Capítulo 1 Terra Vermelha e Terno Chumbo
POV LÍVIA
Enterrar meu pai não doeu tanto quanto ver os abutres jogando terra em cima do caixão dele.
Apertei as unhas contra a palma da mão fechada até sentir a pontada aguda na pele, usando aquela dorzinha idiota para não vomitar o resto de café amargo que engoli antes de sair de casa. O cemitério da Consolação cheirava a lírios murchos, terra vermelha revirada e o perfume sufocante dos diretores da Vasconcelos Hospitality. Todos de preto. Todos fingindo luto com uma perfeição nojenta.
— Você precisa comer alguma coisa depois daqui, meu bem — a voz mansa de Camila veio colada ao meu ombro. Uma mão impecável pousou no meu braço, os dedos apertando o tecido do meu vestido com uma intimidade falsa. — O conselho já me deu sinal verde para tocar a operação dos hotéis nesta semana. Não se preocupe com nada da empresa agora. Sua única obrigação é viver o seu luto.
Virei o rosto devagar, encarando os olhos dela por trás das lentes escuras. Camila Souto. Sócia minoritária, braço direito do meu pai por quase vinte anos e a mulher que, nos últimos seis meses, vinha tentando me empurrar para escanteio com sorrisos maternais e tapinhas nas costas.
— Eu não preciso de descanso, Camila. E a presidência interina é minha por estatuto. Meu pai morreu ontem, mas a diretoria ainda responde a mim.
Ela nem piscou. Apenas deu um daqueles sorrisos compadecidos que se dá para uma criança teimosa.
— Claro, Lívia. Conversamos sobre isso na segunda-feira, quando você estiver com a cabeça no lugar.
Puxei o braço de volta, dando um passo para trás. O ar de São Paulo parecia uma massa úmida e cinzenta descendo pela minha garganta. Ao meu lado, Bia segurava minha bolsa com uma mão e um copo plástico amassado com água na outra. Ela me conhecia há dez anos; sabia que se encostasse em mim agora, eu desmontaria. E eu não ia chorar na frente daquelas hienas nem que me arrancassem as unhas.
Sete meses. Fazia exatamente sete meses que eu estava naquele mesmo pedaço de terra, debaixo daquela mesma copa de ipê, enterrando o Rafael.
Meu irmão. Vinte e nove anos. Uma overdose em um quarto de hotel de beira de estrada depois que a empresa que ele tentou erguer ruiu debaixo de processos, penhoras e execuções movidas por um único homem.
O estômago deu um solavanco violento.
Não precisei procurar. Passos firmes esmagavam o cascalho molhado atrás da capela. Minha nuca arrepiou antes mesmo de eu me virar.
Os executivos ao redor se calaram, abrindo espaço como se uma lâmina estivesse cortando a multidão ao meio.
Dante Avelar.
Ele não usava óculos escuros. O terno cinza-chumbo era cortado sob medida, ajustado aos ombros largos com uma precisão que beirava a afronta num velório familiar. O rosto tinha ângulos duros, a mandíbula quadrada sombreada por uma barba feita rente e aqueles olhos escuros, impenetráveis, que pareciam calcular o preço de tudo e de todos em frações de segundo. Trinta e dois anos e o dono da firma de advocacia mais implacável do país.
O homem que destruiu o Rafael.
O homem que sufocou as empresas do meu irmão até ele perder tudo, entrar em parafuso e se afundar no pó.
Meu sangue ferveu. Dei dois passos na direção dele antes que Bia pudesse me segurar pela manga do vestido.
— Lívia, não — ela sussurrou, a voz tensa de pavor. — Aqui não.
Ignorei. Parei a um palmo de distância de Dante. O cheiro dele me atingiu em cheio: vetiver, tabaco frio e couro novo. Um contraste absurdo com a podridão dos lírios murchos ao redor.
— Você tem exatamente dez segundos para sair daqui antes que eu mande a segurança arrastar você pelo cascalho — cuspi as palavras baixo, com a boca tão seca que as bordas da garganta rasparam.
Dante nem piscou. O olhar dele desceu do meu rosto para as minhas mãos trêmulas e voltou devagar para os meus olhos. Nenhuma hesitação. Nenhuma gota de constrangimento.
— Meus pêsames pela perda do seu pai, Lívia.
— Não ouse falar o nome dele. — Dei mais um passo, sentindo a proximidade queimar no peito. Tive que erguer o queixo para encará-lo. — Você não tem vergonha na cara? Já tirou o Rafael de nós. Agora vem aqui assistir ao enterro do homem que você ajudou a quebrar por tabela?
A mandíbula dele travou, uma contração quase imperceptível perto da orelha. Foi a única reação que ele deu.
— Não vim como convidado, nem para prestar condolências sociais — a voz dele saiu grave, baixa demais para os diretores que espiavam ao longe escutarem, mas cortante o bastante para me paralisar. — Vim como profissional.
Ele enfiou a mão no bolso interno do paletó e puxou um envelope pardo, lacrado com fita timbrada e o carimbo vermelho do cartório. Estendeu na minha direção.
Olhei para o papel como se fosse veneno puro.
— O que diabos é isso?
— A notificação formal para a abertura do testamento do seu pai — ele disse, com a frieza de quem lê um contrato de aluguel. — Amanhã, às oito da manhã, na sede da Avelar & Associados.
Minha risada saiu curta, estrangulada, cheia de puro veneno.
— Você tá delirando. O jurídico da Vasconcelos cuida das questões do meu pai há trinta anos. Você não bota os pés nos bens da minha família, Dante. Pega essa porcaria e some daqui.
— O jurídico da Vasconcelos não sabe de nada — Dante deu meio passo à frente, diminuindo a distância entre nós de um jeito que me fez prender a respiração contra a vontade. Ele sustentou meu olhar com uma intensidade que quase me empurrou para trás. — Três meses atrás, Henrique Vasconcelos revogou a procuração do jurídico interno e me nomeou como testamenteiro exclusivo de tudo o que deixou.
Meu coração disparou e eu fiquei sem ar.
— Mentira. Meu pai nunca faria isso com você. Ele sabia o que você fez com o Rafael!
— O documento tá registrado no 11º Cartório de Notas, Lívia. Você pode checar com qualquer juiz amigo seu antes das oito da manhã — Dante segurou o envelope e, sem pedir licença, enfiou a borda do papel entre os meus dedos inertes. O toque dos dedos dele contra a minha pele foi rápido, mas queimou como ferro em brasa. — Sugiro que você não se atrase. Seu pai não deixou a empresa simplesmente para você. Ele deixou uma cláusula. E se você não estiver sentada na minha frente amanhã para aceitar as condições dele, a Vasconcelos Hospitality entra em leilão judicial antes do meio-dia.
