Capítulo 3 Capítulo 03
Miguel.
Acho que ninguém, aos 16 anos, deveria passar por tanta coisa quanto Laura. A primeira vez que a vi no colégio, ela tinha 13 anos e estava escondida no cantinho do pátio chorando, me aproximei e puxei assunto com ela; no primeiro momento, ela não queria conversar, mas amoleci a fera, e aos poucos ela foi se abrindo.
Ela tinha uma família religiosa, e era muito cobrada por não acreditar no mesmo que eles, ela tinha verdadeira adoração pelo pai, mas ele apesar de não criticar tanto, não fazia nada para defendê-la. Mas o problema mesmo, estava no irmão mais velho, João, o típico religioso fanático, dono da verdade, que é quase assistente divino no cargo de julgador da vida e da salvação alheia. Por causa dele, ela já tinha apanhado, tinha trocado de colégio, o pai dela mal olhava na cara dela, e segundo a mãe, ela era a tristeza da família. Honestamente, era difícil pra mim imaginar isso, a garota era doce, inteligente pra caramba, cantava muito bem, tinha as notas mais altas da turma, devorava quase todos os livros da biblioteca, mas nada disso adiantava, continuava no papel de ovelha negra da família. Não sei como, nem porquê, mas a cada história que eu ouvia, sentia mais vontade de acolher e protegê-la;
Foi assim que nos tornamos bons amigos, inseparáveis, todo o colégio achava que a gente ficava, e por isso, acabei ganhando o ódio da mãe e do irmão dela, em compensação, minha mãe a adorava ponto de tentar a todo custo fazer a gente namorar, e quando eu digo a todo custo, inclui acabar com meus esquemas pra deixar o caminho livre pra Laura.
Eu sou três anos mais velho que Laura, sou ciumento mesmo, protejo e se preciso, mato pra ver ela bem, ela, João e eu somos um trio, eles são meus irmãos, apesar de que é meio doente chamar de irmã a garota que minha mãe quer transformar em sua nora, eu fico negando, mas que o jeito dela de me ignorar mexe com minha cabeça, aaah como mexe!!
Chegamos na porta do colégio, ela desceu da moto e o irmão dela veio igual bicho pra cima dela, desliguei a moto, desci e fiquei ao lado dela:
— Muito bonito isso, nossos pais em casa morrendo de preocupação, e você dando passeio de moto com seu amiguinho marginal – O babaca do João fala e eu já fecho a mão imaginando o soco na cara dele
— Cala a boca João, e não fala do que você não sabe! meu amiguinho marginal, como você gosta de falar, me acolhe, ao contrário de você, perfeito que adora me apontar o dedo – Laura responde com os olhos cheios d'água enquanto segura minhas mãos pra eu não ir pra cima dele
A essa altura, o portão da escola já estava cheio de curiosos rindo da situação, e meu ódio por ele só aumentava, mas a gota d'água foi o que ele falou em seguida:
— Aponto, aponto mesmo, se você não ficasse matando nossos pais de desgosto, agindo feito uma vagabunda, andando com bandido e DORMINDO com ele ainda por cima – ele enfatiza ironicamente o "dormindo'" — eu não tinha oq falar. Até com o Bruno da lan-house tu andou se pegando, que ele mesmo já fez questão de sair falando. De verdade, eu tenho muita pena dos MEUS pais, e muita vergonha de dizer que sou teu irmão. Agora junta o resto da tua dignidade, e vai estudar, pra além de piranha, tu não crescer burra.
Parece que ele falou aquilo tudo em câmera lenta, Laura já tava soluçando de chorar, e ele já tava agarrando ela pelo braço e puxando pra dentro da escola. Bom, pelo menos o nome do infeliz que tentou agarrar Laura eu já tinha, vou bater tanto nele, que ele não vai lembrar nem o próprio nome quando eu acabar, mas o João tá na fila, eu avisei que não ia aturar babaquice dele, xingou, chamou de vagabunda, e agora tá quase batendo na garota na frente de geral, tá precisando apanhar pra virar gente.
— Larga ela, seu merda, vai deixar o braço da garota roxo!
Soltei o braço da Laura e já soquei a cara dele, quanto mais eu batia, mas ódio eu sentia, ainda mais porque o desgraçado não revidava, só me olhava com ódio, e com mais ódio ainda, ele olhava pra Laura. Só parei quando ela entrou na minha frente, me abraçou e pediu pelo amor de Deus pra eu soltar ele, soltei muito a contragosto, ela entrou na escola, eu subi na moto e saí voado pra a lan-house, a fim de ensinar outro desgraçado como se trata um abusador de merda!
