Capítulo 5 5
### JULIANA NARRANDO
Em um ato de desespero, comecei a arrumar minhas coisas.
Eu não tinha outra opção.
Não conseguiria pagar o aluguel. Não tinha emprego. Meu pai havia desaparecido e levado o pouco dinheiro que eu tinha.
E eu sabia muito bem o que acontecia com quem devia naquele morro e não pagava.
Eu já tinha visto coisas demais.
Coisas que preferia esquecer.
Gente sendo ameaçada.
Pessoas desaparecendo.
Homens sendo cobrados por dívidas que nunca conseguiam quitar.
E, quando a cobrança chegava ao limite, ninguém perguntava se a pessoa tinha família ou se estava passando por dificuldades.
Dívida era dívida.
E eu não queria ser a próxima.
Peguei uma mochila velha e comecei a colocar algumas roupas dentro.
Não podia levar muita coisa.
Quanto menos carregasse, mais fácil seria fugir.
Separei algumas blusas, uma calça, roupas íntimas e um casaco.
Depois fiquei alguns segundos olhando para o quarto.
Aquele lugar tinha sido minha casa durante toda a minha vida.
Ali estavam minhas lembranças.
Minha infância.
Minha adolescência.
Os poucos momentos bons que tive com meu pai.
Mas agora eu precisava deixar tudo para trás.
Abri uma gaveta e encontrei uma fotografia antiga.
Minha mãe.
Peguei a foto com as mãos trêmulas.
Fazia anos que eu não olhava para aquela imagem daquele jeito.
Ela estava sorrindo.
Era estranho pensar que aquela mulher tinha sido capaz de me abandonar.
Eu não conseguia entender como uma mãe conseguia simplesmente ir embora e deixar a própria filha para trás.
Apertei a fotografia contra o peito.
As lágrimas começaram a cair.
— Seria tudo mais fácil se a senhora estivesse aqui.
Minha voz saiu quebrada.
Passei os dedos pelo rosto, tentando enxugar as lágrimas, mas elas continuavam descendo.
Eu queria minha mãe.
Queria alguém para me dizer o que fazer.
Queria alguém para me abraçar e dizer que tudo ficaria bem.
Mas eu estava sozinha.
Completamente sozinha.
Coloquei a fotografia dentro da mochila e procurei por outra coisa que pudesse levar comigo.
Foi quando encontrei o colar dela.
Era uma das poucas coisas que minha mãe tinha deixado para trás.
Segurei o colar na palma da mão.
Por alguns segundos, pensei em deixá-lo.
Mas não consegui.
Coloquei junto com a fotografia.
Aquela seria a única parte dela que eu levaria comigo.
Fechei a mochila e olhei para o relógio.
22 horas.
Yuri ainda não tinha aparecido.
Talvez ele não viesse naquela noite.
Talvez eu tivesse sorte.
Ou talvez fosse apenas uma questão de tempo.
Olhei pela janela do quarto.
O movimento do morro estava menor.
Algumas casas ainda tinham as luzes acesas, mas as ruas estavam muito mais vazias.
Era o momento perfeito.
Se eu fosse sair, precisava ser agora.
Durante o dia, seria impossível.
Havia vapores espalhados pelas entradas e pelos principais pontos do morro. Àquela hora, muitos provavelmente estavam bebendo, outros estavam dentro da boca e alguns já tinham ido para o baile.
Talvez eu conseguisse passar despercebida.
Eu ainda não fazia ideia para onde iria.
Não tinha dinheiro.
Não tinha emprego.
Não tinha ninguém esperando por mim.
Mas qualquer lugar seria melhor do que ficar ali esperando alguém aparecer para cobrar uma dívida que não era minha.
Peguei a mochila.
Respirei fundo.
Eu precisava ser corajosa.
Entrei no banheiro e tomei um banho rápido.
A água quente escorreu pelo meu rosto, misturando-se às lágrimas.
Eu tentava pensar em alguma solução.
Talvez pudesse procurar a Rafaela.
Talvez ela pudesse me ajudar.
Talvez eu pudesse dormir na casa de alguém.
Depois eu pensaria no resto.
Primeiro precisava sair.
Desliguei o chuveiro, me enrolei em uma toalha e saí do banheiro.
Fui até o quarto.
Estava prestes a colocar a roupa quando ouvi um barulho.
A porta se abriu de repente.
Levei um susto tão grande que quase gritei.
— Não tá escutando a gente bater, não, porra?
Era Yuri.
Ele estava armado e acompanhado por mais alguns vapores.
Meu coração disparou.
Instintivamente, puxei a toalha contra o corpo.
— Eu estava no banho.
Yuri me olhou de cima a baixo.
Um sorriso apareceu no rosto dele.
Eu imediatamente me senti desconfortável.
Desviei o olhar.
Ele entrou no quarto.
— Mais dois caras vieram cobrar seu pai.
Meu coração afundou.
— O quê?
— Ameaçaram invadir o morro.
Ele fez uma pausa.
— Fael não gostou nada disso.
Meu corpo ficou imóvel.
O nome dele sozinho já era suficiente para me deixar com medo.
— Nada mesmo.
Yuri continuou:
— Teu pai tem uma dívida grande no morro.
Franzi a testa.
— Dívida no morro?
Eu não conseguia entender.
— Achei que era só os aluguéis e aquelas dívidas com aqueles caras.
Os vapores começaram a rir.
— Tu não sabe de nada, né?
Yuri balançou a cabeça.
— Teu pai é o maior drogado que existe. Deve dinheiro em cada beco desse morro.
Meu peito apertou.
— Não.
— Tu acha o quê? Que ele vive como vive só de bebida?
Não respondi.
Eu sabia que meu pai usava drogas.
Mas não imaginava que a situação tivesse chegado àquele ponto.
— O total da dívida do velho é oito mil reais.
Senti o chão desaparecer sob meus pés.
— Oito mil?
— Oito mil.
Minha voz tremia.
— Eu não tenho essa grana.
Yuri deu de ombros.
— Problema teu.
— Eu não tenho como pagar.
Ele se aproximou.
— A ordem é clara.
Olhei para ele.
— Tu paga e vaza do morro.
Ele fez uma pausa.
— Ou tu roda.
Meu corpo inteiro começou a tremer.
— Eu não tenho como assumir a dívida do meu pai.
Minha voz saiu quase como um pedido.
— Ele foi embora. Levou até o dinheiro que eu tinha para pagar o aluguel.
Yuri me encarou.
— Tu tá de sacanagem com a minha cara?
— Não.
Ele começou a andar pelo quarto.
— Então cadê o dinheiro?
— Eu não tenho.
Foi quando ele tropeçou na mochila que estava no chão.
Yuri olhou para baixo.
Depois olhou para mim.
— O que é isso?
Meu coração parou.
Ele apontou para a mochila.
— Uma mala?
Fiquei em silêncio.
Yuri olhou para um dos vapores.
— Abre isso aí.
O homem se abaixou e abriu a mochila.
Começou a mexer nas minhas roupas.
Meu desespero aumentou.
— Não mexe nisso!
Ele ignorou.
Depois olhou para Yuri.
— Tem roupa.
Yuri voltou o olhar para mim.
Um sorriso lento apareceu no rosto dele.
— Ela tá fugindo, meu.
Meu sangue gelou.
— Não...
— Tava querendo fugir, é, Juliana?
Balancei a cabeça.
— Não é isso.
— Querendo passar a gente para trás?
— Eu só...
Minha voz falhou.
Yuri deu um passo na minha direção.
Eu recuei até sentir minhas costas baterem contra a parede.
— Ia vazar sem pagar a porra da dívida?
— Eu não estou tentando passar ninguém para trás.
— Então por que está com uma mochila pronta?
Não consegui responder.
Porque não havia resposta.
Ele tinha descoberto.
Eu realmente estava tentando fugir.
E agora não sabia o que seria pior: ficar ali ou tentar correr.
Yuri pegou a mochila e jogou sobre a cama.
— Vamos ver o que o chefe vai dizer disso.
Engoli seco.
O nome de Fael parecia pesar ainda mais naquele momento.
Eu não sabia o que ele faria quando descobrisse.
Mas, pela expressão de Yuri, eu tinha certeza de uma coisa.
Minha tentativa de fugir tinha acabado.
E talvez eu tivesse acabado de tornar tudo muito pior.
