Capítulo 5 A linha entre eles
“Mamãe”, Lily repetiu baixinho, as mãozinhas agarradas ao vestido de Melissa.
Melissa se ajoelhou devagar, ficando na altura dela. O coração doía de um jeito que ela não sabia explicar.
A voz da criança despertou algo profundo dentro dela, um lugar que ainda lamentava a filha que acreditava ter perdido. Com delicadeza, afastou o cabelo de Lily do rosto.
Um calafrio inquieto se instalou no estômago de William enquanto observava as duas; havia uma fluidez no silêncio delas, uma familiaridade entranhada nos ossos no modo como Lily se ancorava em Melissa que desafiava toda a lógica em que ele acreditava.
Por fim, ele falou:
— Vou te dar um mês.
Melissa piscou.
— Um período de teste — William continuou. — Se você fizer besteira, acabou.
Alívio e medo se misturaram no peito dela.
— Eu entendo — disse depressa.
Lily ainda se recusava a soltar a mão dela, e William suspirou baixo.
— Cuide bem da minha filha.
Ele deslizou um celular preto pela mesa.
— Mantenha isso carregado. Quando tocar, você atende imediatamente; para Lily, é sempre uma emergência.
Melissa o pegou com as duas mãos.
— Sim, senhor. Vou ficar disponível vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana.
Lily ergueu o olhar e sorriu para ela. O coração de Melissa amoleceu na hora.
— Bem — disse Melissa, com doçura, para a garotinha —, acho que isso significa que vamos passar muito tempo juntas.
Lily assentiu de leve, como se concordasse.
William as observou com uma curiosidade silenciosa antes de se virar.
Melissa baixou os olhos para o rostinho inocente de Lily, sorrindo.
Uma garotinha doce e perfeita, e ela nem conseguia falar até agora. Vou cuidar dela como se fosse minha própria filha, pensou.
………….
Mais tarde naquela noite, todas as empregadas da casa se reuniram na grande sala de estar da mansão Hill.
O teto se erguia bem acima delas, decorado com lustres elegantes que lançavam uma luz dourada e quente sobre o piso de mármore polido.
À frente estava a governanta, uma mulher alta e severa chamada senhora Eleanor Grant. Ela entrelaçou as mãos atrás das costas ao se dirigir às funcionárias.
— Ouçam com atenção. Essas regras valem para todas.
A sala mergulhou em silêncio.
— Instrução número um — disse com firmeza. — A senhorita Lily sempre vem em primeiro lugar.
Melissa assentiu na mesma hora.
— Número dois: quando o senhor Hill ligar, você atende, não importa o que esteja fazendo.
Algumas empregadas trocaram olhares de quem já sabia.
— E número três... — a senhora Grant fez uma breve pausa. — Mantenham distância do senhor Hill.
As mais jovens pareceram confusas.
— A última garota que cruzou essa linha — continuou a governanta, calma — saiu desta cidade antes do amanhecer.
O recado foi cristalino. Limites profissionais não eram opcionais naquela casa. Em seguida, a senhora Grant entregou a Melissa um uniforme bem dobrado.
— Seu quarto está pronto. Venha comigo.
Melissa caminhou por um corredor longo, iluminado por luzes suaves e ladeado por pinturas elegantes.
O coração dela ainda disparava. Eu lutei tanto para conseguir esse emprego. Se eu fizer besteira, vou voltar para a prisão. Só de pensar nisso, um arrepio percorreu seu corpo.
Por fim, pararam diante de uma porta branca perto do fim do corredor.
A senhora Grant a abriu.
— Este é o seu quarto.
Depois de lhe mostrar o cômodo, a senhora Grant virou as costas e foi embora, deixando Melissa sozinha com sua nova realidade.
Melissa entrou e parou, maravilhada. O quarto não se parecia em nada com os espaços apertados que ela conhecera a vida inteira.
Paredes em tom creme suave, uma cama grande de casal coberta por lençóis brancos e macios, um carpete grosso que parecia nuvem sob seus pés. Uma janela ampla dava para os jardins da propriedade, onde o luar cintilava sobre fontes e árvores.
Havia uma escrivaninha de madeira polida, uma poltrona confortável para leitura e até uma pequena estante cheia de livros. Flores frescas repousavam sobre uma mesinha de vidro ao lado da cama.
A porta do banheiro se abria para um espaço amplo de mármore, com uma banheira funda para imersão, espelhos iluminados e toalhas dobradas com capricho.
Melissa girou devagar, em círculos, absorvendo tudo. “É… lindo”, sussurrou para si mesma ao largar a bolsa.
A força que ela tinha usado para se manter inteira desapareceu, e ela desabou na beirada da cama, com os joelhos cedendo como se os ossos tivessem virado água.
Ela não chorou; apenas ficou ali, encarando as próprias mãos trêmulas, sentindo o peso frio do quarto se fechar ao redor dela. Cada músculo doía por causa da tensão do dia e, pela primeira vez em meses, ela se sentiu segura.
Depois de alguns minutos, obrigou-se a se mexer. Precisava lavar a sensação da luta, o cheiro do quarto “clínico” e a sujeira do vestido gasto. “Eu realmente preciso de um banho demorado.”
Ela tirou as roupas rasgadas, deixando o tecido arruinado amontoado no chão como uma pele abandonada.
O vapor foi enchendo o banheiro aos poucos enquanto a água morna corria para a banheira. Ela entrou.
Melissa afundou nela com um suspiro baixo. O calor relaxou músculos que ela nem tinha percebido que estavam tensos.
Sua mente foi para o sorriso de Lily, para o jeito estranho como a criança a chamava de mamãe, e para o olhar intenso de William. Aquele trabalho podia mudar tudo. Ela fechou os olhos por um instante.
Então… o celular tocou, e os olhos de Melissa se abriram num sobressalto. Ela tinha deixado o telefone em cima da cama. O coração falhou uma batida.
Melissa saiu depressa do banho, com o coração disparado enquanto o aviso de William ecoava na cabeça: “Se esse telefone tocar, é sempre uma emergência da Lily.”
Pensando apenas em Lily, ela nem parou para se secar. Pegou uma toalha ali perto e enrolou no corpo, mas a pele molhada fez o tecido escorregar.
Não havia tempo de prender; ela juntou as pontas com uma mão e correu até a cama.
Ela alcançou a mesinha de cabeceira bem quando o telefone tocou pela terceira vez. Seus dedos estavam a centímetros de atender quando a porta do quarto se abriu de supetão.
Melissa congelou onde estava, assustada e envergonhada.
No choque repentino, a toalha afrouxou em suas mãos. O tecido pesado e úmido deslizou pelos ombros, acumulando-se aos seus pés antes que ela conseguisse segurar.
Ela ficou ali, completamente exposta, tremendo.
William estava na porta, ainda com a maçaneta na mão. Ele tinha vindo ver como ela estava, mas agora ficou paralisado, o olhar preso ao dela. A máscara profissional que ele costumava usar se estilhaçou na mesma hora.
William, claramente pego de surpresa, virou o rosto imediatamente.
“Eu bati”, disse depressa, a voz tensa. “Você não respondeu.”
Melissa pegou a toalha num movimento rápido e se enrolou nela.
O quarto se encheu de um calor espesso, sufocante, enquanto a consciência do que ele tinha visto se instalava entre os dois.
“Eu… eu estava no banheiro.”
Por um momento, nenhum dos dois se mexeu.
“Eu bati, mas o barulho do chuveiro deve ter abafado. Quando você não respondeu, eu… eu achei que tinha acontecido alguma coisa”, ele murmurou, as palavras saindo mais rápido do que o normal.
Ele pigarreou, encarando com atenção uma pintura no corredor para garantir que não teria outro vislumbre dela.
Mas aquele momento breve e inesperado já tinha deixado os dois abalados, porque, pela primeira vez desde que ela chegou à mansão…
A linha invisível entre patrão e babá tinha sido cruzada.
