Capítulo 2 2
### FAEL NARRANDO
Hoje era dia de baile no morro.
E não era qualquer baile.
Filipe tinha organizado tudo e, pelo movimento que eu já conseguia ver de longe, aquela noite prometia ser uma das maiores que o morro já tinha visto.
Eu nunca fui muito de ficar desfilando por baile.
Quando aparecia, geralmente era para encontrar os parças, trocar uma ideia, beber alguma coisa e observar o movimento. Gostava de estar por dentro de tudo que acontecia no meu território, mas não fazia questão de me envolver em toda aquela festa.
Eu tinha coisas mais importantes para cuidar.
O dinheiro, por exemplo.
Entrei na boca e encontrei um dos vapores sentado com algumas pastas espalhadas sobre a mesa. Ele parecia concentrado, conferindo alguns papéis.
Me aproximei.
— O que tá pegando?
Ele levantou a cabeça rapidamente.
— Estou vendo os moradores para cobrar.
Cruzei os braços.
— Cobrar o quê?
— As dívidas.
Ele apontou para as pastas.
— Tem bastante filho da puta devendo.
Estendi a mão.
— Deixa eu ver isso aí.
O vapor me entregou a pasta sem questionar.
Comecei a passar página por página.
Nome.
Endereço.
Valor.
Data.
Mais um nome.
Mais uma dívida.
Mais um valor.
Quanto mais eu lia, mais a minha paciência diminuía.
Eu conhecia aquele morro melhor do que ninguém. Sabia quem trabalhava, quem tinha dinheiro, quem estava passando dificuldade e quem simplesmente achava que podia se aproveitar porque ninguém estava cobrando.
O problema era que tinha gente demais devendo.
E, pior, alguns daqueles nomes já apareciam em outras listas.
Levantei os olhos lentamente.
— Como vocês fazem empréstimo para as mesmas pessoas que já devem?
Ninguém respondeu.
Olhei para um dos vapores.
— Estou falando com você.
Ele engoliu em seco.
— A gente achou que eles iam pagar...
Soltei uma risada sem humor.
— Achou?
Bati a pasta contra a mesa.
— Tá me achando com cara de banco? De otário?
O silêncio tomou conta do lugar.
Joguei a pasta longe.
— Caralho, porra!
O vapor praticamente encolheu no lugar.
Eu odiava quando tentavam me fazer de idiota.
Não tinha herdado aquilo tudo para ficar perdendo dinheiro por causa da incompetência dos outros.
Meu pai tinha me ensinado desde cedo que, naquele lugar, se você não prestasse atenção em tudo, alguém acabava passando a perna em você.
E eu não permitiria isso.
Filipe entrou na boca naquele momento.
— Calma aí, Fael.
Olhei para ele.
— Calma?
Ele viu a pasta no chão e depois olhou para os vapores.
— O que aconteceu?
— Tem maior grana solta por aí nas mãos desses drogados do morro.
Peguei outra folha da mesa e ergui.
— E isso aqui é só uma parte. Isso que eu nem peguei a porra do caderno de dívida de droga e dos aluguéis.
Filipe ficou sério.
— Vamos resolver isso aí.
— Vamos mesmo.
Coloquei as mãos sobre a mesa e encarei os homens na minha frente.
— Filipe, eu quero que cobrem geral. Não quero ficar com dinheiro meu por aí, não. Quero todo meu dinheiro de volta. Com juros.
Ele assentiu.
— Pode deixar.
— E pega o caderno dos aluguéis também.
Filipe me encarou por alguns segundos.
— Todo mundo?
— Todo mundo.
— Tem gente que está atrasada porque realmente não tem condição.
— Então conversa comigo depois. Mas não quero ninguém usando isso como desculpa para simplesmente não pagar.
Ele assentiu novamente.
— Pode crer.
Passei a mão pelo rosto.
Eu era o dono daquele morro e, ainda assim, tinha gente tentando me passar para trás.
Não tinha chegado onde estava por acaso.
Não herdei aquilo tudo do meu pai à toa.
Ele me ensinou como comandar aquela porra.
Me ensinou que respeito não era algo que se pedia.
Era algo que se conquistava.
E, principalmente, me ensinou que, quando você deixava alguém passar por cima de você uma vez, aquela pessoa tentaria fazer de novo.
Por isso eu não dava espaço.
— Relaxa, Fael — Filipe falou, tentando aliviar o clima. — Hoje é dia de baile. Bora descer?
Olhei para ele.
Eu não estava muito a fim de festa, mas também não precisava passar a noite inteira trancado dentro da boca.
Assenti.
— Bora.
Saímos juntos.
Filipe sempre esteve comigo.
Nós crescemos naquele lugar. Meu pai praticamente criou ele junto comigo e, com o tempo, Filipe deixou de ser apenas um parceiro.
Era meu irmão.
A única pessoa que eu confiava de olhos fechados.
Ele sabia como eu pensava antes mesmo de eu precisar falar.
Descemos até a entrada do morro e encontramos alguns dos caras reunidos.
— O que tá pegando aqui, seus comédias?
Alguns riram.
— Truco, bora, Fael? — Yuri chamou.
Antes que eu respondesse, Filipe falou:
— Horário de serviço, mané.
— Ih, chegou o chefe — Yuri brincou.
Revirei os olhos.
— Vocês não têm mais nada para fazer?
— Hoje é dia de baile, patrão.
— E justamente por isso tem que ficar tudo em ordem.
Eu conhecia aqueles caras.
Se deixasse, passariam a noite inteira jogando, bebendo e esquecendo o que realmente precisavam fazer.
Filipe me conhecia bem e logo tratou de mandar cada um voltar para sua função.
Foi quando Yuri olhou para o outro lado da rua.
— Como a Juliana está gostosa, hein?
Meu olhar acompanhou o dele por instinto.
Virei a cabeça.
Vi apenas uma menina morena de costas, subindo o morro.
Ela estava com uma bolsa pendurada no ombro e caminhava tranquilamente, como se não tivesse pressa nenhuma.
Não consegui ver seu rosto.
Apenas os cabelos escuros balançando enquanto ela subia.
— São pagos para cuidar das mina agora? — perguntei, voltando a olhar para eles.
Yuri riu.
— Só estou comentando.
— Então comenta sobre os caras que estão me devendo.
Apontei para eles.
— Quero vocês cobrando os comédias que estão me devendo.
Os caras começaram a rir.
Revirei os olhos.
— Mando nessa porra mais não?
— Manda, manda — Yuri respondeu, ainda rindo.
— Então faz o que eu estou mandando.
Filipe deu um tapinha no meu ombro.
— Vai colar no baile?
— Vou não.
— Tem certeza?
— Tenho.
Olhei para ele.
— E acho bom você se controlar também, porque segunda-feira vamos cobrar cada um.
Filipe levantou as mãos.
— Já é.
Fizemos nosso toque e ele saiu de perto.
Fiquei ali por mais alguns minutos, observando o movimento.
Aos poucos, o morro começava a ficar cheio.
Música.
Gente chegando.
Carros parando.
Pessoas descendo e subindo as vielas.
O baile ainda nem tinha começado direito e já dava para perceber que aquela noite seria movimentada.
Acabei sentando com os caras.
Peguei um baseado, acendi e comecei a puxar enquanto conversávamos.
Não demorou muito para alguém aparecer com as cartas de truco.
— Bora?
— Bora.
Começamos a jogar.
Eu estava concentrado na partida quando ouvi algumas vozes femininas se aproximando.
Ariane e Tais pararam perto da mesa.
Levantei os olhos.
— Será que posso falar com você, Fael? — Ariane perguntou.
— Desenrola aí.
Ela olhou para os outros homens.
— Conversar eu e você. Apenas.
Voltei minha atenção para as cartas.
— Estou de boa aqui jogando truco.
Ela se aproximou mais.
— Tenho uma coisa para falar com você.
— Fala.
Ariane inclinou o corpo na minha direção e aproximou a boca do meu ouvido.
— Acho que você vai gostar do que eu tenho para te mostrar.
Ela se afastou com um sorriso no rosto.
Olhei para ela por alguns segundos.
Eu já conhecia aquele jeito.
Ariane não estava ali para conversar sobre qualquer coisa.
— Então cola lá na boca mais tarde.
Ela sorriu.
— Que horas?
— Daqui uma hora eu estou lá.
— Te espero.
Ela saiu acompanhada de Tais.
Voltei para o jogo como se nada tivesse acontecido.
Eu não era de ficar esbanjando as mulheres que pegava por ali. Nunca gostei de ficar contando vantagem ou fazendo questão de mostrar quem estava comigo.
Mas também não ficava na seca.
Se aparecia uma oportunidade de me divertir, eu aproveitava.
O problema era que, quando eu aparecia no baile, todas acabavam caindo em cima.
Era exatamente por isso que preferia ficar longe.
Paz.
Era disso que eu gostava.
Mas, naquela noite, talvez eu abrisse uma exceção.
Continuei jogando, enquanto o som da música aumentava cada vez mais ao longe.
Eu ainda não fazia ideia de que, naquela mesma noite, uma dívida que não era minha iria colocar no meu caminho uma mulher que eu jamais esqueceria.
E que aquela garota morena que eu tinha visto apenas de costas, subindo o morro, ainda iria cruzar o meu caminho de uma forma que nenhum de nós dois poderia imaginar.
