Capítulo 1 1

### JULIANA NARRANDO

Desde pequena eu moro aqui, no Complexo da Maré. Foi aqui que cresci, aprendi a me virar e conheci cada viela, cada escadaria e cada caminho que me levava para casa. Não posso dizer que tive uma infância perfeita, porque nunca tive. Fui criada apenas pelo meu pai, Thiago, depois que minha mãe decidiu me abandonar ainda pequena para fugir com outro homem.

A única coisa que herdei dela foi o nome.

Às vezes me pergunto se ela pensa em mim. Se algum dia sentiu saudade. Se sequer lembra que deixou uma filha para trás.

Mas, com o tempo, parei de procurar respostas para perguntas que provavelmente nunca teriam uma.

Meu pai também nunca foi o melhor pai do mundo, mas era o que eu tinha. E, apesar de todos os seus defeitos, durante muito tempo ele fez o possível para que nada faltasse dentro de casa.

Quer dizer... ele fazia.

Até a bebida deixar de ser apenas um hábito e se transformar em um problema.

Meu pai sempre bebeu. No começo, eram algumas cervejas depois do trabalho, nada que parecesse tão grave. Só que as coisas foram mudando aos poucos. Uma lata virou duas, duas viraram várias e, quando percebi, ele já não conseguia passar um dia sem beber.

Depois vieram coisas muito piores.

Ele começou a usar drogas e, junto com elas, vieram as dívidas.

Muitas dívidas.

No morro, todo mundo parecia saber da vida de todo mundo, e não demorou muito para começarem os comentários de que Thiago devia dinheiro para várias pessoas.

Algumas vezes eu fingia não ouvir.

Outras, entrava em casa e trancava a porta, torcendo para que ninguém aparecesse atrás dele.

O pior de tudo era saber que eu poderia acabar pagando por erros que não eram meus.

Eu tentava conversar com meu pai, mas ele nunca me escutava.

— Pai, você precisa parar com isso.

Essa era uma das frases que eu mais repetia.

E ele sempre tinha uma resposta diferente.

Às vezes prometia que iria mudar.

Às vezes dizia que estava tudo sob controle.

Outras vezes simplesmente mandava que eu cuidasse da minha própria vida.

Então eu aprendi a não insistir.

Aprendi a trabalhar, estudar e cuidar de mim mesma.

Naquela manhã, como em todos os outros dias, desci para trabalhar. Eu trabalhava em uma loja no asfalto e, apesar de precisar pegar algumas horas de ônibus e depois caminhar alguns quilômetros para chegar ao morro, eu preferia aquele emprego a qualquer coisa que pudesse me aproximar das bocas.

Sempre fazia o caminho mais longo.

Não gostava de passar perto dos pontos onde os traficantes ficavam. Eu sabia que eles não mexiam com quem não tinha envolvimento, mas ainda assim preferia manter distância.

Quanto menos eu soubesse, melhor.

Quanto menos me vissem, melhor.

Eu gostava da minha vida simples.

Queria terminar meus estudos, fazer o Enem e, quem sabe, conseguir uma oportunidade para sair dali algum dia.

Não porque tivesse vergonha de onde morava.

Mas porque queria uma vida diferente.

Uma vida que fosse minha.

Assim que cheguei à loja, encontrei Ana atrás do balcão.

— Bom dia, Ana — falei, colocando minha bolsa no lugar de sempre.

— Bom dia, Juliana — ela respondeu com um sorriso. — Chegou cedo hoje.

Antes que eu pudesse responder, Rafaela apareceu atrás de mim.

— Também, né? Se ela chegar atrasada, perde o emprego.

Olhei para ela e revirei os olhos.

— Bom dia para você também, Rafa.

Rafaela era minha melhor amiga. Nós crescemos juntas e, apesar de sermos completamente diferentes, sempre fomos muito próximas. Ela também morava no morro e foi graças a ela que consegui aquele emprego.

— Eu só estou falando a verdade — ela respondeu, rindo.

O dia passou rápido. Meu trabalho ali era tranquilo, e eu gostava disso. Era graças àquele salário que conseguia manter as contas de casa em dia, porque, quando o assunto era dinheiro, eu definitivamente não podia contar com meu pai.

O pouco que ele ganhava fazendo alguns bicos desaparecia rapidamente em bebida e outras coisas.

No fim do expediente, guardei minhas coisas e encontrei Rafaela me esperando na porta.

— Vamos?

— Sim.

Peguei minha bolsa e seguimos juntas.

Até o morro ainda tínhamos algumas horas de ônibus pela frente e depois uma longa caminhada.

No caminho, Rafaela parecia mais animada do que o normal.

— Hoje o morro vai pegar fogo.

Olhei para ela, desconfiada.

— Por quê?

— Você não soube? O baile de hoje vai ser o maior de todos os tempos.

Soltei um suspiro.

— Eu não vou conseguir dormir hoje. E meu pai vai estar por aí aprontando.

Só de pensar em Thiago no meio daquela confusão, já sentia um aperto no peito.

— Já disse para você largar seu pai de mão e curtir a sua vida.

— Ele é meu pai, Rafa.

— E daí? Você não pode viver a vida inteira cuidando dele.

Ela tinha razão em algumas coisas, mas era muito fácil falar quando não era ela quem chegava em casa e encontrava o próprio pai completamente destruído.

— Você deveria ir para o baile comigo — ela insistiu. — Aproveitar um pouco a vida.

— Cada um tem uma forma de pensar. E eu não acho que aproveitar seja se metendo em um baile cheio de traficantes armados. Deus me livre. Tenho amor à minha vida.

Rafaela começou a rir.

— Você é muito medrosa, Ju.

— E pretendo continuar viva.

— Você não sabe o que está perdendo.

Balancei a cabeça em sinal de negação.

Eu definitivamente não queria descobrir.

Quando chegamos ao morro, Rafaela seguiu para casa para se arrumar. Ela estava decidida a ir ao baile e provavelmente passaria a noite inteira dançando.

Eu, por outro lado, pretendia passar bem longe daquele lugar.

Continuei meu caminho sozinha e parei na padaria.

— Olá, seu Paulo.

— Oi, Juliana.

— Me vê quatro pães, por favor.

— Está na mão.

Seu Paulo pegou os pães, colocou tudo em um saco pardo e me entregou.

— E como está seu pai? Faz tempo que não vejo ele.

Meu sorriso vacilou por um instante.

Eu não gostava quando perguntavam por ele.

— Está bem, sim.

Mentir já tinha se tornado uma coisa comum.

— Fiquei sabendo que está estudando para cursar o Enem. A Rafa me disse.

Paulo era tio da Rafaela e sempre foi muito gentil comigo.

— Sim, estou. Não vejo a hora de fazer a prova.

— Vai dar tudo certo. Você é esforçada.

Sorri.

— Obrigada.

Ele começou a olhar para o outro lado quando algumas meninas entraram na padaria.

— Seu Paulo, vê para nós umas cucas — Ariane pediu.

— Claro.

Eu aproveitei para pegar o dinheiro.

— Eu já cobro você, Ju — ele disse.

Assenti e fiquei um pouco afastada enquanto ele atendia as meninas.

Foi quando ouvi a conversa delas.

— Hoje eu vou ficar com ele — Ariane falou, toda animada.

— Com Fael? — Tais perguntou, sorrindo.

Meu corpo ficou tenso no mesmo instante.

Eu conhecia aquele nome.

Todo mundo conhecia.

Fael não era apenas mais um homem do morro. Era o dono. O homem que comandava tudo por ali. O nome que fazia muita gente baixar a voz quando era mencionado.

— Eu quero pegar o amigo dele — Tais continuou. — Imagina nós duas com o dono e o sub?

— Ia ser top, hein — Ariane respondeu, rindo.

Balancei a cabeça discretamente.

Graças a Deus que a minha vida não era aquela.

Eu não conseguia entender como alguém podia desejar se envolver com homens daquele mundo.

Para mim, aquilo significava perigo.

Significava problemas.

Significava coisas das quais eu queria ficar o mais longe possível.

Seu Paulo terminou de me cobrar e coloquei o dinheiro em sua mão.

— Obrigada, seu Paulo.

— Até mais, Juliana.

— Até.

Saí da padaria segurando o saco de pão e continuei meu caminho.

Quanto mais eu me aproximava de casa, mais o movimento do morro aumentava. Algumas pessoas já se preparavam para o baile, outras conversavam nas portas das casas e algumas crianças brincavam pelas vielas.

Eu apenas queria chegar em casa.

Naquela noite, eu não queria festa.

Não queria música alta.

Não queria saber quem estaria no baile.

Eu só queria encontrar meu pai e ter certeza de que ele estava bem.

Assim que cheguei em casa, abri a porta e imediatamente percebi que ele não estava ali.

Olhei ao redor.

Silêncio.

Meu pai não estava.

Apenas algumas latas de cerveja estavam jogadas pelo chão da cozinha.

Respirei fundo, sentindo o peito apertar.

Peguei o saco de pão e deixei sobre a mesa antes de começar a recolher as latas.

Eu queria tanto tirar meu pai daquela vida.

Queria ajudá-lo, fazê-lo entender que ainda existia uma saída.

Mas, naquele momento, olhando para toda aquela bagunça, só consegui pensar em uma coisa:

acho que seria quase impossível.

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