Capítulo 2 🐺 O Homem Intocável

POV VINCENT

Eu detestava eventos como aquele. Não pelo dinheiro. Isso nunca foi um problema para mim. Detestava-os porque eram cheios de pessoas que sorriam enquanto calculavam o quanto poderiam ganhar umas das outras. Entretanto, naquela noite eu tinha uma obrigação a cumprir.

A Astor Holdings havia acabado de fechar uma negociação bilionária com o Grupo Helix, uma importante empresa grega, então minha presença naquele evento era muito necessária.

O conselho queria fotografias. Os investidores queriam conversar mais sobre a nova parceria. Já os jornalistas queriam respostas que não lhes diziam a respeito. E eu entregaria tudo. Ou melhor, quase tudo, porque quando eles começavam a ir para o campo pessoal, eu logo cortava as perguntas.

— Senhor Astor, os investidores da Helix já chegaram no evento.

Assenti sem sequer olhar para o meu assistente enquanto descíamos do carro em frente ao grandioso hotel. Assim que adentrei no salão, as conversas começaram a se silenciar.

Eu não precisava levantar a voz para ser percebido. Nunca precisei, pois havia uma razão para isso. As pessoas percebiam a autoridade antes mesmo de entender de onde ela vinha. Meu pai tinha me ensinado aquilo: O poder não estava em falar alto para chamar atenção, estava na presença.

Afrouxei discretamente o nó da gravata e aceitei uma taça de whisky de um garçom. Foi então que senti aquela sensação. Um incômodo quase físico que fez meu lobo se mexer dentro de mim.

Não. Não ali. Não naquela noite.

— Vincent.

A voz da minha mãe me alcançou antes que eu pudesse identificar o que estava acontecendo, então me virei. Ela vinha acompanhada do meu tio. Os dois tinham a mesma expressão que eu conhecia desde criança... Problemas.

— Mãe.

— Você está evitando nossas ligações?

— Estava trabalhando.

Meu tio soltou uma risada curta.

— Você sempre está trabalhando, Vincent.

— Porque alguém precisa administrar a empresa.

Ele estreitou os olhos.

— E alguém precisa administrar a família.

Suspirei.

— Não vou discutir isso aqui, tio.

Minha mãe cruzou os braços.

— Então onde vamos discutir? No seu escritório? Precisaremos marcar uma reunião para conseguir cinco minutos da sua atenção?

— Mãe...

— Você tem trinta e oito anos, Vincent.

Eu já sabia onde aquela conversa terminaria.

— Não comece, mãe.

— Você precisa se casar.

Minha mandíbula travou.

— Não.

Meu tio tomou um gole da bebida dele.

— Você nem sabe com quem é.

— Não importa, tio.

— Importa para a família.

— A família sobreviveu perfeitamente bem sem controlar a minha vida amorosa.

Minha mãe me encarou com tristeza.

— Não estamos tentando controlar sua vida. Estamos tentando garantir seu futuro.

Soltei uma risada sem humor.

Meu futuro estava garantido desde o dia em que assumi a empresa. Eu tinha dinheiro suficiente para comprar uma cidade pequena, influência suficiente para destruir a carreira de qualquer pessoa que tentasse me prejudicar e poder suficiente para fazer homens muito mais velhos abaixarem a cabeça diante de mim.

Eu não precisava de uma esposa.

— Existem famílias dispostas a uma aliança — meu tio insistiu.

— Não precisamos de uma aliança.

— Você precisa de uma companheira — minha mãe salientou.

Meu lobo rosnou dentro de mim, mas eu ignorei.

— Não preciso de ninguém.

Minha mãe me observou por alguns segundos.

— É exatamente isso que me preocupa.

Não respondi. Ela conhecia meu silêncio. Sabia que, quando eu fechava uma porta, não havia argumento capaz de abri-la.

— Pelo menos conheça as mulheres que estamos considerando — ela pediu.

— Não vou me casar para agradar acionistas, parentes ou qualquer outra pessoa.

— E se não for apenas sobre agradar? — meu tio perguntou e eu o encarei.

Ia rebatê-lo que uma sensação estranha me envolveu. O cheiro veio primeiro. Doce. Quente. E estranhamente familiar.

Meu peito se contraiu.

Meu lobo levantou a cabeça dentro de mim.

🐺 “Minha”

Cerrei os dentes.

Não... Aquilo não podia estar acontecendo. Não em um salão cheio de humanos. Não depois de tantos anos.

Olhei para a direção do cheiro e eu a vi. Minha mãe continuava falando, mas eu já nem escutava mais. Todas as pessoas haviam desaparecido. Só existia aquela mulher de bandeja nas mãos, parada próxima à uma mesa.

Os cabelos longos dela, levemente ondulados, tinham reflexos dourados que capturavam a iluminação do ambiente. Ela parecia jovem demais para aquele lugar e, ainda assim, carregava o queixo erguido de alguém que se recusava a se sentir inferior.

Nossos olhos se encontraram e meu lobo praticamente avançou contra as barreiras que mantive durante toda a minha vida.

Uma onda de calor percorreu meu corpo. Meu coração se acelerou. Meu instinto exigiu que eu me aproximasse. Que a protegesse. Que a tirasse dali. Que ninguém mais sequer ousasse olhar para ela.

Minha mão apertou a taça e escutei o cristal estalar.

— Vincent?

A voz do meu tio me trouxe de volta então olhei para minha mão. O copo estava intacto graças a Deus.

— Estou bem.

Minha mãe acompanhou meu olhar.

— Quem é ela?

— Não sei — a resposta saiu rápida demais dos meus lábios e meu tio percebeu.

— Então descubra — ele disse então eu o encarei.

— Não me dê ordens, tio.

— Não estou dando.

Minha mãe suspirou.

— Vincent, você está diferente.

Eu não respondi porque ela estava certa. Eu estava diferente. Eu sentia isso. Meu lobo estava inquieto. Ele nunca havia reagido daquela maneira e olha que eu tinha conhecido muitas mulheres. Nenhuma tinha provocado aquilo em nós. Nenhuma havia feito meu instinto reconhecer algo antes que minha mente pudesse compreender.

A palavra surgiu dentro de mim... Companheira.

Eu havia passado a vida inteira ouvindo histórias sobre a ligação entre um Alfa e sua companheira predestinada. Histórias que meu pai considerava fraqueza. Ele me ensinara que um Alfa deveria controlar seus instintos. Nunca ser controlado por eles. E eu obedecera até aquele momento.

Quando voltei meu olhar para onde a mulher estava, não havia mais ninguém ali. Ela tinha sumida. Meu corpo reagiu antes da minha razão. Dei um passo varrendo os olhos pelo salão, mas parei. Eu não podia. Não ali.

Mas eu precisava descobrir quem ela era. De onde vinha. Porque meu lobo reagia daquela forma. E, principalmente, porque eu tinha a sensação de que minha vida acabara de mudar sem minha autorização.

Minha mãe tocou meu braço.

— Vincent?

Desviei os olhos para ela. Meu rosto voltou a assumir a expressão fria que o mundo conhecia.

— Descubra quem era aquela mulher.

— A garçonete?

— Sim, mãe.

— Por quê?

— Porque eu quero saber.

Mas, dentro de mim, meu lobo já havia encontrado a resposta. E, pela primeira vez na minha vida, eu não consegui fazê-lo se calar.

🐺 “Nossa companheira”

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