Chapter 2

Minha mae guardava a historia da bolsa dentro de uma lata de biscoito.

Nao era metafora. A lata ficava no alto do armario da cozinha, em Santos, atras de duas formas de pudim e de um pote de arroz que ninguem usava. Tinha flores apagadas na tampa, cheiro de ferrugem e um barulho seco quando alguem mexia nela. Quando eu era crianca, achava que ali dentro havia dinheiro. Mais tarde entendi que era pior: havia papel.

Naquela noite, peguei a estrada para Santos sem avisar que estava indo.

A Via Anchieta estava cheia, um desses congestionamentos que fazem Sao Paulo parecer uma maquina mastigando gente devagar. No banco do passageiro, minha pasta tinha o parecer contra Bianca, os prints do artigo copiado e a anotacao do convite de Celina Prado. Eu repetia mentalmente a frase de Bianca como quem tenta encontrar a parte falsa.

Sua avo e a bolsa.

Minha avo Amara Batista morreu antes de eu entrar na faculdade. Para quase todo mundo, ela tinha sido costureira, vizinha correta, mulher de missa quando conseguia folga, uma senhora negra que falava pouco porque a vida tinha cobrado palavra demais. Para mim, ela era tambem a primeira pessoa que me ensinou a ler ata.

Ela nao chamava assim. Dizia: "Livia, quando alguem escreve o que aconteceu, veja quem ficou de fora."

Minha mae abriu a porta de chinelo e camisola, ja assustada antes de me ver direito.

— O que aconteceu?

— Preciso da lata da vo.

O medo dela nao subiu. Ele ja morava ali.

— Nao.

Entrei mesmo assim, com a chave que ela insistia em me fazer carregar. O apartamento cheirava a cafe requentado e produto de limpeza barato. Na parede da sala, a foto da minha formatura na SanFran parecia uma provocacao. Eu de beca, sorriso duro, minha mae chorando ao lado como se cada lagrima tivesse custado passagem de onibus, faxina extra, boleto renegociado.

— Mae.

— Voce mexeu com eles?

Eu tirei a pasta da bolsa.

— Bianca Azevedo Prado copiou um texto num processo de etica. Eu fiz meu trabalho.

— Ninguem faz so o trabalho quando aparece esse sobrenome.

Ela foi para a cozinha. Eu a segui. Seus ombros estavam mais baixos do que na semana anterior, ou talvez eu so tivesse aprendido a medir cansaço nos outros depois dos trinta.

— A Celina me chamou para almocar.

Minha mae parou.

O silencio da cozinha ficou tao denso que o motor da geladeira pareceu agressivo.

— Ela ainda esta viva — minha mae disse.

— Esta. E sabe meu nome.

— Claro que sabe. Eles sabem todos os nomes que enterraram.

Pela primeira vez em meses, minha mae nao tentou suavizar a frase. Nao disse "deixa pra la", nao disse "sua avo nao gostaria". Apenas abriu o armario, pegou a lata e colocou sobre a mesa.

Nao me entregou.

— Livia, escuta. Sua avo ganhou aquela bolsa. Ganhou com nota, com carta de professor, com tudo que pediram. Depois veio uma notificacao dizendo que ela era inadequada por conduta. Conduta. Uma menina que atravessava a cidade de uniforme passado e sapato consertado.

— Eu sei.

— Voce sabe a versao de familia. Nao sabe o que eles fizeram depois.

Ela abriu a lata.

Dentro havia envelopes amarelados, recortes de jornal, um retrato de Amara aos dezessete anos e uma copia fina, quase transparente, da carta que durante anos eu so tinha visto de longe.

Faculdade Paulista de Direito. Bolsa integral. Classificacao: primeiro lugar.

O nome Amara Batista estava datilografado com uma forca que me apertou a garganta.

Minha mae tocou o papel com a ponta dos dedos.

— Depois da carta, veio uma mulher da faculdade ate a casa da sua bisavo. Disse que tinha havido denuncia. Que Amara frequentava reunioes indevidas, que tinha comportamento insolente, que nao representava o perfil moral da instituicao.

— Sem assinatura?

— Sem assinatura. Sem protocolo claro. So carimbo.

— E o lugar?

Minha mae riu sem humor.

— O lugar apareceu na revista dos alunos, meses depois. Celina Prado, jovem promessa, contemplada por merito e compromisso social.

Eu conhecia a foto. Celina branca, luvas claras, cabelo armado, sorrindo ao lado de homens que pareciam donos do ar. Minha avo nunca tinha falado mal dela em voz alta. Talvez porque, na casa de pobre, ate a raiva aprende a economizar.

— A Bianca sabe — eu disse.

— A Bianca ouviu historia em mesa de jantar. Para eles, deve ser anedota. Aquela vez que a familia venceu uma confusao.

Peguei o celular e mostrei o e-mail de Bianca, ainda fechado.

— Ela quer que eu encontre Celina.

Minha mae tampou a lata com as duas maos.

— Nao vai.

— Vou.

— Eles acabam com voce. Primeiro dizem que voce tem conflito de interesse. Depois que e ressentida. Depois que falsificou alguma coisa. Quando faltar mentira, vao atras da sua carreira. Ou de mim.

Eu queria responder que era adulta, advogada, consultora, que sabia me proteger. Mas minha mae tinha passado a vida reconhecendo ameaca antes de ela bater na porta. Esse tipo de inteligencia nao vinha em diploma.

Sentei.

— Se eu nao for, eles vao escrever a minha decisao por mim. Vao dizer que escondi motivo pessoal. Que persegui Bianca por causa de uma historia antiga que ninguem prova.

— E voce prova?

Olhei para a lata.

— Ainda nao.

Minha mae fechou os olhos.

— Sua avo nao queria vinganca.

— Ela queria estudar Direito.

A frase saiu baixa, mas mudou a sala. A foto da formatura na parede pareceu menos minha do que dela.

Minha mae empurrou a lata para mim, devagar, como se me entregasse algo aceso.

— Leve copia. Nao leve original. E, pelo amor de Deus, nao fique sozinha com Celina Prado.

Eu guardei a carta da bolsa numa pasta plastica. Depois abri o e-mail de Bianca.

O almoco seria no dia seguinte, num restaurante privado dentro de um clube em Higienopolis. A mensagem terminava com uma frase curta.

Dona Celina acredita que uma oportunidade pode compensar muitos mal-entendidos.

Mostrei para minha mae.

Ela leu e ficou palida.

— Eles nao querem conversar, Livia.

— Eu sei.

— Entao por que vai?

Fechei a pasta.

— Porque, se ela vai tentar me comprar, eu quero ouvir o preco.

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