Capítulo 4 🐺 Não me Toque

POV VINCENT

A mão dela era pequena sob o aperto dos meus dedos. Quente. Delicada. E perigosamente... familiar.

— Solte-me — ordenou ela novamente, com a voz baixa e firme.

Não havia nela o medo ou a submissão que qualquer humano demonstraria diante da minha presença.

Meu lobo, por outro lado, ignorava qualquer resquício de racionalidade. Ele arranhava as paredes da minha mente, exigindo que eu a puxasse para mais perto, que a colocasse atrás de mim e a isolasse do mundo. Eu, no entanto, lutava pelo controle.

— Você precisa me ouvir — avisei, a mandíbula tensa.

Ela ergueu o queixo, sustentando o olhar com uma audácia que poucas pessoas teriam a coragem de ter comigo.

— Eu não preciso ouvir homem nenhum que segura meu pulso sem a minha permissão.

Trinquei os dentes.

Quando ela tentou puxar o braço, percebi que eu deveria soltá-la. A etiqueta, a discrição e a razão exigiam isso. Contudo, o aroma que emanava de sua pele se tornava insuportavelmente nítido. Era doce, quente e carregado de uma essência pura que fazia cada fibra do meu ser entrar em estado de alerta.

🐺 “Proteja-a”

— Você não deveria estar aqui — falei com os dentes semicerrados.

— Se eu não deveria estar aqui então solte o meu braço.

Antes que eu pudesse retrucar, uma voz conhecida cortou o ambiente:

— Filho.

Fechei os olhos por uma fração de segundo, respirando fundo.

Minha mãe se aproximava ao lado de Sebastian. Meu tio trazia sua costumeira postura calculista, enquanto ela não disfarçava a apreensão. Logo atrás vinha o chefe da equipe do salão. E todos os olhares convergiam exatamente para os meus dedos cravados no pulso daquela mulher.

Abri a mão e soltei-a imediatamente.

Ela deu um passo para trás. A ausência daquele contato físico deveria ter sido um alívio para a minha lucidez, mas foi uma punição. Meu lobo rosnou em fúria dentro do meu peito, protestando como se tivessem arrancado uma parte dele.

🐺 “Minha!”

— O que está acontecendo aqui? — perguntou minha mãe, varrendo o espaço entre nós.

— Nada — tentei responder com a costumeira frieza.

Sebastian estreitou os olhos, alternando a atenção entre a moça e a mancha úmida em meu terno. Um brilho perspicaz cruzou seu rosto:

— Parece que houve um incidente.

— Foi apenas um acidente — cortei, antes que tornassem a situação mais pública ainda.

A moça abriu a boca para intervir:

— Eu...

— Senhorita — o encarregado do evento interveio, aproximando-se com passos rápidos e postura rígida — Por favor, me acompanhe até os fundos agora mesmo.

Ela olhou para o homem e depois para mim, a postura ereta e defensiva.

— Eu posso ir sozinha.

— Nós precisamos conversar sobre a sua conduta com os convidados.

— Eu já me desculpei pelo ocorrido.

— Ainda assim, preciso que me acompanhe.

Vi os ombros dela ficarem rígidos. A tensão em seu corpo fez meu lobo ranger os dentes. Não gostei da aproximação daquele homem. Não gostei de vê-la sendo repreendida. E detestei, com cada fibra do meu corpo, a ideia de que a levassem para longe do meu campo de visão.

Fechei então a mão livre em um punho.

— Espere — ordenei.

O chefe da equipe congelou no lugar. Já a moça virou-se, surpresa.

— O quê?

Eu não tinha uma explicação lógica para dar. Não sabia por que a ideia de vê-la sumir entre as portas de serviço fazia meu peito arder. Só sabia que meu corpo inteiro se recusava a permitir que ela partisse assim.

— Ela não fez nada de errado — afirmei, a voz soando autoritária o suficiente para silenciar a conversa ao redor.

Minha mãe me encarou com espanto. Sebastian permaneceu imóvel, analisando cada detalhe. Isabella, que observava tudo em silêncio ao meu lado, continuou calada.

— Então por que estava me segurando? — ela confrontou-me, apontando para o próprio pulso marcado — Se não fiz nada, não tinha o direito de me segurar pelo pulso.

Engoli o impacto daquelas palavras. Ela estava certa, e eu não tinha justificativa humana para dar.

— Vince... — minha mãe chamou, num tom moderado, percebendo algo que me escapava — Deixe a jovem ir. Está tudo bem.

Não estava. Absolutamente nada estava bem.

A moça deu as costas, e o funcionário indicou o corredor com um gesto curto. Ela começou a se afastar.

Cada passo que ela dava para longe parecia arrancar o ar dos meus pulmões. O murmúrio dos convidados se transformou em zumbido distante, a luz do salão pareceu enfraquecer e a única coisa tangível que restava era aquele aroma que começava a se dissipar.

🐺 “Vá atrás dela!”

Dei meio passo à frente antes que a razão me fizesse parar. Não. Eu era Vincent Astor. Eu não podia perder a cabeça e a compostura em meio a investidores por causa de uma desconhecida. Porém, exatamente na soleira da saída, a jovem hesitou e olhou para trás.

Nossos olhares se cruzaram uma última vez através do salão. Foi um golpe seco no meu peito. Mesmo àquela distância, tive a certeza absurda de que, se a deixasse cruzar aquela porta, algo irreparável aconteceria.

— Vincent? — a voz de Sebastian quebrou o transe.

Virei o rosto para ele, mascarando o turbilhão interno.

— Você está bem? — ele insistiu com os olhos semicerrados em vigilância.

— Estou.

— Tem certeza?

— Absoluta.

Era mentira. Eu estava a segundos de perder o controle.

Alexander Astor passara anos me ensinando que um Alfa deve ser o mestre absoluto dos seus instintos; que qualquer sinal de hesitação ou fraqueza cobraria o preço do poder. Eu havia me tornado o líder implacável que ele moldou.

Então como era possível que uma garota sem nome tivesse acabado de estilhaçar anos de disciplina apenas por respirar o mesmo ar que eu?

— Você deveria ir atrás dela — sussurrou Isabella perto de mim, com um sorriso quase imperceptível nos lábios.

Virei-me com frieza.

— O quê?

— Nada — ela ergueu as mãos em rendição fingida — Só estou dizendo que você ficou encarando a porta por quase um minuto inteiro.

— Não seja ridícula, Isabella.

Minha mãe deu um passo à frente, interrompendo-nos.

— Vincent, precisamos conversar sobre as alianças pendentes. Sobre o seu casamento.

— Não vou discutir negócios de família aqui — respondi com rispidez — E já deixei claro que não vou me casar por conveniência.

Sebastian cruzou os braços.

— Talvez as circunstâncias não te deixem escolhas.

Senti o sangue ferver.

— O que quer dizer com isso?

Capítulo Anterior
Próximo Capítulo