Capítulo 5 Vinte e Nove Dias no Relógio
POV DANTE
O peso dos meus dedos contra o encosto da cadeira dela era a única coisa que me impedia de perder a compostura.
Senti o calor do corpo de Lívia atravessar o tecido fino do blazer antes mesmo de ela se mexer. Ela estava rígida, a respiração presa, a linha dos ombros tão tensa que parecia a ponto de quebrar. Se pudesse, ela cravava uma lâmina na minha garganta ali mesmo. Eu sabia disso. E, ainda assim, não tirei a mão do lugar.
Camila não desmontou. Mulher experiente. Ela apenas fechou a pasta de couro sobre a mesa, os movimentos lentos e milimetricamente calculados para esconder a humilhação que faiscava no fundo daqueles olhos castanhos.
— O senhor está cometendo um erro grave, Dr. Avelar — Camila disse, a voz baixa, perigosamente mansa. — Usar tutela fiduciária para interferir em governança corporativa ativa tem precedentes de nulidade. Meus advogados vão analisar essa documentação antes do meio-dia.
— Eles podem tentar — respondi, sem alterar meio tom da minha voz. — Se quiserem perder o registro na OAB por litigância de má-fé, o caminho é exatamente esse. Senhores conselheiros, a sala. Agora.
Não precisei falar duas vezes. Peixoto foi o primeiro a recolher o tablet com as mãos trêmulas, quase tropeçando no carpete ao se levantar. Os outros quatro seguiram como um bando de ratos assustados que acabaram de farejar um predador maior. Camila foi a última a sair. Passou por mim sem pressa, deixando no ar um rastro do perfume doce demais que eu conhecia dos relatórios de auditoria que passei as últimas três semanas revirando.
Ela me encarou por uma fração de segundo antes de cruzar a soleira. Não havia medo naqueles olhos; havia cálculo.
A porta dupla de jacarandá bateu com um clique abafado.
O silêncio que se instalou na sala foi instantâneo, espesso, daqueles que zumbem no ouvido.
Lívia se levantou tão rápido que a cadeira raspou para trás, batendo contra as minhas pernas. Ela girou nos calcanhares, os olhos castanhos em chamas, o rosto pálido em contraste com as bochechas coradas pela adrenalina pura. A boca dela tremia de raiva.
— Quem você pensa que é? — ela cuspiu, a voz rouca, falhando na ponta.
Fiquei parado. Enfiei a mão direita no bolso da calça de alfaiataria, mantendo a postura reta. Eu precisava de cada gota de controle que construí em dez anos de advocacia corporativa para não estender a mão e tocar a pele quente da bochecha dela.
Ela estava exausta. Dava para ver no vinco fino entre as sobrancelhas, na forma como o peito subia e descia rápido demais sob a blusa de seda. Ela não dormia direito havia dias. Talvez desde que Henrique parou de responder aos remédios no hospital.
— Eu sou o homem que acabou de impedir que a sua empresa fosse roubada na sua cara — falei, seco.
— Você não me salvou de nada! — Ela deu um passo à frente, fechando a distância entre nós até eu sentir o cheiro suave de jasmim do xampu dela misturado ao ar-condicionado gelado. Um passo a mais e ela bateria contra o meu peito. — Você veio aqui marcar território! Veio humilhar a Camila só para deixar claro que agora quem manda na minha vida é você!
— A Camila não é sua amiga, Lívia. E se você não tivesse a cabeça tão enfiada no próprio orgulho, já teria enxergado o que ela vem fazendo nos balanços da empresa há mais de dois anos.
— Cala a boca! Não ouse falar da gestão da minha família! — Ela ergueu o dedo indicador, apontando direto para o meio do meu peito. O queixo dela erguido, desafiador. — Você fala de roubo? Você tem a pachorra de entrar aqui e falar de traição?
Minha mandíbula travou. Eu sabia o que vinha a seguir. A mesma lâmina que ela vinha cravando no meu peito desde o enterro do Rafael, sete meses atrás.
— Você destruiu o meu irmão, Dante. — O tom dela desceu, cortante, venenoso, carregado de um luto que ainda sangrava aberto. — O Rafael confiou em você. Ele colocou a reestruturação das construtoras na sua mão, e o que você fez? Fechou os acordos com os credores pelas costas dele! Pressionou judicialmente até ele perder a posse dos terrenos! Você foi o carrasco que empurrou ele para aquele quarto de hotel com uma dose a mais na veia!
O golpe doeu. Mais do que qualquer processo de bilhões de reais que já enfrentei na carreira. Mas eu não pisquei. Não podia.
O que eu tinha guardado no cofre do meu escritório — as transferências bancárias fantasmas, as assinaturas falsificadas de Rafael, o rastro de dinheiro que Camila desviou sistematicamente antes de jogar a culpa na firma de advocacia — ainda não era o bastante para colocar aquela mulher na cadeia sem que ela levasse a Vasconcelos Hospitality inteira para o fundo do poço junto com ela.
Se eu abrisse a boca agora, Lívia agiria por impulso. Ela confrontaria Camila sem as provas definitivas. E Camila a esmagaria.
— Eu fiz o que a lei determinava para estancar uma dívida impagável — falei, a voz saindo com uma frieza mecânica que odiei em mim mesmo. — O Rafael fez as escolhas dele, Lívia. E culpar a mim não vai trazer o seu irmão de volta.
Ela me olhou como se eu tivesse acabado de esbofetear o rosto dela. A dor nos olhos dela recuou por um segundo, substituída por um ódio tão cru e visceral que quase dava para tocar.
— Você é um monstro — ela sussurrou, dando um passo para trás, balançando a cabeça em negação. — Um abutre frio e sem alma. Mas não vai ficar com o que é do meu pai. Eu vou arrumar um marido. Nem que eu tenha que casar com o primeiro desconhecido que cruzar aquela calçada lá embaixo. Eu vou esfregar uma certidão de casamento na sua cara antes do trigésimo dia.
Dei dois passos lentos na direção dela. A sombra dos meus ombros cobriu o corpo pequeno de Lívia contra a luz da janela.
— Tente — murmurei, a voz grave descendo um tom, tão baixa que pareceu vibrar entre nós. — Arrume o homem que quiser, Lívia. Escolha o figurante mais convincente de São Paulo. Mas lembre-se: eu vou auditar cada centavo, cada contrato e cada intenção dele. E no primeiro segundo em que eu farejar uma fraude... eu rasgo a certidão.
Lívia sustentou meu olhar, respirando com força, o peito colado quase ao meu.
— Você tá blefando.
— Você tem vinte e nove dias — respondi, os olhos descendo para os lábios entreabertos dela antes de voltarem para os seus olhos. — E o relógio já tá correndo.
