Capítulo 5 🐺 A Fuga

POV VINCENT

Nenhum dos dois respondeu. Mas uma troca rápida de olhares entre minha mãe e meu tio deixou claro que havia segredos que eles ainda não tinham colocado na mesa para mim. Entretanto, antes que eu pudesse exigir respostas, um rosnado surdo reverberou no fundo da minha garganta.

Meu lobo empurrou as barreiras.

O rastro daquela moça ainda flutuava no ar, forte, magnético, puxando minhas entranhas em direção ao corredor. A urgência quebrou a barreira humana por uma fração de segundo. Minha visão ardeu em brasa e minhas pupilas se dilataram, tingindo minhas írises claras com o reflexo carmesim do meu lobo interior.

Foi rápido. Menos de um segundo. Respirei fundo, forçando as barreiras de volta e trazendo o controle à tona. Ninguém ao redor notou. Ninguém no salão percebeu a fera sob a pele impecável do CEO. Ninguém, exceto Isabella.

Ao olhar para a minha prima, notei que ela havia empalidecido um pouco.

Ela olhava nos meus olhos como quem acabara de vislumbrar um segredo proibido. Seus olhos se moveram em direção à porta vazia por onde a garçonete tinha saído e depois se voltaram para mim. A arrogância habitual de Isabella havia desaparecido por completo, dando lugar a um choque silencioso.

— Vincent... — ela sussurrou, engolindo em seco — Você sentiu, não sentiu?

Permaneci impassível, sustentando o olhar:

— Sentiu o quê?

Ela não precisava explicar. O cheiro. A fixação imediata. A fúria protetora que quase me desmascarou na frente de dezenas de humanos.

— Ela é... — Isabella começou a dizer, a voz falhando diante da percepção do que aquilo significava para o futuro da alcateia e da nossa família.

Não deixei que ela completasse a frase. Não era necessário.

Pela primeira vez em trinta e oito anos, o meu lobo não estava mais lutando contra as correntes. Ele apenas repousou na certeza implacável que agora queimava em meu sangue com uma verdade absoluta:

🐺 “Nossa companheira.”

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.

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POV ATHENA

Eu precisava de ar. Não me importava com o que o gerente pensaria, com o que aquela mulher arrogante diria ou com o custo exorbitante daquele maldito terno. Eu só precisava me afastar daquele homem. Principalmente da intensidade desconcertante daqueles olhos claros.

Aproveitei que o chefe da equipe foi chamado por outro garçom quando estava me chamando a atenção e escapei do corredor por uma porta lateral, alcançando uma varanda que dava acesso a um pátio externo. O ambiente era silencioso, cercado por paredes de pedra iluminadas suavemente por algumas arandelas, contrastando com o brilho distante que transbordava das imensas janelas envidraçadas do evento.

Apoiei as mãos no parapeito e respirei fundo. Finalmente, silêncio.

Fechei os olhos, sentindo o peso daquela noite cair sobre os meus ombros. Que situação infernal. Eu deveria ter ficado no meu apartamento. Deveria ter recusado o freelancer de garçonete e inventado qualquer desculpa. Mas a realidade batia à porta sem pedir licença: as contas acumuladas e a saúde frágil da minha tia exigiam cada centavo.

Abri a pequena bolsa presa à cintura e encontrei o maço de cigarros esquecido ali há semanas. Puxei um e o segurei entre os dedos. Não era um hábito frequente; na verdade, fazia meses que eu sequer cogitava colocar um cigarro na boca. Mas, naquele momento, tudo o que eu queria era uma válvula de escape para esquecer o desastre com o champagne.

Aproximei o filtro dos lábios, mas hesitei.

— Ótimo, Athena — murmurei para mim mesma, soltando um suspiro exasperado. — Agora você vai voltar a fumar por causa de um velho ricaço.

— Velho?

A voz grave e repentina atrás de mim fez todos os músculos do meu corpo enrijecerem.

Girei sobre os calcanhares e o vi. Ele estava ali. O homem do terno manchado. O mesmo desconhecido que havia passado os últimos minutos testando a minha paciência e acelerando o meu pulso de um jeito que eu detestava admitir.

Ele havia retirado o paletó, ficando apenas com a camisa social branca onde a mancha dourada de bebida ainda era visível, conferindo-lhe uma postura mais descontraída, porém nem um pouco menos imponente. De perto, sua presença dominava a vasta varanda.

— Você me seguiu? — disparei, cruzando os braços.

— Não exatamente — respondeu ele, mantendo uma calma irritante.

— Então o que veio fazer aqui fora?

Ele enfiou as mãos nos bolsos da calça de alfaiataria.

— Procurando ar.

Olhei com desdém em direção ao salão suntuoso.

— Tem um salão enorme com ar-condicionado lá dentro.

— Eu sei.

— E por que escolheu vir exatamente para cá?

Os olhos claros dele se fixaram nos meus por alguns segundos intermináveis.

— Talvez porque você veio.

Meu coração saltou contra as costelas. Desviei o olhar para a penumbra do pátio abaixo, tentando esconder o impacto daquelas palavras sob uma máscara de deboche.

— Você é sempre tão convencido?

Um meio sorriso delineou o canto dos lábios dele. Foi a primeira vez que o vi sorrir, e a visão foi surpreendentemente desconcertante. Havia um magnetismo bruto naquele rosto que me desarmava contra a minha vontade.

— Você deveria voltar para a sua festa — retruquei, apontando para a porta.

— Não é a minha festa.

Aquilo soou como se fosse uma mentira, mas ignorei.

— Então volte para a sua mesa e para a sua acompanhante.

— Não tenho uma mesa, e muito menos uma acompanhante.

Franzi a testa, intrigada.

— Você certamente não parece o tipo de homem que fica sem um lugar em um evento desses. Muito menos desacompanhado.

— E você não parece o tipo de mulher que deveria estar trabalhando como garçonete em um evento desses.

O encarei com firmeza, mas semicerrando os olhos:

— Isso por acaso foi um elogio?

— Talvez.

— Pois você é péssimo nisso.

Ele soltou uma risada baixa e contida. O som me pegou desprevenida; sob a fachada austera e controlada, aquele magnata parecia apenas... exausto.

— Você realmente não sabe quem eu sou? — ele perguntou mais uma vez, estudando minuciosamente cada expressão minha.

— Você já fez essa pergunta lá dentro.

— E você continua sustentando que não sabe.

— Não sei e não faço questão de saber — afirmei convicta.

Ele balançou a cabeça de leve, murmurando pensativo:

— Interessante.

— O que tem de interessante nisso?

— Nada.

O olhar dele caiu sobre o cigarro que eu ainda segurava entre meus dedos.

— Você vai acender isso?

— Não sei.

— Então não fume.

Ergui as sobrancelhas, inconformada com o tom natural de comando.

— Isso foi uma ordem, senhor?

— Foi apenas um conselho, senhorita.

— Eu não me lembro de ter pedido conselho nenhum.

— Percebi.

A resposta direta me arrancou um sorriso involuntário. Guardei o maço de volta na bolsinha, erguendo o queixo.

— Pronto. Satisfeito?

— Um pouco.

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