Capítulo 2 A mentira que eles enterraram

— Onde está o meu bebê?

A voz de Melissa estava rouca e frágil depois de horas de trabalho de parto e exaustão.

Seus braços doíam de tanto se esticar em busca de uma criança que ela ainda nem tinha segurado.

O quarto de hospital dentro da ala médica do presídio parecia quieto e vazio demais.

A enfermeira Tracy evitou encará-la enquanto ajeitava o cobertor fino sobre o corpo trêmulo de Melissa.

— Foi uma menina — disse a enfermeira, sem emoção.

Os lábios de Melissa se curvaram, fracos, apesar da dor. — Uma menina? — sussurrou. — Posso ver ela? Por favor... só uma vez.

A enfermeira Tracy hesitou. A pausa foi pequena, mas mudou tudo.

— Ela nasceu com defeitos. Mal chorou... antes de parar de respirar.

As palavras atingiram Melissa como um golpe físico.

— Não. — Os dedos dela agarraram o cobertor fino. — Não, eu ouvi. Eu ouvi ela chorar.

— Foi reflexo — respondeu a enfermeira Tracy, fria. — Sinto muito.

Uma palavra tão pequena para algo tão enorme; Melissa desabou.

Os soluços dela ecoaram pelas paredes estéreis. Sem família, sem noivo, sem ninguém para assinar papéis, e sem ninguém para segurar sua mão. Sua filha, perdida antes que ela pudesse sequer tocá-la.

Naquela noite, muito depois de Melissa chorar até cair num silêncio exausto, a enfermeira Tracy estava no berçário mal iluminado com um bebê bem vivo enrolado em rosa.

Os pulmões da criança eram fortes, seus punhinhos minúsculos fechados com uma força silenciosa.

— Ela é perfeita — disse uma voz suave da porta.

A srta. Scarlett Hill deu um passo à frente, vestida com uma elegância discreta que sussurrava poder em vez de gritá-lo. Diamantes cintilaram de leve sob as luzes fluorescentes.

Ela não parecia uma mulher cometendo um ato ilegal. Parecia uma mulher fazendo uma aquisição — e intocável.

Ela estivera naquele mesmo corredor do hospital horas antes, com a voz calma e imperativa.

— Ninguém pode saber do bebê — Scarlett havia dito. — Nem a mãe, nem o pai.

— E a criança? — a enfermeira Tracy perguntara, em voz baixa.

Os lábios de Scarlett se curvaram de leve. — Ela será criada onde pertence. Não podemos trazer uma... dama dessas para a família.

— A mãe acredita que o bebê morreu — respondeu a enfermeira Tracy.

Scarlett assentiu uma vez, tirou da bolsa um envelope grosso de dinheiro e entregou à enfermeira Tracy.

— Sem registros — disse Scarlett, com suavidade. — Sem nomes e sem passado. Esta criança nunca existiu.

A enfermeira Tracy engoliu em seco e assentiu de novo.

Dinheiro podia silenciar quase qualquer coisa, até a dor de uma mãe.

..........

A quilômetros dali, num escritório envidraçado com vista para o horizonte de Nova York, o sr. William Hill encarava o nada.

O CEO da Hillcrest Holdings não era um homem acostumado a deixar assuntos inacabados, e, ainda assim, uma lembrança se recusava a desaparecer. Uma mulher de olhos azuis suaves. Uma noite que nunca deveria ter importado, mas importou.

— Senhor? — Noah Hart estava junto à porta, tablet na mão.

— Procure de novo — disse William, sem se virar. — Registros do hotel, listas de convidados do evento, imagens das câmeras de segurança. Quero que a encontrem.

— Já faz meses — Noah disse com cuidado.

O maxilar de William se contraiu. — Então procure melhor.

Ele não sabia o nome dela, nem conhecia a história dela, mas havia algo naquela noite que o inquietara de um jeito que ele não conseguia explicar. E William Hill odiava pontas soltas.

Meses depois

Os portões da prisão se abriram, e Melissa saiu com uma sacolinha plástica contendo seus pertences e um vazio no lugar onde antes morava o coração.

Vinte e dois meses revivendo aquele instante e sonhando com o choro de um bebê que talvez nunca tivesse existido.

A agente Mandy ajeitou o boné e lhe entregou os papéis da liberdade condicional.

— Você saiu mais cedo — disse Mandy, severa. — Não desperdice.

Melissa assentiu em silêncio.

— Arrume um trabalho fixo imediatamente — Mandy continuou. — Uma infração, uma reclamação, e você volta pra dentro. Entendeu?

— Sim, senhora.

— A sociedade não gosta de ex-presidiários — Mandy acrescentou, direta. — Então se esforce mais.

Os portões se fecharam atrás dela com um último estrondo metálico. A liberdade não parecia livre; parecia pesada.

O mundo andava rápido demais para alguém sem ter para onde ir.

Melissa se candidatou a vagas em todo lugar — escritórios, lojas de varejo e serviços de limpeza. No instante em que as verificações de antecedentes voltavam, os rostos mudavam.

— Nós ligamos. — Nunca ligavam. Uma ex-presidiária era um risco que ninguém queria.

Suas economias minguaram até quase nada.

Numa noite, exausta e com fome, Melissa sentou sozinha num pequeno boxe num canto de um restaurante simples.

Pediu o item mais barato do cardápio e foi tomando água devagar para esticar o tempo.

Acima do balcão, a televisão exibia uma notícia de última hora. A voz da âncora era firme e precisa.

“... A Hillcrest Holdings anunciou que está procurando uma babá residente para a filha do CEO. Fontes dizem que o salário foi fixado em dez mil dólares por semana.”

O garfo de Melissa parou no ar, e ela virou a cabeça num estalo para a televisão presa à parede.

A tela mudou, mostrando um homem de terno sob medida saindo de um sedã preto impecável com uma elegância ensaiada. William Hill. Olhos frios, expressão controlada, mas uma presença poderosa.

A repórter continuou.

“Os candidatos passarão por uma triagem rigorosa. A vaga exige discrição e dedicação em tempo integral.”

Dez mil dólares por semana? Seus problemas com aluguel desapareceriam, sua liberdade condicional continuaria intacta, e ela não voltaria para a prisão. O coração dela disparou.

Ela encarou o rosto de William na tela, sem perceber o fio invisível que já amarrava as vidas dos dois.

Ele procurava uma mulher com quem havia passado uma noite. Enquanto isso, ela lamentava uma filha que acreditava estar morta. Nenhum dos dois sabia a verdade.

Melissa se levantou de repente, deixando algumas notas amassadas sobre a mesa.

Pela primeira vez desde que saíra, algo que parecia uma possibilidade tremeluzia dentro dela.

— Eu não tenho mais nada a perder — sussurrou.

Naquela noite, numa biblioteca pública, usando um computador emprestado, Melissa preencheu a inscrição. Não mencionou a prisão, o bebê, nem a noite que mudou tudo.

Definiu sua abordagem com três pilares simples: vasta experiência, paciência inabalável e um dom natural para se conectar com crianças, e enviou antes que o medo pudesse detê-la.

Em algum lugar do outro lado da cidade, Scarlett Hills embalava uma menininha até ela dormir numa mansão escondida atrás de portões vigiados.

E, num prédio comercial imponente no centro, William Hill e Noah encaravam uma lista crescente de candidatas a babá. Nenhum dos dois esperava que o mesmo nome chegasse ao topo.

Melissa Carter.

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