Capítulo 5 Capítulo 5
Miguel.
Sai daquele galpão tão leve, tão aliviado, que parece que sai de um retiro desses que minha avó vai no Carnaval. Quando expliquei ao meu tio o que aquele infeliz fez, ele me emprestou o carro, deu a ideia de levar pra o galpão e sugeriu tatuar bem na testa dele o crime que ele cometeu, já a parte de fotografar e postar no grupo da cidade, foi ideia do Miguel, e eu adorei. Miguel estava tentando ligar pra Laura que não estava atendendo, eu estava preocupado, mas ele já estava a ponto de bater lá na casa dos pais dela, que seria uma péssima ideia, pelo menos por agora.
—Miguel, a essa hora, Laura já tá em casa, provavelmente ouvindo um monte de merda, ela não vai poder te atender nem tão cedo, espera um pouco – falo e ele me ignora, continuando na frente do celular
— Cara, tu tem o telefone da Alice? ela mora lá perto, talvez saiba de algo – assinto e procuro o número que Laura salvou no meu celular, justamente para situações como essas. Depois de alguns toques, ela atende:
— Alô?
— Alô, é a Alice? Aqui é o Miguel — me identifico
— Oi, Miguel? – Fala desanimada e meu coração aperta.
— sabe da Laura? tô ligando e ela não atende – vou direto ao ponto
— A situação não tá muito boa por lá não, agora que a gritaria parou um pouco, tô esperando uma brecha pra ir lá ver como ela está, mas o que eu ouvi falarem pra ela, não se fala nem pra o pior inimigo. – Alice explica com a voz trêmula
— Tenta me deixar informado, por favor, e se conseguir tirar ela de casa, me avisa, pode ser? – peço
— Pode deixar, assim que conseguir te aviso, beijo – Beijo
É triste ter que deixar minha amiga nessa situação, mas por agora, tenho que acalmar o Miguel, porque se eu bem conheço, ele tá doido pra ir lá pegar a baixinha..
Miguel.
Quando Alice me falou como estavam as coisas por lá, meu sangue já ferveu.
Laura é forte pra caramba, muita menina com a idade dela já teria feito merda com o tanto de peso que essa garota tem nas costas. Minha vontade é ir lá, peitar todo mundo e tirar ela daquele inferno, mas isso só iria piorar as coisas, então, por hora, vou esperar a ligação dela ou da Alice, mas na primeira oportunidade, eu vou lá. A garota passa a vida sendo xingada pelo irmão, destratada pela mãe, ignorada pelo pai, aí um dia depois de passar por um quase estupro, os pais fazem o que? xingam, maltratam mais um pouco
— Miguel, vamos pra casa? vou tomar um banho, tirar esse sangue do corpo, e esperar Laura ligar — sugiro e ele assente
— Essa situação é fogo, né? Pior que ela tem só 16 anos, nem dá pra gente tirar ela de lá; – nego com a cabeça, mas desisto de responder quando ouço o meu telefone tocar:
— Alice, alguma novidade? — atendo apressado;
— Miguel, sou eu — a voz de choro dela é de cortar o coração
— Ei baixinha, eu tava preocupado, como estão as coisas por aí?
— Eu não aguento mais, Miguel, eu não tive culpa, mas eles não entendem, agora todo mundo tá me olhando como se eu fosse a pior piranha do mundo, eu vou sair daqui, nem que pra isso eu precise fazer uma merda muito grande, só sei que não aguento mais... — Ela fala entre soluço
— Você tá na Alice, né? quer que eu vá te buscar? você fica lá em casa um pouco, dorme lá, e amanhã a gente vê o que faz. – sugiro
— Não posso, já foi um sacrifício ela me deixar dormir aqui na Alice, se ela souber que eu saí, ela não confia mais, e vai ser pior. Mas amanhã eu tenho curso depois da aula, me busca lá, e eu vou pra sua casa, pode ser?
— Tá bom, mas qualquer problema, não importa a hora, me liga e eu te busco, ok?
— Tá, obrigado. Te adoro, viu? — eu também, baixinha... Miguel está mandando um beijo.
— Manda outro pra ele, tchau.
Laura.
Depois da aula fui direto pra casa, pelo visto João tinha ido na frente cavar minha cova, porque não estava no ônibus, já vou me preparar, porque a briga hoje vai ser daquelas. Minha vontade mesmo é sair correndo, mas sei que uma hora vou ter que enfrentar as feras. Na correria, nem fiquei sabendo o que os meninos fizeram com o tal Bruno, depois eles me contam. Desço do ônibus já ouvindo os gritos da minha mãe, pelo visto não vou nem ter a pausa pra o almoço:
— Lembrou que tem casa, que não é uma puta perdida ainda? olha só o que o seu amiguinho bandido fez na cara do seu irmão, tá feliz? Não poderia ter evitado?
— Quer saber? Miguel fez até menos do que deveria, ele bateu por que o seu bebe ia me bater, ele só me defendeu – nem acabo de falar, e já sinto o peso da mão dela no meu rosto
— Ele devia ter batido mesmo, pra todo mundo saber a vagabunda que você é, dorme com bandido, aliás, com dois né? porque até onde eu sei, seu amigo mora com outro cara – f abaixo a cabeça com vergonha – Não satisfeita, ainda deu em cima do cara da lan-house, e não vem com essa historinha de abuso, porque se você estivesse na igreja como eu queria, isso não aconteceria, então é sim culpa sua. Só quero deixar claro, que minha casa não é prostíbulo, e que é a última chance que eu te dou, ou você volta pra igreja e vive feito gente, ou eu vou colocar você pra fora de casa, e aí você vai ser marmita de bandido, mas vai ser fora da minha casa.
Enquanto ela falava, eu sentia meu celular vibrar, e sabia que era um dos meninos ligando, mas não podia atender. E por mais que a ideia de sair daquela casa fosse um sonho, eu não iria pra casa deles, não iria depender nunca mais de ninguém, então tentei me acalmar, convenci ela a me deixar dormir na Alice, e comecei a planejar minha vida. Uma coisa eu sei, viro até puta, como ela falou, Mas não volto pra igreja nenhuma!
Chego na Alice, e desabo no choro, ela me acalma, e em seguida ligo pra o Miguel do celular dela mesmo, eu falo com ele e me sinto tentada com a proposta de sair daqui pra casa dele agora, mas não não vou colocar tudo a perder, amanhã depois da aula, vonversamos com calma, hoje eu só quero descansar. Entrego o celular da Alice e do nada ela grita e começa a rir.
— Que foi Alice, eu que apanho e você que perde a cabeça?
— AMIGA, OLHA ISSO AQUI, já que você grudou no Miguel, deixa o Ricardo pra mim, porque esses dois são foda — ela me mostra a tela do celular e eu fico de queixo caído com, esses dois são malucos.
Olho boquiaberta as fotos, e mando mensagem pra entender o que eles fizeram:
whatsapp:
Eu: Miguel seu louco, foi você que mandou postar aquela foto no grupo?
Miguelito: Você já viu? queria te contar pessoalmente( emoji triste)
Eu: Alice me mostrou, e falou que vai casar com o João, que vocês dois juntos são f**a
Miguelito: Ricardo falou que aceita
Eu: Tá bom, seremos os padrinhos (emoji rindo), me busca amanhã? acho que precisamos conversar
Miguelito: Não quer que eu busque agora?
Eu: Quero, mas não posso. Agora vou tentar dormir, beijo até amanhã
Eu: (emoji de coracao)
Miguelito:.Se não conseguir dormir me liga. Beijos baixinha.
O Dia foi longo, vou dormir, amanhã tenho muito o que resolver.
