Capítulo 3 Golpe às Dez da Manhã
POV LÍVIA
As portas giratórias de vidro do prédio cuspiram meu corpo na calçada da Faria Lima como se estivessem se livrando de lixo.
O bafo quente do asfalto me atingiu na cara, misturado com cheiro de escapamento de ônibus e o aroma gorduroso de pastel da feira da rua de trás. Eu não conseguia respirar direito. Meus dedos estavam tão cravados na pasta preta de couro que as pontas já tinham perdido a sensibilidade.
Uma buzina curta soou rente ao meio-fio.
O Honda Civic cinza da Bia estava parado em fila dupla, o pisca-alerta piscando com insistência frenética. A porta do passageiro se abriu por dentro antes mesmo que eu chegasse perto.
— Entra logo antes que o marronzinho multe a gente! — Bia gritou do banco do motorista, jogando a bolsa dela para trás para abrir espaço.
Bati a porta com tanta força que o vidro estremeceu. Joguei a pasta no assoalho, entre os meus sapatos de salto, como se aquele monte de papel timbrado pudesse me queimar viva se continuasse encostado no meu colo.
— Pelo amor de Deus, Lívia, você tá branca feito giz — Bia engatou a primeira marcha e arrancou, costurando o trânsito travado rumo à marginal. Ela tirou os olhos da pista por meio segundo para me escanear de cima a baixo. — O que aquele canalha disse? Ele tentou contestar o inventário? Tentou tirar seu nome da presidência?
— Pior — minha voz saiu rouca, um fiapo arranhado. Encostei a cabeça contra o vidro gelado da janela, vendo os prédios espelhados passarem como borrões cinzentos. — Meu pai me amarrou. Fez um fideicomisso fechado.
Bia franziu a testa, os dedos apertando o volante com força.
— Fideicomisso? Mas isso não faz sentido, seu pai sabia que o conselho ia cair em cima se houvesse qualquer brecha na sucessão!
— Faz sentido na cabeça doentia dele. — Soltei uma risada seca que ardeu no fundo da garganta. — O controle das ações só passa pra mim com uma condição resolutiva. Eu tenho trinta dias para apresentar uma certidão de casamento civil. Com comunhão parcial. E o casamento tem que durar até eu fazer trinta anos.
O carro deu um solavanco quando o pé da Bia pesou no freio de repente. O motorista de uma moto atrás buzinou enlouquecido, desviando pelo corredor e soltando um xingamento que nem me dei ao trabalho de processar.
— Casamento? — Bia virou o rosto para mim, os olhos arregalados por trás da armação de tartaruga. — O quê? Lívia, isso não existe! A gente não tá no século dezenove, pelo amor de Deus! Isso é ilegal, abusivo, qualquer juiz de família anula essa palhaçada com uma canetada numa liminar de urgência!
— Não anula, Bia. — Apontei com a ponta do sapato para a pasta jogada no chão. — Eu li as cláusulas. O Dante blindou cada linha daquilo com jurisprudência do STJ. Se eu entrar com ação para anular o encargo, a cláusula de decaimento é acionada na hora. A herança congela e vai para leilão privado entre os sócios minoritários.
O silêncio dentro do carro pesou de uma vez, denso feito chumbo.
Bia entendeu na mesma fração de segundo que eu.
— A Camila.
— A Camila tem linha de crédito pré-aprovada em três bancos de investimento. Se essas ações forem a leilão por liquidação forçada, ela compra tudo por metade do valor de mercado. Ela me põe pra fora da sede antes do final da semana que vem.
Bia bateu com a palma da mão no volante, soltando o ar com força pelo nariz.
— Tá. Respira. Pensa comigo. — Ela ligou a seta e entrou numa rua lateral mais calma, parando o carro rente a uma guia amarela para poder me encarar de frente. — Se a condição é casar, a gente resolve isso. Arruma um casamento de fachada. Um contrato de gaveta. Um amigo nosso, alguém de confiança, ou até um cara de fora que precise de dinheiro. A gente paga um valor mensal absurdo, ele assina o papel no cartório, finge que mora com você se alguém perguntar e pronto. Você segura as ações até fazer trinta anos e depois assina o divórcio.
Olhei para a minha melhor amiga. Por um segundo miserável, aquela ideia soou como a única saída limpa daquele pesadelo. Mas a imagem do rosto duro de Dante, a frieza cortante daqueles olhos escuros me encarando no trigésimo quarto andar, voltou como um balde de água na minha cara.
— Não dá, Bia.
— Por que não daria? É só um papel de cartório!
— Porque o Dante é o árbitro exclusivo.
Bia travou. As sobrancelhas dela se juntaram, confusas.
— Como assim árbitro?
— Meu pai deu a ele o poder irrevogável de fiscalizar e homologar o casamento. — Minhas mãos começaram a tremer de novo, e apertei os joelhos para conter o espasmo. — O cartório não libera uma única ação sem a homologação do Dante. Ele tem autoridade pra investigar a vida do noivo, auditar finanças, antecedentes, compatibilidade societária... Se ele desconfiar por um segundo que é um golpe ou um acordo de fachada, ele veta. E se o prazo acabar com ele vetando, as ações vão pro leilão do mesmo jeito.
— Aquele desgraçado... — Bia sussurrou, a voz carregada de um pavor genuíno. — Ele cercou você por todos os lados. Ele tá fazendo de novo, Lívia. Ele fez isso com as construtoras do Rafael... foi asfixiando os contratos aos poucos até seu irmão não ter pra onde correr.
A menção ao Rafael me deu uma pontada física no estômago, tão forte que tive que fechar os olhos. O cheiro de flores murchas do cemitério pareceu voltar do nada para a minha garganta.
Antes que eu pudesse responder, a tela do meu celular, jogado no porta-copos entre os bancos, acendeu com a violência de uma sirene.
Não era mensagem. Era uma notificação prioritária do sistema interno da Vasconcelos Hospitality. Uma convocação extraordinária com assinatura digital certificada.
Peguei o aparelho com os dedos gelados.
CONVOCAÇÃO DE URGÊNCIA — CONSELHO DE ADMINISTRAÇÃO Pauta: Deliberação sobre vacância da Presidência Executiva e suspensão cautelar de poderes de Lívia Vasconcelos por instabilidade sucessória. Horário: Hoje, às 10h00. Solicitante: Diretora Camila Souto.
Olhei para o relógio digital no painel do carro.
Nove e quinze da manhã.
Camila nem esperou o prazo de trinta dias começar a correr. Ela já estava com a corda na mão, pronta para passar no meu pescoço.
