Capítulo 4 O Veto do Inimigo

POV LÍVIA

As portas do vigésimo segundo andar da sede da Vasconcelos Hospitality se abriram às nove e cinquenta e quatro.

No instante em que pisei no carpete felpudo da ala executiva, a conversa baixa entre as secretárias morreu. Quatro cabeças se ergueram em sincronia, os olhares cheios daquela mistura asquerosa de pena e curiosidade mórbida. Passei direto, sem cumprimentar ninguém. Mas mantive o queixo erguido e a pasta preta prensada sob o braço como um escudo.

Bati a mão na maçaneta dupla da sala de reuniões e empurrei com força.

A mesa de jacarandá de doze lugares estava quase cheia. Seis dos oito membros do conselho já estavam lá, sentados em volta de copos de água mineral e tablets corporativos ligados.

Camila Souto ocupava a cadeira imediatamente à direita da cabeceira, o lugar que sempre pertenceu a ela durante a gestão do meu pai. Vestia um tubinho preto de corte impecável, um colar de pérolas discreto no pescoço e nenhuma gota de suor na testa. Ao lado dela, o Dr. Peixoto, um dos conselheiros mais velhos e histórico aliado dela, fingia analisar uma planilha financeira.

Puxei a poltrona da cabeceira, a cadeira do meu pai e me sentei. O couro rangeu sob meu peso.

— Bom dia a todos — soltei a voz limpa, apoiando os cotovelos na mesa. Minha garganta parecia lixada por dentro, mas não deixei transparecer nem um tremor. — Espero que haja uma explicação muito plausível para uma convocação de emergência enquanto o caixão do meu pai mal esfriou na sepultura.

Camila respirou fundo, pousando a caneta sobre o bloco de notas. Ela me olhou com uma ternura tão bem ensaiada que meu café quase voltou à boca.

— Lívia, querida... você não precisava ter vindo. Nós queríamos poupar você exatamente deste tipo de desgaste.

— Poupar de quê, Camila? De você tentar me dar um golpe antes da missa de sétimo dia? — Bati a palma da mão espalmada sobre a madeira. O estalo fez Peixoto piscar assustado. — Eu sou a vice-presidente estatutária e diretora de operações. Qualquer reunião deliberativa sem o meu consentimento prévio é nula de pleno direito.

— Não quando há vacância de poder com risco iminente de desvalorização das debêntures, Lívia — Camila retrucou com suavidade calculada, inclinando-se para a frente. O olhar dela perdeu a doçura e ficou gélido. — O mercado amanheceu em pânico. As ações da Vasconcelos caíram quatro por cento na abertura da bolsa pelo simples boato de que a sucessão do Henrique estava comprometida. E infelizmente... os boatos procedem.

O ar da sala pareceu sumir de repente.

— Do que você tá falando? — perguntei, sustentando o olhar dela.

— Nós fomos informados de que o seu pai não deixou as ações diretamente para você. — Camila deslizou o indicador pela tela do tablet, projetando na tela gigante na parede um trecho de um relatório resumido do 11º Cartório. — Os cinquenta e um por cento de controle estão travados em um fundo fiduciário sob uma condição resolutiva. Você não é dona de nada, Lívia. Não hoje. E a empresa não pode passar um mês à deriva, esperando você decidir sua vida pessoal, enquanto os fundos credores ameaçam executar as cláusulas de vencimento antecipado das nossas dívidas hoteleiras.

Olhei em volta. Os outros conselheiros evitaram meus olhos. Peixoto pigarreou, fingindo ajeitar os óculos. Eles já tinham combinado aquilo antes de eu chegar. As cartas estavam marcadas.

— Por isso — Camila continuou, a voz firme assumindo o comando da mesa —, apresento ao conselho uma moção de ordem: a suspensão preventiva dos poderes executivos da Lívia Vasconcelos e a minha nomeação como presidente interina com plenos poderes de gestão até a regularização do espólio.

— Isso é um absurdo! — Minha voz ecoou pelo vidro da sala. — Eu construí a linha de resorts no Nordeste do zero! Eu fechei os acordos em Portugal! Você quer me tirar da liderança para fatiar o patrimônio da minha família e vender para o consórcio suíço, exatamente como tentou convencer o Rafael a fazer antes de ele...

— O Rafael não é exemplo para ninguém nesta mesa, Lívia — Camila me cortou com uma frieza brutal, a voz mansa sumindo por completo. — Seu irmão destruiu três subsidiárias antes de morrer daquele jeito deplorável. Não vamos permitir que a sua instabilidade emocional leve a Vasconcelos Hospitality pelo mesmo ralo.

O sangue ferveu na minha cabeça com a humilhação. Minhas unhas cravaram na madeira polida da mesa com tanta força que o esmalte estalou.

— Senhores conselheiros — Camila ergueu a mão, ignorando minha reação —, coloco a moção em votação. Quem for a favor da presidência interina...

O clique seco da fechadura da porta interrompeu o silêncio.

As duas folhas pesadas de jacarandá se abriram sem que ninguém tivesse batido. O som de passos firmes cortou a sala, fazendo Peixoto virar o pescoço tão rápido que quase derrubou o copo de água.

Dante Avelar entrou.

Ele vestia o paletó cinza-chumbo agora, perfeitamente alinhado, as mãos nos bolsos da calça e uma pasta preta fina sob o braço. Ele não olhou para os lados. Os olhos escuros e impenetráveis varreram a mesa e cravaram em mim por uma fração de segundo antes de desviarem para Camila.

A postura gélida dele fez o ambiente parecer sufocante de repente.

— A reunião está encerrada — Dante disse, a voz grave e baixa preenchendo o espaço com uma autoridade que calou a sala na hora.

Camila empalideceu por uma fração de segundo, mas recuperou a compostura na hora, cerrando os olhos.

— Dr. Avelar. Esta é uma sessão restrita do Conselho de Administração da Vasconcelos. O senhor não tem assento aqui e não foi convidado.

Dante deu mais dois passos, parando exatamente atrás da minha cadeira. O calor do corpo dele e o perfume amadeirado me cercaram antes que eu pudesse me afastar.

Ele tirou uma folha timbrada da pasta e a jogou com desprezo sobre o tampo de jacarandá, bem na frente de Camila.

— Eu não preciso de convite, Camila. — Ele apoiou a mão direita no encosto da minha cadeira, os nós dos dedos roçando de leve no tecido fino do meu blazer. — O testamento de Henrique Vasconcelos confere à Avelar & Associados o poder de tutela integral e o direito de voto exclusivo dos cinquenta e um por cento das ações ordinárias até o desfecho da sucessão.

Dante inclinou a cabeça de lado, os olhos fixos na mulher que tentava me destruir.

— O que significa que nada se vota nesta sala sem a minha assinatura. E eu acabei de vetar a sua presidência.

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