Capítulo 4 4
### JULIANA NARRANDO
No outro dia de manhã, meu pai ainda não tinha chegado em casa.
Eu praticamente não dormi.
Passei a noite acordando com qualquer barulho, acreditando que era ele chegando, abrindo a porta e entrando em casa como se nada tivesse acontecido. Mas, toda vez que eu olhava para a sala, encontrava apenas silêncio.
Meu pai tinha sumido.
Depois de tudo o que tinha acontecido no dia anterior, eu estava ainda mais preocupada. Os homens que apareceram na entrada do morro estavam atrás dele, Yuri tinha me avisado sobre o aluguel atrasado e agora eu nem sabia onde Thiago estava.
Levantei da cama e fui até a sala.
— Pai?
Silêncio.
Respirei fundo.
Eu precisava me preparar para o pior.
Voltei para o quarto e peguei minha bolsa. Tirei todo o dinheiro que eu tinha guardado para pagar o aluguel e fiquei alguns segundos olhando para aquelas notas.
Era o único dinheiro que eu tinha.
O único.
Depois do que tinha acontecido com o meu emprego, eu não podia perder aquilo de jeito nenhum. Não sabia quando conseguiria outro trabalho e já estava devendo dois meses de aluguel.
Abri o guarda-roupa e escondi o dinheiro entre algumas roupas que quase nunca usava, bem no fundo.
— Aqui ninguém vai achar — murmurei para mim mesma.
Não poderia arriscar.
Muito menos deixar aquele dinheiro ao alcance do meu pai.
Apenas pensar nisso já fazia meu coração doer.
Eu não queria desconfiar dele.
Não queria precisar esconder meu próprio dinheiro dentro da minha própria casa.
Mas a verdade era que eu já não sabia mais do que Thiago era capaz.
Peguei minha bolsa e decidi ir até a casa da Rafaela. Precisava conversar com ela, pedir um conselho ou, pelo menos, tirar um pouco daquele peso das minhas costas.
Quando cheguei lá, porém, ela não estava.
Perguntei para algumas pessoas, mas ninguém soube me dizer onde Rafaela tinha ido.
Então resolvi voltar para casa.
Foi quando virei a rua e dei de cara com a boca.
Meu corpo ficou imediatamente tenso.
Yuri, Filipe e Fael estavam conversando na frente do local.
Meu primeiro instinto foi abaixar a cabeça e continuar andando.
Eu não queria chamar atenção.
Na verdade, durante toda a minha vida, fiz de tudo para não ter contato com aquele mundo.
Eu morava naquele morro desde pequena, conhecia aquelas ruas como ninguém, mas sempre evitava passar por ali.
Naquele dia, porém, era impossível escolher outro caminho.
Continuei andando sem olhar diretamente para nenhum deles, mas conseguia sentir os olhares sobre mim.
Principalmente um.
Eu sabia quem era.
Fael.
Podia contar nos dedos as vezes em que tinha visto o dono do morro pessoalmente.
Na verdade, eu mal conhecia o rosto dele. Conhecia muito mais sua fama do que qualquer outra coisa.
O mesmo acontecia com o pai dele.
Sempre ouvi histórias.
Coisas que eu preferia nem saber se eram verdade.
Então meu único desejo era passar por ali sem que ninguém falasse comigo.
Mas, obviamente, isso não aconteceu.
— Juliana.
Reconheci a voz de Yuri.
Parei e olhei para ele.
— Oi.
Ele se aproximou.
— Tudo bem?
Olhei rapidamente para Fael.
Ele me encarava sério.
Desviei os olhos no mesmo instante.
— Tudo. E você?
— O dinheiro do aluguel.
Meu estômago apertou.
— Teu prazo acaba hoje.
Assenti rapidamente.
— Eu tenho o dinheiro. Está na minha casa.
Era verdade.
Naquele momento, pelo menos, ainda estava.
— Passo lá mais tarde para receber.
— Tá bom.
Yuri assentiu e se afastou, voltando para perto dos outros dois.
Continuei o meu caminho.
Eu só queria chegar em casa.
E respirar.
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Quando entrei em casa, soube imediatamente que alguma coisa estava errada.
A porta estava destrancada.
Empurrei-a devagar.
Meu coração disparou.
A casa estava completamente revirada.
— Pai?
Entrei depressa.
— Pai!
Nada.
Olhei para a sala.
Tudo estava fora do lugar.
Algumas coisas tinham sido jogadas no chão e os poucos objetos que tínhamos estavam espalhados.
— Pai!
Corri até o quarto dele.
Foi então que meu medo aumentou.
As gavetas estavam abertas.
As roupas espalhadas.
A porta do guarda-roupa escancarada.
E, quando olhei melhor, percebi que não havia praticamente nenhuma roupa dele ali.
Meu pai tinha levado tudo.
Fiquei parada no meio do quarto, tentando entender.
Para onde ele tinha ido?
Ele tinha ido embora?
E o pior...
Ele tinha me deixado?
Minha garganta fechou.
Depois de alguns minutos, comecei a arrumar a bagunça.
Não porque realmente estivesse preocupada com aquilo.
Eu só precisava fazer alguma coisa.
Precisava ocupar minha cabeça para não começar a imaginar todas as coisas que poderiam ter acontecido.
Talvez meu pai estivesse fugindo de alguém.
Talvez estivesse escondido.
Talvez tivesse decidido sair do morro.
Mas, se tinha feito isso...
Por que não tinha me levado?
Por que não tinha me contado nada?
Passei horas colocando as coisas no lugar.
Quando finalmente terminei, já era noite.
O silêncio da casa começou a me incomodar.
Foi quando percebi que estava com fome.
Abri um dos armários da cozinha.
Nada.
Olhei outro.
Nada.
Meu coração apertou mais uma vez.
Não tinha comida.
Nem o pouco que tínhamos.
— Até isso...
Minha voz saiu fraca.
Fechei o armário.
Meu pai tinha levado tudo.
Fui até o meu quarto.
Quando abri a porta, parei.
As minhas roupas estavam todas reviradas.
Meu coração disparou.
— Não...
Corri até o guarda-roupa.
As roupas que eu tinha usado para esconder o dinheiro estavam jogadas de qualquer jeito.
Comecei a procurar.
Uma peça.
Outra.
Mais uma.
Meu desespero aumentava a cada segundo.
— Não, não, não...
Procurei novamente.
Nada.
Meu corpo inteiro começou a tremer.
O dinheiro não estava ali.
— Meu Deus.
Peguei minha bolsa desesperada.
Comecei a procurar em todos os bolsos, abrindo cada compartimento, na esperança de ter deixado o dinheiro ali e simplesmente esquecido.
Mas não havia nada.
Nenhuma nota.
Nenhuma moeda.
Nada.
— Meu próprio pai me roubou.
Minhas pernas perderam a força.
Sentei na cama.
Eu não conseguia acreditar.
Não queria acreditar.
Meu pai tinha entrado no meu quarto, revirado as minhas coisas e levado o único dinheiro que eu tinha.
O dinheiro do aluguel.
O dinheiro que eu precisava para sobreviver.
Comecei a procurar novamente, mesmo sabendo que era inútil.
Olhei embaixo da cama.
Dentro das gavetas.
Na bolsa.
No meio das roupas.
Nada.
Nenhum real.
Meu pai tinha me deixado sozinha.
Tinha fugido.
E, antes de ir embora, tinha levado tudo o que podia.
Levei as mãos ao rosto.
As lágrimas começaram a cair.
Eu estava desesperada.
Não tinha dinheiro.
Não tinha emprego.
Não tinha comida.
Não sabia onde meu pai estava.
Devia dois meses de aluguel.
E agora não tinha como pagar nenhum deles.
Eu estava na merda.
Por causa do meu próprio pai.
Foi então que me lembrei.
Yuri.
Ele tinha dito que passaria ali mais tarde.
Meu coração acelerou ainda mais.
Daqui a pouco ele viria cobrar o aluguel.
O que eu faria?
O que eu diria?
Eu não tinha mais dinheiro.
Meu pai tinha levado tudo.
E eu não sabia como explicar isso.
Muito menos o que aconteceria comigo depois.
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### FAEL NARRANDO
— Fael.
A voz de Yuri saiu pelo rádio.
Parei de mexer no celular e peguei o aparelho.
— Fala.
— Tô com um problema aqui na entrada.
Franzi a testa.
— Que problema?
— Tentei falar com Filipe, mas não rolou.
Fiquei em silêncio por alguns segundos.
— Tô descendo.
Desliguei o rádio.
Coloquei a arma na cintura e saí da boca, segurando o rádio na mão.
Assim que apareci do lado de fora, vi uma movimentação diferente na entrada do morro.
Mas outra coisa chamou minha atenção.
Juliana.
Ela subia correndo pelas escadas.
Meu olhar a acompanhou por alguns segundos.
Ela parecia desesperada.
Logo desapareceu entre as casas.
Voltei minha atenção para a entrada.
— Que bagunça é essa, porra?
Minha voz fez alguns homens se virarem.
— O que tá pegando aqui?
Yuri se aproximou.
— Esses caras aí querem entrar para cobrar uma dívida de um morador.
Olhei para os homens.
Não eram do meu morro.
— Que morador?
Um deles respondeu:
— Thiago, da Rua Sete.
Meu olhar mudou imediatamente.
— Pai da Juliana.
Ele assentiu.
Antes que eu respondesse, Filipe apareceu.
— Ele deve para nós também.
Olhei para ele.
— Agora tu tá aí.
— Tava resolvendo uma parada.
— Sempre resolvendo alguma parada.
Yuri continuou:
— Mas tô dizendo que o cara não está em casa. Já procuramos pelo morro e ninguém sabe onde aquele velho se meteu.
Um dos homens deu um passo à frente.
— Ele tem uma filha.
Olhei para ele.
— E daí?
— Se ele não me pagar, quem vai sofrer as consequências é ela.
Ele falou aquilo como se fosse simples.
— Eu tô falando.
Minha expressão fechou.
— Como é o seu nome?
— Teco.
Assenti devagar.
— Então escuta, Teco.
Dei um passo na direção dele.
— A tua dívida é com o velho.
Ele ficou me encarando.
— Ache ele fora do meu morro.
— Mas...
— Agora some.
Teco apertou os dentes.
— Isso não vai ficar assim.
Não respondi.
Ele continuou:
— Eu vou voltar com os meus homens e vou entrar nesse morro para achar ele.
Soltei uma risada.
— Tenta.
Ele ficou em silêncio.
— Eu vou estar lá na laje rindo da tua cara, seu desgraçado.
O homem me encarou por mais alguns segundos.
Depois virou as costas.
Saiu ameaçando, falando algumas coisas que eu nem fiz questão de ouvir.
Revirei os olhos.
Mais um merda tentando me intimidar.
Quando ele foi embora, virei para Filipe.
— Quanto aquele verme deve para nós?
— Uns oito mil.
Olhei para ele.
— Caralho.
Meu sangue ferveu.
— Por que não estava no caderno de dívida que eu vi?
Filipe suspirou.
— Porque você viu outro caderno.
— Como assim?
— É dívida de droga, cara.
Passei a mão pelo rosto.
— Vocês estão perdendo a noção das coisas.
— Eu falei que tinha mais dinheiro espalhado.
— Oito mil, Filipe.
Ele não respondeu.
— Oito mil.
Olhei para Yuri.
Depois para Filipe.
— Eu quero a porra desse dinheiro.
— O velho deve ter vazado — Yuri falou.
Fiquei pensando por alguns segundos.
Se Thiago tinha fugido, alguém precisava saber onde ele estava.
E, se ninguém soubesse...
Eu descobriria.
— À noite vamos bater na casa dele.
Filipe me encarou.
— Eu quero esse dinheiro na minha mão ainda hoje.
— Mas só vai ter a filha.
— E daí?
Yuri se aproximou.
— Ela ainda está devendo o aluguel.
Olhei para ele.
— Disse que entregou o dinheiro para o pai quando fui cobrar.
— O aluguel está atrasado, não está?
— Tá.
Olhei para Filipe.
— Então ela vai assumir a dívida toda.
Ele franziu a testa.
— Fael...
— Não quero nem saber.
Minha voz saiu firme.
— A desgraçada está morando de graça. Quero o meu dinheiro.
Filipe ficou em silêncio.
Eu não tinha tempo para ficar resolvendo problemas sentimentais.
Dívida era dívida.
E, naquele morro, as pessoas precisavam aprender a cumprir com o que prometiam.
Estava quase anoitecendo quando os vapores da entrada passaram no rádio.
Mais dois homens tinham aparecido procurando Thiago.
E estavam atrás da filha dele também.
Soltei uma risada sem humor.
Se o velho não aparecesse logo, a situação de Juliana iria piorar.
Muito.
Eu nem precisaria fazer esforço.
Os credores fariam isso por mim.
Continuei fumando enquanto Filipe permanecia perto.
— Vai colocar a menina para fora mesmo?
Olhei para ele.
— Ela paga o mês atrasado e vaza.
— E se ela não tiver dinheiro?
Traguei o baseado.
— Aí ela morre.
Filipe ficou sério.
— Fael...
— É assim que funciona aqui.
Soltei a fumaça devagar.
— Quero saber de dinheiro, não. Quero saber do povo me respeitar aqui dentro.
Ele apenas assentiu.
Ficamos em silêncio por alguns segundos.
Olhei para o rádio.
Depois para Filipe.
— Anda.
Ele me encarou.
— Manda cobrar aquela filha da puta.
