Capítulo 3 3
### JULIANA NARRANDO
O final de semana passou tão rápido que, quando percebi, já era segunda-feira.
O despertador tocou cedo e eu levei um susto, estendendo a mão às pressas para desligá-lo. Fiquei alguns segundos olhando para o teto, ainda sonolenta, até me lembrar de que meu pai não tinha voltado para casa durante todo o final de semana.
Meu coração apertou.
Eu torcia para encontrá-lo ali naquela manhã.
Por mais que Thiago estivesse cada vez mais perdido, por mais que a bebida e as drogas tivessem transformado o homem que eu conhecia, ele continuava sendo meu pai.
Eu o amava.
Talvez mais do que deveria.
Ele era tudo o que eu tinha.
Por isso, por mais difícil que fosse, eu nunca conseguiria simplesmente abandoná-lo.
Levantei da cama, tomei um banho rápido e comecei a me arrumar para o trabalho. Ainda estava terminando de prender o cabelo quando ouvi um barulho vindo da sala.
Saí do quarto e encontrei meu pai.
Meu coração imediatamente se encheu de alívio.
— Oi, pai.
Ele sequer olhou direito para mim.
— Bom dia.
Sua voz estava seca e rouca.
Também senti o cheiro.
Cachaça.
Meu estômago embrulhou.
— Já tomou café? — perguntei, tentando não demonstrar minha preocupação.
Ele ficou olhando para algum ponto qualquer da parede.
— Ainda não.
Me aproximei.
— Quer que eu arrume alguma coisa para o senhor comer?
— Não precisa.
Ele se levantou e passou por mim sem dizer mais nada.
Fiquei olhando enquanto ele caminhava pela casa.
Queria perguntar onde tinha passado o final de semana.
Queria saber se estava bem.
Queria perguntar se tinha usado alguma coisa.
Mas conhecia meu pai.
Se eu perguntasse demais, ele se irritaria.
Então apenas respirei fundo e fui terminar de me arrumar.
Peguei minha bolsa e abri a porta.
Foi quando levei um susto.
Um vapor estava parado bem na frente da minha casa.
— Ô, tem aviso aqui para tu — Yuri falou, estendendo um papel.
Peguei o documento, confusa.
— O que é isso?
— Aviso de aluguel atrasado.
Meu coração disparou.
— Mas...
— Já está vencendo o próximo também. Precisa acertar isso aí. Se não, quem vai cobrar é o chefe.
Olhei novamente para o papel.
— Mas está pago, Yuri. Eu paguei.
Ele me encarou.
— Pagou, não.
— Eu paguei sim.
— Quem recebe sou eu.
Engoli em seco.
— Eu dei o dinheiro para o meu pai pagar.
Na mesma hora, lembrei do mês anterior.
Eu tinha entregado praticamente todo o meu salário para ele. Pedi que pagasse o aluguel, as contas e comprasse algumas coisas para casa.
Agora tudo fazia sentido.
Yuri soltou um suspiro.
— Então quem recebeu foi o dono do bar.
Meu peito apertou.
Meu pai tinha gastado o dinheiro.
Provavelmente com bebida.
— Olha, teu prazo está acabando. É melhor tu desenrolar essa grana aí.
Ele virou as costas e começou a sair.
— Yuri...
Ele parou.
— O que eu faço se eu não conseguir pagar?
Ele apenas me olhou.
— Aí tu conversa com o chefe.
E foi embora.
Fechei a porta devagar.
Fiquei alguns segundos parada, olhando para o papel em minhas mãos.
Eu queria voltar para dentro e perguntar ao meu pai por que ele tinha feito aquilo.
Queria cobrar explicações.
Mas olhei para o relógio e percebi que já estava quase atrasada.
Não podia perder o emprego.
Pelo menos ainda tinha aquele trabalho.
Eu daria um jeito.
Teria que me organizar para pagar dois aluguéis naquele mês.
O problema era que o que eu ganhava mal dava para pagar um.
E eu ainda precisava comprar comida, ajudar em casa e cuidar das despesas do meu pai.
Eu não sabia como ainda conseguia acreditar nele.
Sempre que ele prometia que iria pagar alguma coisa, eu entregava o dinheiro.
Sempre acreditava que daquela vez seria diferente.
Mas não era.
Meu pai estava se perdendo.
E eu começava a ter medo de que ele tivesse chegado a um ponto sem volta.
Saí de casa apressada e fui para o trabalho.
Quando entrei na loja, percebi imediatamente que havia alguma coisa errada.
Ana estava com o rosto fechado.
Rafaela também.
— Bom dia — falei, tentando sorrir.
Ninguém respondeu de imediato.
Olhei para Rafaela, que apenas baixou os olhos.
Então Ana se aproximou.
— Juliana, será que podemos conversar?
Meu coração acelerou.
— Claro.
— Lá no meu escritório.
Segui Ana até a pequena sala nos fundos da loja.
Fechei a porta atrás de mim.
— Eu fiz alguma coisa errada, Ana?
Perguntei tentando me convencer de que aquilo era apenas uma bronca.
Talvez eu tivesse chegado atrasada.
Talvez tivesse cometido algum erro.
Qualquer coisa seria melhor do que perder aquele emprego.
Ana respirou fundo.
— Então, minha querida...
Ela hesitou.
Meu coração começou a bater mais forte.
— A loja está vendendo muito pouco.
Fiquei em silêncio.
— E eu vou precisar te demitir.
Parei de respirar por alguns segundos.
— O quê?
— Eu sinto muito, Juliana.
Olhei para ela sem conseguir acreditar.
— Estamos reduzindo o pessoal. Vou ficar apenas com os dois funcionários mais antigos.
Ela pegou um envelope e colocou sobre a mesa.
— Aqui está o seu pagamento.
Meu olhar caiu sobre o envelope.
Era o dinheiro que eu precisava.
Mas não era suficiente.
Nem de longe.
— Eu sinto muito mesmo — Ana repetiu.
Engoli o choro.
Não queria chorar na frente dela.
Não queria demonstrar o quanto aquilo estava me destruindo.
— Tudo bem.
Minha voz saiu baixa.
— Obrigada pela oportunidade.
Peguei o envelope e saí da sala.
Assim que coloquei os pés do lado de fora da loja, encontrei Rafaela me esperando.
Pelo jeito que ela estava, já sabia a resposta.
— Você também? — perguntei.
Ela assentiu.
— Corte de gastos.
Soltei uma risada sem humor.
— Aqui também.
Ficamos alguns segundos em silêncio.
— E agora? — perguntei.
Rafaela deu de ombros.
— Podemos tentar alguma coisa em shopping.
Balancei a cabeça.
— Eles não dão trabalho para quem mora no morro.
— Você está falando sério?
— Esqueceu onde moramos, Rafaela?
Ela ficou em silêncio.
— Na Rocinha.
— Preconceito de merda — ela resmungou.
— Mas você sabe que é assim que acontece.
Soltei um suspiro.
Eu já tinha ouvido comentários suficientes para saber como algumas pessoas nos enxergavam.
Para eles, morar no morro era motivo para desconfiança.
— Pelo menos o dinheiro que eu tenho aqui consegue pagar os dois aluguéis.
Rafaela virou o rosto para mim.
— Dois aluguéis?
— É.
— Como assim, Juliana? Você sempre paga tudo certinho.
Baixei os olhos.
— Mês passado eu dei o dinheiro para o meu pai.
Rafaela fechou os olhos, já imaginando o resto.
— E acredita que ele gastou?
Dei uma risada forçada.
— Adivinha com o quê?
— Juliana...
— Hoje Yuri foi lá em casa me cobrar.
Ela passou a mão pelos cabelos.
— Você deveria usar esse dinheiro para sair do morro.
Olhei para ela.
— Como?
— Vai embora. Deixa ele lá se afundar sozinho.
Meu coração doeu.
— Não posso fazer isso.
— Pode sim.
— Ele é meu pai, Rafaela.
Ela suspirou.
— E você está se destruindo junto com ele.
Não respondi.
Porque, no fundo, eu sabia que talvez ela estivesse certa.
Mas eu simplesmente não conseguia abandonar meu pai.
Rafaela decidiu tentar uma vaga no shopping.
Eu, por outro lado, resolvi voltar para o morro.
Precisava pensar.
Talvez encontrasse algum trabalho por ali.
Qualquer coisa serviria.
Eu só precisava de dinheiro.
O caminho de volta parecia mais longo do que de costume.
Minha cabeça estava cheia.
O emprego perdido.
O aluguel atrasado.
Meu pai.
As dívidas.
Tudo parecia estar desmoronando ao mesmo tempo.
Quando cheguei perto da entrada do morro, percebi que havia alguns homens armados conversando com os vapores.
Meu passo diminuiu.
Não gostava daquele tipo de situação.
Tentei passar sem chamar atenção.
— Ei!
Parei.
Conhecia aquela voz.
Virei.
Era Yuri.
— Oi.
Ele se aproximou e olhou para os homens que estavam atrás dele.
— Essa é a filha do Thiago.
Um dos homens me analisou de cima a baixo.
— Eles querem desenrolar com teu pai, mas ninguém consegue achar o velho.
Franzi a testa.
— Quem são vocês?
O homem que parecia ser o líder deu um passo à frente.
Era alto, barbudo e tinha uma expressão que me fez sentir um arrepio.
— Teu pai tem uma dívida comigo.
Meu coração acelerou.
— Que dívida?
— Eu quero meu dinheiro.
Ele me encarou.
— Tu vai mandar aquele velho descer e me pegar agora.
— Eu não sei se ele está em casa.
— Então sobe e chama ele.
— Mas eu nem sei que dinheiro é esse que ele deve para você.
O homem ficou irritado.
— Eu só negocio com teu pai.
— A gente já disse que o velho não está na casa — Yuri interferiu.
O homem apertou a mandíbula.
— Então sobe, Juliana.
Olhei para Yuri.
— Se você achar teu pai, manda ele descer.
Fiquei parada por alguns segundos.
Não queria subir.
Não queria me envolver.
Mas também não queria provocar aquele homem.
— Eu vou procurar.
Quando comecei a subir as escadarias, ouvi a voz dele atrás de mim.
— Eu sei onde tu trabalha, mocinha!
Parei por um instante.
— Se eu não achar teu pai, eu cobro de você!
Meu sangue gelou.
Continuei subindo.
Cada degrau parecia mais difícil que o anterior.
Subi aquelas escadarias praticamente correndo, até chegar em casa sem fôlego.
Abri a porta.
— Pai?
Nada.
Entrei.
Olhei no quarto.
Vazio.
Sala.
Vazia.
Cozinha.
Também vazia.
— Pai?
Nada.
Meu coração começou a bater descontrolado.
Ele não estava ali.
Olhei novamente pela casa inteira, procurando qualquer sinal dele.
Nada.
A pergunta veio imediatamente à minha cabeça:
Onde o meu pai tinha se metido?
