Capítulo 3 🐺 Uma Colisão
POV ATHENA
Quando aquele homem desviou o olhar, aproveitei para me afastar dali e sumir por entre os convidados. Eu me sentia nervosa e levemente ofegante por alguma razão desconhecida. Após ficar alguns minutos no banheiro, sai e voltei ao trabalho.
Segurei a bandeja com firmeza e atravessei o salão, desviando de casais, garçons e convidados que pareciam incapazes de perceber que outras pessoas também precisavam circular.
— Champagne?
Um homem pegou uma taça sem sequer me olhar.
— Obrigada — murmurei, embora ele não tivesse agradecido.
Continuei.
Meu turno ainda estava longe de terminar, e meus pés começavam a reclamar dos sapatos. Eu deveria ter escolhido uma profissão que permitisse tênis. Ou, melhor ainda, uma que não exigisse ficar em pé durante horas enquanto pessoas ricas reclamavam da temperatura do champagne.
Respirei fundo.
Só mais algumas horas. Depois eu iria para casa, tiraria aqueles sapatos e esqueceria que aquela noite tinha existido. Era simples assim. Pelo menos deveria ser. Passei por uma mesa e estendi a bandeja para um casal, foi então que alguém chamou:
— Garçonete!
Olhei, era o gerente novamente apontando para a mesa do outro lado. Assenti com um gesto de cabeça e me virei. Quase que imediatamente percebi que o meu caminho estava bloqueado.
Um homem alto estava parado diante de mim. O mesmo homem que eu havia visto entrar no salão. O homem dos olhos claros. E por algum motivo, meu corpo pareceu reconhecê-lo antes que a minha cabeça.
Meu coração acelerou.
Ele estava acompanhado de uma mulher elegante, provavelmente da mesma classe social que todos aqueles convidados. Ela tinha cabelos perfeitamente arrumados, um vestido sofisticado e uma expressão que parecia ter sido treinada para demonstrar superioridade.
Passei pelo casal, tentando encontrar espaço.
— Com licença.
O homem se moveu ligeiramente. Eu também. A mulher ao lado dele fez o mesmo. E então tudo aconteceu rápido demais. O ombro dela bateu no meu. A bandeja inclinou. Uma taça escorregou. E minha respiração falhou.
— Cuidado!
O líquido dourado saltou e caiu diretamente sobre o terno impecável do homem. Silêncio total... O salão inteiro pareceu congelar. Eu fiquei imóvel, segurando a taça causadora e olhando para o terno dele. Uma mancha de champagne se espalhava pela camisa branca e pelo paletó escuro. Depois ergui os olhos para o rosto dele.
— Meu Deus! — a mulher exclamou, olhando para mim como se eu tivesse acabado de incendiar o hotel — Você é completamente incompetente?
Franzi a testa.
— Eu sinto muito. Foi um acidente.
— Você derramou uma bebida em cima dele!
Olhei para o homem e ele continuava em silêncio. Estranhamente, não parecia irritado. Parecia... concentrado. Os olhos claros estavam presos em mim e aquilo me deixou ainda mais desconfortável.
— Eu já pedi desculpas — falei.
A mulher soltou uma risada incrédula.
— Você tem alguma ideia de quanto custa esse terno?
Olhei novamente para o terno.
— Não.
Ela abriu a boca, surpresa.
— É um terno feito sob medida.
— Imagino que seja — rebati.
— Provavelmente custa mais do que você ganha em vários meses!
Aquilo atingiu meu orgulho então endireitei os ombros.
— Então espero que ele tenha seguro, querida.
Algumas pessoas próximas prenderam o riso, já a expressão da mulher mudou.
— Como ousa? Você deveria estar de joelhos pedindo desculpas, sua incompetente!
Meu sangue ferveu.
— Eu só derrubei champagne no terno dele. Não matei ninguém.
Um murmúrio percorreu o grupo de pessoas ao redor. A mulher deu um passo em minha direção.
— Você não sabe com quem está falando.
Olhei para ela.
— Não e, sinceramente, não vejo por que eu deveria saber.
Ela ficou completamente imóvel pela minha resposta atrevida. Por algum motivo, o homem ao lado dela quase pareceu... se divertir.
— Isabella — ele disse baixo e firme então a mulher se virou para ele.
— Ela arruinou o seu terno.
— Eu percebi.
— E está sendo insolente.
— Também percebi.
Então ele voltou a olhar para mim. Aqueles olhos claros me fizeram novamente esquecer, por um segundo, o restante do salão. Havia alguma coisa estranha nele. Não apenas a aparência. Era a maneira como ocupava o espaço. Como se não precisasse exigir atenção. As pessoas simplesmente lhe davam.
— Você está bem? — ele perguntou.
Demorei um segundo para responder.
— Eu?
Ele assentiu.
— Sim.
Olhei para minha mão onde havia respingado bebida em meus dedos.
— Estou.
A tal de Isabella soltou uma risada seca.
— Claro que está. Ela deveria estar preocupada com você.
Voltei os olhos para ela.
— Ele é adulto. Pode cuidar do próprio terno.
O silêncio voltou. Dessa vez, mais pesado. Eu devia estar louca. Completamente louca. Mas não conseguia aceitar que aquela mulher falasse comigo daquela maneira. Eu precisava daquele trabalho, porém não precisava aceitar aquele tipo de humilhação.
— Athena...
A voz do gerente surgiu atrás de mim.
Me lasquei.
— Senhorita, o que aconteceu?
— Sua funcionária derramou champagne no convidado — Isabella respondeu antes que eu pudesse.
O gerente empalideceu, já se desculpando e dizendo que providenciaria imediatamente a limpeza do traje.
— Não é necessário. Foi um acidente apenas.
Isabella virou-se para ele, indignada, mas ele a silenciou com apenas um olhar. E havia algo naquele olhar que fazia minha pele formigar.
— Você não sabe quem eu sou?
Franzi a testa, confusa.
— Não. Deveria?
Ele me observou por alguns segundos. Alguma coisa mudou em sua expressão. Surpresa? Interesse? Não consegui identificar.
— Entendi.
Isabella parecia ainda mais irritada.
— Você deveria pelo menos falar seu nome completo.
Olhei para ela.
— Me recuso. Eu não preciso dizer meu nome para fazer o meu trabalho.
A mulher apertou os lábios.
— Você realmente não tem noção de onde está.
— Tenho, sim. Estou trabalhando — falei pegando outra bandeja que estava sobre uma mesa próxima — E, se me dão licença, tenho convidados para atender.
Passei entre os dois, ou melhor, tentei. Porque, assim que dei o segundo passo, senti uma mão fechar-se ao redor do meu pulso me fazendo parar imediatamente.
Meu coração disparou.
Olhei para baixo. Depois ergui os olhos lentamente. Os dedos do homem desconhecido envolviam meu pulso com firmeza, mas sem machucar. Seu rosto estava a poucos centímetros do meu. Aquela proximidade fez o ar parecer diferente.
— Solte-me — falei firme.
Ele não soltou.
Seus olhos claros percorreram meu rosto como se tentassem entender tudo aquilo. E, pela primeira vez, percebi que havia algo perigosamente intenso por trás daquela calma.
— Você não vai embora ainda — ele disse.
Engoli em seco.
— E quem exatamente você pensa que é para decidir isso por mim?
A mandíbula dele se contraiu. Por um instante, seus olhos pareceram escurecer. Então ele se aproximou um pouco mais e eu tive a estranha certeza de que aquele homem estava tão confuso quanto eu.
Eu não sabia quem ele era. Mas, naquele momento, alguma coisa me dizia que eu acabara de entrar no caminho de um homem que não estava acostumado a ouvir a palavra não.
