Capítulo 1 🐺 A Mulher Errada
POV ATHENA
Desde cedo aprendi que dinheiro sempre fazia as pessoas olharem umas para as outras de maneiras diferentes. Algumas vão te olhar com respeito. Já outras, com inveja. E ainda havia aquelas pessoas que te olhavam como se pudessem descobrir, em poucos segundos, o quanto você valia em cifrões.
Como eu sabia disso? Porque eu convivia com gente daquele tipo o tempo todo em meus três trabalhos.
Pela manhã, eu trabalhava em uma cafeteria no centro da cidade, rodeada de prédios multimilionários, ou seja, nossa clientela era de nível alto... altamente arrogante e insuportável. Após as uma da tarde, eu entrava em meu estágio remunerado na Black Vanguard Group.
Por ter sido uma aluna com excelentes notas e muito esforçada desde o primeiro dia de aula, nosso tutor de Administração em Gestão de Negócios e Marketing me indicou para um estágio em duas das melhores empresas no mercado: a Astor Holdings e a Black Vanguard.
E eu escolhi o Grupo Black, porque odiava tudo que continha o nome Astor no meio.
Já em algumas noites da semana e também nos finais de semana, eu fazia freelance de garçonete em eventos de gente rica porque aquele tipo de gente pagavam mais, mesmo que eles nos tratassem como invisíveis.
E nesta noite, eu tinha certeza de que todos naquele salão sabiam que eu não pertencia e nunca iria pertencer àquele lugar.
Ajustando a pequena bandeja contra a palma da minha mão, respirei fundo e coloquei um sorriso falso e ensaiado na minha cara antes de adentrar o salão juntamente com meus outros colegas de trabalho, servindo bebidas e aperitivos.
O lugar onde acontecia o evento desta noite era um imponente hotel, que parecia ter sido construído só para lembrar às pessoas pobres como eu de que existiam mundos aos quais nunca teríamos acesso, sem ser trabalhando para os magnatas.
Lustres de cristal pendiam do teto do salão, taças brilhavam sobre mesas cobertas por toalhas impecavelmente brancas e mulheres usando vestidos, que deveriam custar mais do que o apartamento onde eu morava, desfilavam entre empresários e herdeiros.
E eu estava ali, de uniforme preto sobre uma camisa branca, um par de sapatos desconfortáveis e algumas horas de trabalho para enfrentar. Nada além disso.
— Champanhe? — perguntei, oferecendo a bandeja de taças a uma mulher loira que sequer olhou para mim.
— Não.
A resposta dela veio acompanhada de uma expressão de impaciência e desprezo. Apenas contive um suspiro e a vontade de virar aquela bandeja de champanhe na roupa mega cara dela e me afastei, continuando andando por entre os convidados.
Eu não podia me dar ao luxo de discutir, pois precisava daquele dinheiro, de cada centavo dele, já que as contas estavam começando a acumular sobre a pequena mesa do meu quarto. Principalmente depois que minha tia adoeceu.
Além disso, o proprietário do nosso apartamento já tinha deixado claro que não esperaria outro mês pelo aluguel atrasado. Eu não queria pedir ajuda para a minha tia, por isso fazia de tudo para trabalhar e conseguir meu dinheiro. Mesmo que tivesse que engolir algum comentário, olhar torto e humilhação.
Eu só precisava chegar ao fim dessa noite sem nenhum incidente.
— Senhorita, mais bebidas naquela mesa — o gerente disse depois de se aproximar de mim, apontando para um lado do salão.
— Já estou indo — falei me encaminhando até lá, evitando esbarrar nos convidados, mas mantendo meu queixo erguido, porque o meu orgulho era uma das poucas coisas que ninguém conseguiria tirar de mim.
Estava abastecendo a mesa quando senti uma sensação estranha pelo lugar. Foi quando notei que havia tido uma mudança quase imperceptível no ambiente. As conversas tinham diminuído e algumas pessoas começaram a cochichar. Franzi a testa e olhei por cima do ombro.
Um homem havia acabado de entrar no recinto e eu percebi imediatamente que todos no salão pareciam prestar atenção nele. Talvez fosse a maneira como ele caminhava. Sem pressa. Sem precisar pedir espaço, porque as pessoas simplesmente abriam caminho.
Ele era alto, muito alto, com ombros largos e um corpo atlético que o terno escuro perfeitamente ajustado não conseguia esconder. Os cabelos negros estavam impecavelmente penteados para trás, contrastando com os olhos claros que percorriam o salão com uma frieza quase desconcertante.
Seu rosto continha traços fortes como mandíbula marcada e expressão controlada. E havia alguma coisa naquela presença dele que me fez pensar em perigo antes mesmo de pensar em beleza.
Eu já tinha visto homens ricos, já tinha visto homens poderosos, mas aquele homem pertencer a uma categoria completamente diferente.
— O CEO da Astor Holdings está aqui também — escutei alguém murmurar próximo de mim e eu senti o sangue congelar.
Minhas mãos apertaram involuntariamente a borda da bandeja enquanto meus olhos varriam o salão, já vendo um casal de senhores se aproximando do homem que acabara de entrar. O casal era tão elegante quanto o novo convidado do evento. Os três passavam uma aura de intocável que a maioria ali não possuía.
O homem mais velho, acompanhado da senhora, com certeza deveria ser o tal CEO da Astor Holdings, o causador dos problemas financeiros da minha tia e os meus. Mesmo eu não tendo certeza, por nunca ter visto uma foto do dono do Grupo Astor, minha vontade de confrontá-lo me fez dar um passo adiante.
Todavia, acabei esbarrando em alguém. As taças da minha bandeja balançando perigosamente antes de eu conseguir estabilizá-la, segurando-a firmemente.
— Me desculpe — murmurei rápido para o convidado que me deu uma resposta seca e arrogante antes de sair de perto.
Quando ergui os olhos de novo, encontrei o homem que conversava com o casal me olhando diretamente. Ele estava ali parado no centro do salão. E, pela primeira vez naquela noite, eu tive a sensação de que todos os outros convidados haviam desaparecido.
Mesmo naquela certa distância, pude notar algo em seus olhos claros que mantinham presos aos meus. Não havia desprezo. Não havia indiferença. Havia algo muito mais intenso ali. Algo que eu não conseguia compreender.
Mesmo que minha razão gritasse que homens como ele existia em um mundo totalmente diferente do meu, algo dentro de mim, parecia ignorar isso, me fazendo sustentar o seu olhar de forma firme. O vi então inclinar levemente a cabeça, como se estivesse me analisando, e eu senti um arrepio percorrer minha nuca.
Aquilo não fazia sentido. Eu convivia todos os dias com homens poderosos e ricos como ele então porque, naquele momento, o meu coração começou a bater tão forte? E por que ele continuava olhando para mim como se, entre centenas de pessoas, eu fosse a única mulher naquele salão que existia?
