Capítulo 6 6
### FAEL NARRANDO
— Manda o Yago e o Mateus irem cobrar lá a filha do velho — ordenei.
Filipe me olhou por alguns segundos.
— Vai cobrar o aluguel atrasado?
— Não.
Minha resposta saiu seca.
— Apenas a dívida do velho.
Ele franziu a testa.
— Por que mudou de ideia?
Encostei-me na cadeira e passei a mão pelo rosto.
— Porque você já viu o quanto de gente veio cobrar esse velho aqui em um único dia?
Filipe ficou em silêncio.
— Para começar a juntar gente para invadir aqui atrás dessa garota é rapidinho. Se cada credor resolver entrar no morro para procurar Thiago, vai virar uma merda.
— Você acha que eles sobem para matar a guria?
Olhei para ele.
— Tenho certeza.
Filipe respirou fundo.
— Se, para mim, ele deve oito mil, imagina para esses caras.
— Então o que você quer fazer?
— Cobra a dívida e manda a garota vazar. Quero esse problema fora daqui.
Filipe me encarou.
— Então mando eles matarem ela?
— Não foi isso que eu falei.
Peguei o rádio.
— Manda cobrar a dívida. Se ela não tiver o dinheiro, passa o rádio para mim.
— E aí?
— Eu decido o que fazer.
Filipe assentiu.
— Pode crer.
Ele fez exatamente o que mandei.
Pouco depois, sentou ao meu lado.
Eu estava em silêncio quando o rádio dele tocou.
— O chefe tá aí?
Filipe pegou o aparelho.
— Tô.
— Vou passar para ele.
Ele me entregou o rádio.
— Fala aí.
A voz de Yuri veio do outro lado.
— Chefe, a mina diz que não tem o dinheiro.
Fechei os olhos por um instante.
— E?
— Ela estava com a mala pronta para fugir.
Olhei para Filipe.
Ele também tinha ouvido.
— Como é?
— A gente pegou ela tentando vazar.
Minha paciência acabou.
— Passa a bala.
Filipe me encarou.
— Fael...
Ignorei.
— Não quero nem saber se não tem meu dinheiro. Passa a bala nela.
Do outro lado, Yuri ficou em silêncio por alguns segundos.
Então falou:
— A mina tá aqui chorando, implorando pela vida.
Passei a mão pelo rosto.
Alguma coisa naquela informação me incomodou.
Não deveria.
Ela devia.
Não tinha dinheiro.
Tentou fugir.
Era simples.
Mas, mesmo assim, não consegui simplesmente ficar sentado.
— Deixa que eu desço e resolvo isso.
Desliguei o rádio.
Filipe me encarou.
— Vai matar a guria?
— Vou.
Levantei.
— Quero problema nenhum. Já veio meio mundo cobrar esse velho. Não quero invasão no meu morro.
Filipe ficou alguns segundos em silêncio.
— E o dinheiro?
Olhei para ele.
— Que se dane essa porcaria de dinheiro.
Ele arqueou a sobrancelha.
— Não quero mais.
Peguei minha arma e a coloquei na cintura.
— Vou resolver essa merda de uma vez.
Filipe se levantou.
— Vou contigo.
Assenti.
Descemos juntos.
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A casa de Juliana ficava em uma das partes mais simples da favela.
Eu conhecia aquele barraco.
Thiago morava ali havia muitos anos.
Mas, por algum motivo, nunca tinha reparado na filha dele.
Nunca tinha prestado atenção nela.
Até aquele dia.
Quando chegamos, encontrei Yago, Mateus e Yuri esperando.
— Cadê eles?
— Aqui no quarto dela — Mateus respondeu.
Minha mão foi até a cintura por instinto.
Eu estava decidido.
Não queria ouvir explicações.
Não queria desculpas.
Não queria saber o motivo.
Só queria resolver aquela situação.
Entrei no quarto.
E parei.
A garota estava encolhida no canto da parede.
Tremia.
Estava enrolada apenas em uma toalha e chorava em silêncio.
— Olha aí — Yuri falou.
Apontou para o chão.
— A mala dela.
Mateus pegou a mochila e jogou as roupas sobre o chão.
Juliana me olhou.
Nossos olhos se encontraram pela primeira vez.
Ela desviou rapidamente.
Parecia assustada.
Muito assustada.
— Diz que o pai fugiu e levou a grana que ela tinha — Mateus explicou.
Yuri completou:
— Mas não seria suficiente para pagar a dívida.
Juliana respirou fundo.
— Eu não tenho esse dinheiro.
A voz dela tremia.
— Eu juro.
As lágrimas escorriam pelo rosto.
— Eu não ia fugir por mal. Só estava com medo.
Olhei para os três homens.
— Sai todo mundo.
Eles me encararam.
— Agora.
Yuri foi o primeiro a se mexer.
— Não estão vendo que a menina está quase pelada?
Meu olhar voltou para Juliana por um instante.
Ela apertou a toalha contra o corpo.
— Todo mundo para fora.
Filipe, que tinha acabado de chegar à porta, me encarou.
— Fael...
— Você também.
Ele assentiu.
Um por um, eles saíram.
Fui até a porta e a fechei.
O quarto ficou em silêncio.
Olhei novamente para Juliana.
Ela estava com os olhos cheios de lágrimas.
Não sabia onde colocar as mãos.
Parecia querer desaparecer.
— Eu não sei onde ele está — ela falou.
Sua voz saiu baixa.
— Seu pai é o maior filho da puta que existe nesse morro.
Ela abaixou os olhos.
— Fugiu e deixou a própria filha para ser cobrada.
Aproximei-me.
Ela recuou até encostar ainda mais na parede.
— Agora me diz, garota...
Parei diante dela.
— Eu vou ter que ficar no prejuízo porque o teu pai é um velho desgraçado?
Ela balançou a cabeça.
— Eu não sei como posso pagar.
A voz dela falhou.
— Eu não tenho dinheiro.
Fiquei encarando aquela garota.
Ela não parecia estar mentindo.
Mas eu também já tinha ouvido muitas desculpas na minha vida.
Aproximei-me mais.
Segurei seu rosto, fazendo com que levantasse os olhos para mim.
Ela engoliu seco.
As lágrimas continuavam descendo.
— Eu vou ficar na porra do prejuízo?
Ela não respondeu.
Apenas me encarou.
E, pela primeira vez, eu consegui enxergar de verdade aqueles olhos assustados.
Não havia arrogância.
Não havia desafio.
Só medo.
Um medo que parecia ser maior do que qualquer dívida.
E, naquele instante, alguma coisa dentro de mim mudou.
Porque eu tinha entrado naquele quarto decidido a acabar com tudo.
Mas, olhando para Juliana, percebi que talvez a situação não fosse tão simples quanto eu imaginava.
