Chapter 3
Celina Prado escolheu uma mesa longe das janelas.
O clube tinha cheiro de madeira encerada, perfume caro e silencio comprado por mensalidade. No salao, homens de terno claro falavam baixo como se o pais fosse um contrato particular. Mulheres com joias discretas sorriam para garçons sem precisar levantar a mao. Eu entrei de blazer cinza, bolsa simples, gravador ligado dentro do bolso interno.
Celina se levantou quando me viu.
Era menor do que eu esperava. Muito reta, muito branca, muito antiga. O cabelo prateado estava preso num coque perfeito. Usava uma corrente de ouro com uma medalha de santa. Havia nela uma fragilidade de vitrine: feita para parecer intocavel.
— Doutora Livia — disse, abrindo os bracos sem se aproximar demais. — Voce tem os olhos da Amara.
Nao dei a ela o prazer da surpresa.
— A senhora conheceu minha avo?
— Todo mundo conhecia Amara. Brilhante. Temperamento dificil, mas brilhante.
Sentei antes que ela mandasse.
Bianca estava ao lado, vestido azul-marinho, cabelo liso jogado para tras, um colar pequeno no pescoço. Sem pasta. Sem vergonha visivel.
— Obrigada por aceitar — Bianca disse.
— Nao aceitei nada. Vim ouvir.
Celina sorriu, como se minha grosseria fosse prova de tese antiga.
— Direta. Isso tambem e de familia.
O garçom apareceu. Pedi agua. Celina pediu cha. Bianca, nada. Eu deixei o celular virado para baixo na mesa, mas o gravador principal estava na lapela, escondido por baixo do cabelo.
— Minha neta cometeu uma imprudencia — Celina comecou. — Jovens fazem isso. Hoje tudo esta na internet, as fronteiras ficam confusas.
— A fronteira entre escrever e copiar continua bem visivel.
Bianca apertou o guardanapo.
— Eu estava sobrecarregada. Foram duas linhas.
— Foram tres paragrafos.
— O essencial era meu.
— O erro de pontuacao tambem?
Ela corou. Celina colocou a xicara no pires com um clique pequeno.
— Nao estamos aqui para discutir virgulas.
— Eu estou.
Celina me observou por um tempo. Seus olhos nao tinham calor nenhum, so avaliacao.
— Voce trabalha numa sala sem placa, doutora. Uma funcao tecnica. Competente, sem duvida, mas tecnica. A Fundacao Azevedo Prado esta abrindo uma diretoria de integridade academica. Remuneracao excelente, equipe propria, exposicao publica. Alguem como voce poderia fazer muita diferenca.
Ali estava. O preco.
Nao veio em envelope. Veio em cargo, cracha, foto e talvez um sobrenome de quem indicou.
— Em troca de que?
Celina inclinou a cabeca.
— Em troca de proporcao. Bianca nao deve ter o futuro destruido por uma falha menor.
— Minha avo teve.
O rosto de Bianca se fechou.
Celina nao desviou.
— Amara nao teve o futuro destruido por mim.
— Mas a bolsa dela apareceu na sua biografia.
— Voce esta repetindo ressentimentos domesticos.
Abri minha pasta. Tirei uma copia da carta de 1968 e coloquei sobre a mesa, sem empurrar.
Os olhos de Celina desceram para o papel. Por menos de um segundo, a mascara dela falhou. Nao foi culpa. Foi reconhecimento.
— Isso nao prova nada — ela disse.
— Prova que a bolsa existiu.
— Bolsas eram reavaliadas. Havia criterios morais. O Brasil de 1968 nao era o de hoje.
— Conveniente.
Bianca olhou para a avo.
— Voce disse que era boato.
Celina levantou a mao, pequena e autoritaria.
— Bianca.
Eu guardei a copia.
— Meu parecer nao muda.
— Pense melhor — Celina disse. — Uma mulher negra, de origem humilde, chegando a uma diretoria nacional por uma fundacao respeitada. Seria simbolico.
— Simbolico para quem?
Ela suspirou, finalmente irritada.
— Para voce. Para sua mae. Para o nome Batista, que poderia ser associado a construcao, nao a acusacao.
— A senhora quer pendurar meu nome na parede onde pendurou o da minha avo?
Bianca se levantou.
— Voce nao pode falar assim com ela.
— Posso. Ainda nao aceitei emprego.
Celina tambem se levantou, mas devagar. Ao redor, algumas mesas fingiam nao ouvir.
— Cuidado, doutora Livia. O mundo juridico e menor do que parece. Nao se sobrevive nele confundindo arquivo de familia com prova.
— E nao se deveria crescer nele confundindo roubo com tradicao.
Fui embora antes da conta. Na calçada, o ar quente de Sao Paulo bateu no meu rosto com cheiro de gasolina e chuva presa. Entrei no carro, tranquei as portas e salvei a gravacao em duas nuvens diferentes. Enviei uma copia criptografada para Rafael com a legenda: seguro.
Ele respondeu em segundos.
Recebido. E voce esta bem?
Eu ia mentir, mas outra notificacao chegou.
Bianca.
A mensagem tinha uma foto anexada: a fachada do predio da minha mae, tirada da rua, naquela manha. Embaixo, poucas palavras.
Se voce mexer na minha familia, a sua aprende o que e perder de novo.
Enquanto eu encarava a tela, outro e-mail entrou. Remetente desconhecido. Assunto: Amara nao foi a unica.
Abri.
Havia um anexo escaneado, manchado nas bordas. Uma carta de recomendacao de 1968, com o nome de Amara Batista no corpo do texto. Abaixo, no rodape, uma observacao datilografada:
Segunda via carbonada preservada no arquivo particular do professor Nascimento.
