Looks intensos
ARIA
“O quê?”, tio Barty pergunta enquanto me vê guardar todo o meu equipamento de volta nos armários da sala médica. “Você não está falando sério. Todos os jovens vão. Como assim você não vai?”
Eu suspiro. Já tentei explicar isso a ele umas cem vezes, mas parece que a verdade — ou talvez a minha realidade — não gruda. “Eu não tenho amigos. Não dá pra eu simplesmente aparecer numa festa sozinha. É esquisito e eu prefiro não ir.”
Ele cruza os braços e me lança um olhar que eu só consigo descrever como O Olhar de Técnico. “E como é que você pretende fazer amigos se não sai? Me explica isso.”
“Não precisa. Além disso, você não entenderia. Você não é adolescente há, tipo, quatro décadas.”
Eu dou uma risadinha da minha própria piada, mas ele não parece achar graça. “O que eu odeio ver é uma jovem presa em casa porque tem medo de dar um passo adiante.”
“Foi você que me mandou manter um perfil baixo.”
“Sim. Não gritar com o filho do Alfa. Não ‘não sair e não fazer nenhum amigo’. São duas coisas completamente diferentes.”
“Eu estou bem. Sério. Você não precisa se preocupar comigo.”
Eu começo a lavar as mãos na pia pequena com sabonete antisséptico. Dá pra perceber que ele já está exausto da nossa conversa, porque é sempre assim. Alguém aparece na porta — um jogador, com o cabelo molhado, indicando que acabou de tomar banho. Ele está usando uma camiseta cinza lisa e jeans. Eu sei o nome dele. Tyler Hawke.
“Até amanhã, treinador”, ele diz ao meu tio, antes de fazer um joinha. “Bom jogo hoje à noite.”
“Espere um momento, Tyler”, diz meu tio. As palavras que saem da boca dele me gelam. “Quero te pedir para levar minha sobrinha aqui à festa a que você muito provavelmente vai.”
“Tio Barty!”, eu exclamo.
O olhar de Tyler passa pelo meu rosto e ele diz: “Sim, claro. Com certeza.”
“Vai logo pegar suas coisas”, diz meu tio, dando um passo em direção à saída. “Você não vai querer se atrasar mais do que já está.”
Eu estou em choque. Não acredito que ele fez isso. Assim que ele vai embora, eu digo a Tyler: “Desculpa mesmo. Você não precisa fazer nada se não quiser. Eu falei pra ele que não queria ir.”
“Tudo bem. Eu já vou pra lá mesmo.”
“Tá tranquilo. Você pode ir.”
Um sorriso puxa os cantos da boca dele e enruga as bochechas. “Você tá brincando? Seu tio vai acabar com a minha vida amanhã se eu não te levar. Desculpa, mas eu não vou correr esse risco.”
Meus ombros murcham. Eu seguro um suspiro. Ótimo. Pego minhas coisas e saio pela porta com Tyler. O carro dele é o único no estacionamento, e é um chique — um esportivo de algum tipo. É o modelo novo de que todo mundo está falando.
Já dentro do carro, Tyler pigarreia, olha pra mim e então diz: “Eu já te vi por aí. Só nunca falei oi porque, bem, você é a sobrinha do treinador. Ele avisou a gente pra não falar com você.”
Eu fico chocada com essa revelação. “Ele avisou?”
E depois ele reclama que eu não faço amigos?
“Sim. Você é nova, né? Tá estudando Artes de Cura?”
Eu consigo assentir. “Sim. Comecei neste semestre.”
“E aí, tá gostando da Universidade Ironclaw até agora?”
“Tá sendo ótimo. Eu amo o campus e a paisagem. E você, tá estudando o quê?”
“Contabilidade da Matilha”, ele revela, me dando um sorriso. “Meu pai tem um escritório, então... faz sentido eu seguir os passos dele.”
“Entendi.”
A festa não é tão longe da universidade, então a gente chega rapidinho. Literalmente não tem onde estacionar, e damos volta no quarteirão por vinte minutos até achar um espaço vazio. Está acontecendo dentro de uma casa enorme, e tem gente por toda parte. No gramado da frente. Perto dos carros estacionados. Parados na porta.
Dentro da casa, é muito pior.
Eu já estou começando a me arrepender de ter vindo. Eu sei que isso é uma comemoração pela nossa vitória, mas isso é mesmo necessário? A música está estrondando e tem lixo espalhado por todo lado.
Tyler pergunta alto:
— Você quer uma bebida?
Eu aceno com a cabeça, mesmo sem querer de verdade, e ele sai, me deixando sozinha. Fico perto da escada, enfiando as mãos nos bolsos do jeans porque não sei o que fazer com elas.
Olho ao redor, absorvendo todos os rostos presentes. Alguns eu reconheço da universidade. Outros, no entanto, são desconhecidos para mim. O som de gargalhadas altas atrai minha atenção, e eu me viro para um grupo de caras na sala, sentados em volta de uma mesa de vidro cheia de copos vermelhos vazios e tigelas de petiscos.
Meu coração dá um salto quando cruzo o olhar com Ryder Drexel.
É tão inesperado que, por alguns instantes, eu não sei como reagir. Eu não esperava vê-lo — muito menos olhar para ele e encontrá-lo já me encarando. Ele está sentado com as pernas ligeiramente afastadas, e tem alguém no colo dele. Uma loira com o cabelo preso num rabo de cavalo.
Eu a vi no jogo hoje — acho que ela pode ser líder de torcida, mas não tenho certeza. A questão é que o olhar frio dele está direto no meu rosto, e o curativo sobre a sobrancelha o deixa ainda mais sinistro, por algum motivo.
Por que ele está me olhando assim?
— Aqui — ouço alguém dizer ao meu lado, antes de uma bebida escorrer pela frente da minha blusa. Eu exclamo, e minha atenção vai para Tyler, parado diante de mim com os olhos arregalados.
— Merda — ele xinga. Ele acabou de derramar a bebida que estava na mão dele em cima de mim. — Aria, me desculpa. Aqui, deixa eu te ajudar a limpar.
— Tá t... — Ele começa a esfregar minha pele com a manga da camisa, e eu recuo rápido. — Tyler!
Os olhos dele grudam nos meus, e eu arqueio uma sobrancelha.
— Tá tudo bem. Você não precisa me limpar.
Ele literalmente quase tocou no meu peito.
— Ah, é... claro. — O rosto dele está vermelho como um tomate. — Desculpa mesmo. Eu só estava tentando ajudar e... é. Eu não devia ter...
Dá para ver que ele não fez isso porque queria me tocar como algum pervertido, então eu ofereço um sorrisinho.
— Não esquenta. Tá tudo bem. Isso aí é pra mim?
Ele olha para a bebida na mão, assente e me entrega. O copo está pela metade, mas eu bebo mesmo assim. Eu devia ter perguntado o que era, porque, por algum motivo, o líquido queima minha boca. Eu engasgo.
— Aff! O que é isso?
— Bebida da lua — ele sorri. — Pelo menos, é assim que todo mundo chama.
Eu limpo a boca.
— Por quê?
Ele dá um toque na lateral da cabeça.
— Porque te deixa doida. Tipo, você fica que nem um lunático depois de beber? É forte pra caramba.
Uma risada me escapa. É genuína e alta.
— Criativo. Mas acho que não vou querer mais, não.
— Isso é—
— Tyler — diz uma voz ao nosso lado, num tom cortante.
De novo, eu me pego fazendo contato visual com Ryder, que está bem ao nosso lado.
— Você pode nos dar um minuto?
Eu pisquei várias vezes, rápido, encarando o rosto dele. O que ele está fazendo, parado bem do meu lado? O que ele quer? Tyler concorda com a cabeça, murmura alguma coisa e então me lança um olhar antes de se afastar, me deixando sozinha com Ryder.
Ele parece chateado. E por que não estaria? Acabou de ser dispensado como se não fosse nada.
Ryder dá um passo para mais perto, e o cheiro dele invade meu nariz. Tem algo nisso que eu acho agradável demais — ele não devia cheirar tão bem assim. Mas não consigo me concentrar nisso agora. Eu estou irritada. Ele não tinha o direito de falar com Tyler daquele jeito. E também estou me perguntando que diabos ele quer comigo, e as palavras do tio Barty voltam rápido à minha mente, me deixando gelada.
— Podemos conversar?
