Capítulo 2 Capítulo 02

Laura.

Eu não sei como vou olhar pra o Miguel depois disso, sem contar com o João, que chegou em casa depois do trabalho, e ficou olhando pra gente com cara de interrogação, afinal, eu nunca tinha dormido aqui antes, muito menos ficava desfilando com roupa do Miguel, a não ser é claro, pra limpar a zona que esses dois fazem. Miguel ainda está me olhando com cara de raiva, porque mesmo com toda a insistência, eu não quis dar o nome do desgraçado que tentou me agarrar, e depois de contar o que houve pra o João, os dois estão no meu pé, mas se eu contar, aí que a merda vai ficar feia, melhor esquecer e seguir a vida. Tirando tudo isso, eu e Miguel estamos nos olhando com aquela cara de "precisamos conversar", e João com a cara de "Eu sei o que vocês estavam fazendo”. Como eu já estava ferrada mesmo, decidi dormir por aqui, e ir direto pra escola amanhã, pra minha sorte, Miguel tinha uniforme da época e ele estudava, e eu sempre deixava alguma roupa perdida aqui, então tá tranquilo.

— Dorme aqui, amanhã eu vou trabalhar andando e deixo a moto com o Miguel, pra ele te levar no colégio — João pede e eu assinto

— Aí eu já aproveito e vou na lan-house descobrir a cara do infeliz que eu vou matar – Miguel fala e João balança a cabeça concordando

— Já falei pra deixar isso pra lá, não quero ver vocês em confusão, eu não entro mais lá e ponto final – tento finalizar a discussão, mas eles continuam

— Miguel, sabe que o babaca do João vai querer tirar satisfações com ela quando chegarem lá, né? Realiza meu sonho, dá um soco nele, nunca te pedi nada – João fala, gemendo em seguida pelo tapa que dou na cabeça dele.

— Ninguém vai bater em ninguém, já chega a chateação que vai ser quando eu chegar em casa, agora vamos dormir, porque eu tô exausta!

— Então, você dorme comigo, e João dorme lá no outro quarto. – Miguel fala, fazendo João gargalhar

— E por que não eu no outro quarto, Miguel? – pergunto, e João parece que vai morrer de tanto rir

— Não briguem, crianças, de qualquer maneira, vou dormir na minha mãe, só vim em casa buscar meu carregador e deixar a moto, acabei ficando pra conversar com vocês, mas já tô saindo – João beija minha testa, a do Miguel, e sai rindo. O resto da noite foi tranquilo, não tocamos mais no assunto da lan-house, muito menos da transa, apenas ficamos abraçados até dormirmos, e quando acordei pela manhã, já comecei a sentir o cheiro do café, e levantei rindo, agradecendo a Deus por ter um amigo tão fofo quanto o Miguel.

— Bom dia bela adormecida – ele sorri com a garrafa de café em mãos;

— Bom dia, Miguel – Beijo sua bochecha;

— Sua mãe já me ligou três vezes hoje, pra perguntar se você estava viva, depois pra perguntar se você ia pra escola, e por último pra saber se poderia deixar suas malas aqui, eu adorei a última opção, mas acho q ela não gostou muito de eu ter concordado. – fala e eu quase engasgo com o café

— Seu maluco, agora que ela vai falar mesmo no meu ouvido. – falo ainda rindo — mas sério agora – suspiro pesado — eu posso ir sozinha pra escola, não quero começar o dia com você e meu irmão brigando;

— Já te falei que o seu irmão precisa de uma surra pra parar de ser marrento, não bati porque você não deixou, só não garanto manter a calma se ele tentar te agredir. — Miguel me olha sério e eu apenas nego, voltando a atenção ao meu café

— Tá bom, mas vamos, porque eu já tô atrasada. — Acabamos de comer, montei na moto e saímos;

Até que parecemos um casal, quem não conhece, confunde fácil. Chegamos no colégio, e a primeira coisa que vejo quando desço da moto, é meu irmão vindo igual bicho pra cima de mim, é, pelo visto hoje o dia será longo.

Miguel.

Acho que ninguém, aos 16 anos, deveria passar por tanta coisa quanto Laura. A primeira vez que a vi no colégio, ela tinha 13 anos e estava escondida no cantinho do pátio chorando, me aproximei e puxei assunto com ela; no primeiro momento, ela não queria conversar, mas amoleci a fera, e aos poucos ela foi se abrindo.

Ela tinha uma família religiosa, e era muito cobrada por não acreditar no mesmo que eles, ela tinha verdadeira adoração pelo pai, mas ele apesar de não criticar tanto, não fazia nada para defendê-la. Mas o problema mesmo, estava no irmão mais velho, João, o típico religioso fanático, dono da verdade, que é quase assistente divino no cargo de julgador da vida e da salvação alheia. Por causa dele, ela já tinha apanhado, tinha trocado de colégio, o pai dela mal olhava na cara dela, e segundo a mãe, ela era a tristeza da família. Honestamente, era difícil pra mim imaginar isso, a garota era doce, inteligente pra caramba, cantava muito bem, tinha as notas mais altas da turma, devorava quase todos os livros da biblioteca, mas nada disso adiantava, continuava no papel de ovelha negra da família. Não sei como, nem porquê, mas a cada história que eu ouvia, sentia mais vontade de acolher e protegê-la;

Foi assim que nos tornamos bons amigos, inseparáveis, todo o colégio achava que a gente ficava, e por isso, acabei ganhando o ódio da mãe e do irmão dela, em compensação, minha mãe a adorava ponto de tentar a todo custo fazer a gente namorar, e quando eu digo a todo custo, inclui acabar com meus esquemas pra deixar o caminho livre pra Laura.

Eu sou três anos mais velho que Laura, sou ciumento mesmo, protejo e se preciso, mato pra ver ela bem, ela, João e eu somos um trio, eles são meus irmãos, apesar de que é meio doente chamar de irmã a garota que minha mãe quer transformar em sua nora, eu fico negando, mas que o jeito dela de me ignorar mexe com minha cabeça, aaah como mexe!!

Chegamos na porta do colégio, ela desceu da moto e o irmão dela veio igual bicho pra cima dela, desliguei a moto, desci e fiquei ao lado dela:

— Muito bonito isso, nossos pais em casa morrendo de preocupação, e você dando passeio de moto com seu amiguinho marginal – O babaca do João fala e eu já fecho a mão imaginando o soco na cara dele

— Cala a boca João, e não fala do que você não sabe! meu amiguinho marginal, como você gosta de falar, me acolhe, ao contrário de você, perfeito que adora me apontar o dedo – Laura responde com os olhos cheios d'água enquanto segura minhas mãos pra eu não ir pra cima dele

A essa altura, o portão da escola já estava cheio de curiosos rindo da situação, e meu ódio por ele só aumentava, mas a gota d'água foi o que ele falou em seguida:

— Aponto, aponto mesmo, se você não ficasse matando nossos pais de desgosto, agindo feito uma vagabunda, andando com bandido e DORMINDO com ele ainda por cima – ele enfatiza ironicamente o "dormindo'" — eu não tinha oq falar. Até com o Bruno da lan-house tu andou se pegando, que ele mesmo já fez questão de sair falando. De verdade, eu tenho muita pena dos MEUS pais, e muita vergonha de dizer que sou teu irmão. Agora junta o resto da tua dignidade, e vai estudar, pra além de piranha, tu não crescer burra.

Parece que ele falou aquilo tudo em câmera lenta, Laura já tava soluçando de chorar, e ele já tava agarrando ela pelo braço e puxando pra dentro da escola. Bom, pelo menos o nome do infeliz que tentou agarrar Laura eu já tinha, vou bater tanto nele, que ele não vai lembrar nem o próprio nome quando eu acabar, mas o João tá na fila, eu avisei que não ia aturar babaquice dele, xingou, chamou de vagabunda, e agora tá quase batendo na garota na frente de geral, tá precisando apanhar pra virar gente.

— Larga ela, seu merda, vai deixar o braço da garota roxo!

Soltei o braço da Laura e já soquei a cara dele, quanto mais eu batia, mas ódio eu sentia, ainda mais porque o desgraçado não revidava, só me olhava com ódio, e com mais ódio ainda, ele olhava pra Laura. Só parei quando ela entrou na minha frente, me abraçou e pediu pelo amor de Deus pra eu soltar ele, soltei muito a contragosto, ela entrou na escola, eu subi na moto e saí voado pra a lan-house, a fim de ensinar outro desgraçado como se trata um abusador de merda!

Capítulo Anterior
Próximo Capítulo