Capítulo 2 O Árbitro da Minha Ruína

POV LÍVIA

O trigésimo quarto andar da torre espelhada na Faria Lima parecia regulado para conservar cadáveres.

Passei pela porta de vidro temperado da Avelar & Associados às sete e cinquenta e oito da manhã. Não dormi um segundo sequer na noite anterior. O gosto amargo de três xícaras de café requentado ainda arranhava o fundo da minha garganta, e cada passo que eu dava sobre o mármore cinza do corredor ecoava como um tiro.

A recepcionista nem precisou perguntar meu nome. Ela apenas me olhou, engoliu em seco e apontou com a ponta da caneta para a última porta de madeira escura no fim do corredor.

Abri sem bater.

Dante estava de pé diante da janela que ia do chão ao teto, de costas para mim, observando o trânsito travado da cidade lá embaixo. Ele já estava sem o paletó do terno cinza; a camisa branca de algodão egípcio estava com as mangas dobradas até os antebraços, delineando os ombros largos com uma clareza irritante. Na mão direita, segurava uma xícara preta de café.

— Você está dois minutos adiantada — ele disse, sem se virar. A voz grave, arrastada, quebrou o silêncio da sala sem pressa alguma.

— Deixa o cinismo de lado, Dante. — Bati a porta atrás de mim. O clique da fechadura me deu uma pontada no estômago, mas mantive os ombros retos. — Eu passei a madrugada inteira com os advogados da Vasconcelos Hospitality tentando derrubar essa palhaçada de notificação.

Ele se virou devagar. Os olhos escuros pousaram no meu rosto, descendo até as olheiras que nem três camadas de corretivo conseguiram esconder, antes de voltarem para os meus olhos. Aquele jeito de me escanear me deu vontade de avançar na jugular dele.

— E eles não conseguiram — ele constatou, com uma calma insultante. Ele caminhou até a mesa maciça de peroba-do-campo e colocou a xícara sobre a base de couro. — Porque o instrumento de sucessão do seu pai foi blindado pelo melhor escritório do país. Senta, Lívia.

— Não vou sentar na sua frente nem morta. Fala logo o que tem nesse testamento e me entrega a documentação. Eu tenho uma reunião de emergência com o conselho às dez.

— Se você não sentar, não vai ter conselho nenhum para presidir às dez. — Dante puxou uma pasta de couro preta lacrada com a fita vermelha e o selo de segurança do cartório. Ele não ergueu a voz nem por um segundo, mas a autoridade na postura dele fez o ar da sala pesar dez quilos a mais. — Você decide.

Minhas pernas tremeram de raiva reprimida. Puxei a cadeira de couro em frente à mesa e me sentei na beirada, as costas rígidas, as unhas cravadas no couro macio da minha bolsa sobre o colo.

Dante abriu a gaveta superior da mesa, tirou um abridor de cartas de prata e rompeu o lacre com um movimento limpo e metódico. O papel grosso crepitou quando ele desdobrou o documento oficial do cartório.

— Henrique Vasconcelos — Dante começou a ler, os olhos fixos nas linhas digitadas — revogou todas as disposições testamentárias anteriores no dia catorze de março deste ano. Ele estabeleceu que a totalidade de suas ações ordinárias da Vasconcelos Hospitality, correspondentes a cinquenta e um por cento do controle do grupo, seja transferida para um fundo fiduciário fechado sob minha curadoria.

Parei de respirar. Senti o sangue fugir do meu rosto, deixando uma sensação gelada e dormente nas bochechas.

— O quê? — A palavra saiu sem força, quase um sopro. — Meu pai colocou as ações da família... na sua mão?

— Não são minhas. São do fundo — Dante corrigiu, sem tirar os olhos do documento. — E você só tem direito a assumir a titularidade dessas ações e a presidência executiva definitiva mediante o cumprimento estrito de uma condição resolutiva.

— Que condição, Dante? Para de enrolar!

Ele levantou os olhos do papel. O olhar dele não tinha zombaria, nem piedade. Tinha apenas um vazio implacável que me deu náuseas.

— Você precisa se casar no civil com comunhão parcial de bens.

Pisquei uma, duas vezes. O ar-condicionado zumbia no teto.

— O quê?

— Você ouviu perfeitamente.

— Isso é ridículo! — Minha voz explodiu, quebrando o silêncio fúnebre do escritório. Me levantei tão rápido que a cadeira raspou com força contra o chão. — Estamos no século vinte e um! Meu pai não pode me forçar a casar para ter acesso à empresa que eu ajudei a gerenciar pelos últimos cinco anos! Isso é ilegal, é abusivo, é uma piada de mau gosto!

— É perfeitamente legal sob o regime de fideicomisso e doação gravada com encargos — Dante rebateu no mesmo tom gélido, deslizando a folha timbrada para o meu lado da mesa. O polegar dele apontou para a assinatura trêmula, mas inconfundível, do meu pai no rodapé. — Seu pai considerava que, aos vinte e sete anos, você é impulsiva demais e está cercada por predadores no conselho que engoliriam você viva em três semanas. Ele exigiu que você estabeleça uma união estável e formal, com duração mínima até o seu aniversário de trinta anos.

Li as linhas borradas pela fúria. A assinatura do meu pai estava lá. A firma reconhecida. A testemunha do tabelião.

“...condição sine qua non: apresentação de certidão de casamento válida perante o curador legal...”

— E se eu recusar? — desafiei, a voz falhando na ponta, as mãos apoiadas sobre a madeira polida da mesa enquanto me inclinava na direção dele. — Se eu simplesmente mandar essa palhaçada para o inferno e entrar com uma ação de anulação?

Dante se recostou na cadeira giratória. Ele cruzou os dedos longos sobre o peito e me encarou com a frieza de um juiz prestes a ditar uma sentença de morte.

— Se você recusar, ou se não apresentar uma certidão de casamento válida nos próximos trinta dias, a cláusula de decaimento entra em vigor imediatamente. As ações do seu pai serão liquidadas em leilão privado restrito aos membros remanescentes do conselho diretor.

O nome de Camila Souto piscou na minha mente como um alarme de incêndio.

Camila tinha o capital. Ela tinha as alianças. Se aquelas ações fossem a leilão, ela compraria o controle absoluto da Vasconcelos Hospitality pelo valor de liquidação e me expulsaria da empresa antes do final da tarde.

O império da minha família. A vida do meu pai. O que restava da memória do Rafael. Tudo seria pulverizado.

— Isso é chantagem — sussurrei, a garganta tão apertada que doía puxar o oxigênio. — Você manipulou meu pai quando ele já estava fraco, doente... Você armou isso para me destruir, exatamente como fez com o meu irmão!

Dante não piscou. Apenas descruzou as mãos e empurrou uma segunda pasta preta para a minha frente, abrindo a primeira página com o indicador.

— Seu pai não estava fraco, Lívia. Ele estava lúcido o bastante para saber exatamente quem estava tentando roubar a empresa dele por dentro. E ele não me nomeou apenas como o advogado que lê o testamento.

Ele não disse nada por três segundos. Só ficou me encarando.

— Ele me nomeou como o único árbitro com autoridade irrevogável para auditar, fiscalizar e aprovar o noivo que você escolher. Se eu não assinar a homologação do seu casamento, você não herda nada.

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