa. A mulher na foto é bem diferente da senhora Delamont. Os cabelos são loiros, porém, mais escuros do que o da senhora Sophia e mais longos também, enquanto as madeixas de minha chefe batem no queixo dela. Até a fisionomia é diferente.
Penso em dizer que ele poderia começar admirando sua atual esposa, porém, como vó Berta sempre dizia: Louco, Lau, não se retruca!
— O senhor tá certo! — respondo, sem questionar, pronta para sair dali. Volto a caminhar, contudo, o homem consegue ser mais rápido:
— Por que eu teria medo, senhorita Flores? — Abaixo a cabeça, pensando em mil coisas para respondê-lo sobre o porquê de ter medo desta casa enorme e estranha, mas ele emenda: — Da pintura. — Aponta para ela, e dou de ombros.
— Não sei explicar, tem algo de sobrenatural nela. — dimunuo o tom de voz gradativamente. — Sempre que passo por aqui, ela parece me espreitar.
— A senhorita é de onde? Percebo que possui um leve sotaque.
— Minas, senhor.
Ele assente e volta a admirar o quadro.
— Nikolas, querido, seu banho já está pronto. — A senhora Sophia aparece em meio às sombras do corredor, que segue para os aposentos deles, e tento fugir mais uma vez escada abaixo. Ela olha de mim para o marido, depois para o quadro na parede e bufa.
— Claro, querida! — o homem responde e olha para mim novamente. Seus olhos azuis esquadrinham os meus, e sinto uma tristeza imensurável neles. — Já ouviu falar no quadro de Mona Lisa, musa de Leonardo da Vinci, senhorita Flores?
— Sim.
— Querido... — a mulher tenta, mas ele se recusa em responder.
— Disseram que havia sido pintada com uma técnica que hoje conhecemos por efeito Mona Lisa, no qual a pessoa que está sendo retratada precisa estar com o olhar exatamente a cinco graus para à direita durante a pintura. Pensava-se que o quadro mais famoso de Da Vince tinha essa mesma técnica, porém, estudiosos viram mais tarde que havia ocorrido um equívoco e que o olhar da mulher tinha sido retratado com 15,4 graus à direita, o que ajuda a comprovar que tal efeito jamais foi introduzido nele. Contudo, ele continua a perpetuar com o mesmo nome até hoje e muitos pintores ainda usam essa técnica.
Confirmo lentamente com a cabeça, tentando compreender aonde ele quer chegar com toda essa história, mas o homem continua:
— Eu mesmo retratei minha esposa e testei essa teoria. Na época, ela estava grávida e eu quis eternizá-la de alguma maneira. — O homem se vira para mim. — E consegui. Hoje, Lívia nos acompanha com seus olhos verdes e grandes. — Sophia bufa. Pior que eu nem posso questioná-la, uma vez que isso parece mórbido demais. — Bom, a deixarei com Lívia enquanto acompanho minha esposa até os nossos aposentos, com licença. — Arregalo os olhos e encaro a tal Lívia e seus olhos verdes e grandes. Credo! Me lembrei até do Lobo Mal com toda aquela história de “para te enxergar melhor”. Ele encaminha-se até a esposa, porém, vira-se para mim novamente antes de seguir em frente: — Quero que saiba, senhorita, que tem meu consentimento caso precise disciplinar nossos filhos. Tenha uma boa-noite!
E eles somem pelo corredor escuro me deixando com o retrato de Lívia que, provavelmente, deve ser a mãe de Alice.
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Desço rapidamente e encontro poucas coisas na dispensa da cozinha. Apenas biscoitos recheados e milho de pipoca. Observo a geladeira e encontro pão, presunto defumado e requeijão. Faço sanduíches e acrescento salada de alface e tomate. Após fazer um jarro de limonada grande, subo com tudo numa bandeja. Os pequenos aprovam o lanche enquanto Alice reclama que não gosta de presunto. Falo que ela é livre para ficar com fome, e a menina acaba aceitando um dos sanduíches.
Após comermos, construímos nossa barraca, e a mais velha aproveita para ler alguns contos dos seus livros. Ela parece bem animada, fato que me deixa animada também. Logo depois, os gêmeos começam a bocejar e me perguntam se podem dormir dentro da barraca. Informo que sim, desde que arrumem tudo no dia seguinte. Alice fica reticente em dormir também, mas no fim, acompanha os irmãos mais novos nessa aventura.
Observo a hora, e noto que já está próximo de meia-noite e me despeço deles. Dora diz que não posso andar sozinha pela casa a uma hora dessas e pede para que eu durma em uma das camas. Informo aos três que não precisam ter medo, pois estarão unidos. Alice não diz nada, mas reparo que rói as unhas, por isso, durmo mal acomodada na cama de Dora; encolhida e torta. Noto que em nenhum momento eles apagam a lanterna de dentro da barraca e ainda me pedem para manter o abajur ligado. Faço o que pedem e tento não pensar no lugar onde minhas teorias estão me levando nesse momento.
