Capítulo 7 7
JULIANA NARRANDO
Ele me encarava de um jeito estranho.
Não era apenas raiva.
Havia alguma coisa naquele olhar que eu não conseguia entender, e isso me dava medo. Muito medo.
Meu coração batia tão forte que parecia querer sair do peito.
Eu ainda sentia os dedos dele segurando meu queixo com força, obrigando-me a manter os olhos nos dele.
— Eu te fiz uma pergunta — ele falou grosso.
Minha respiração ficou presa.
— Eu vou ficar no prejuízo?
Ele repetiu a pergunta pela terceira ou quarta vez.
Eu não sabia mais o que responder.
Qualquer palavra parecia capaz de piorar aquela situação.
— Desculpa... mas eu não tenho o dinheiro — falei quase sem voz, segurando o choro. — Eu não tenho como te pagar.
Por alguns segundos, ele continuou me encarando.
Então soltou meu rosto e se afastou.
Levei a mão ao queixo, sentindo o lugar onde seus dedos tinham apertado.
— Não tem?
A voz dele parecia carregada de nervosismo.
Ele passou a mão pelo rosto e respirou fundo.
— Ok. Você não tem o dinheiro.
Parecia estar tentando convencer a si mesmo daquilo.
— Não — respondi rapidamente.
No mesmo instante, percebi que talvez não devesse ter respondido.
Ele virou o rosto na minha direção.
— Eu já entendi!
A voz dele ecoou pelo quarto.
Me encolhi.
As lágrimas começaram a cair novamente.
Eu nunca tinha estado tão perto de alguém que me causasse tanto medo.
— É muito dinheiro — tentei explicar. — Mesmo se eu trabalhar o ano todo, não vou conseguir ganhar essa quantia.
Ele ficou alguns segundos em silêncio.
Então me olhou.
— Se você vender droga, sim.
Arregalei os olhos.
— O quê?
— Claro que não vai ser logo que você vai ganhar muito dinheiro — ele continuou, como se estivesse falando de algo completamente normal. — Mas a comissão é boa. Aos poucos você vai vendendo mais e mais. Vai conseguir ganhar bastante dinheiro para se sustentar e me pagar.
Eu o encarei sem acreditar.
Aquilo não podia estar acontecendo.
— Você tá louco?
As palavras escaparam antes que eu pudesse pensar.
O olhar dele mudou imediatamente.
— Eu estou o quê?
Ele se aproximou rapidamente.
Meu corpo reagiu antes mesmo que eu conseguisse pensar.
Tentei me afastar.
Mas minhas costas bateram novamente contra a parede.
Não havia para onde fugir.
— Desculpa — murmurei.
Minha voz era quase inaudível.
Ele ficou parado diante de mim.
— Tinha duas condições.
A mão dele foi até a cintura, onde estava a arma.
— Ou você me paga...
Ele fez uma pausa.
— Ou você roda.
Meu coração pareceu parar.
— Por favor, não.
Minha voz saiu desesperada.
— Eu não tenho como pagar, mas posso arrumar um emprego.
Ele não respondeu.
— Eu posso trabalhar. Todo dinheiro que eu ganhar eu pago para você.
Eu estava tentando encontrar qualquer solução.
Qualquer coisa que pudesse me manter viva.
— Você acha que eu sou Casas Bahia que parcela dívida em doze vezes?
Ele ergueu a arma.
Meu corpo inteiro começou a tremer.
— Aqui é morro, porra.
Ele apontou a arma na minha direção.
— Se tu não paga, tu roda.
As lágrimas desciam sem parar.
— Mas a dívida não é minha.
Minha voz falhou.
— Eu não fiz essa dívida.
Ele continuou me encarando.
— Não fui eu que fiz.
Respirei fundo, tentando controlar o desespero.
— Não é justo.
A arma foi levantada.
Parou diante da minha cabeça.
Meu sangue gelou.
O metal parecia ainda mais assustador tão perto.
Ele engatilhou.
Fechei os olhos imediatamente.
Não queria ver.
Não queria saber quando aconteceria.
Só queria que aquilo acabasse.
— Por favor...
As lágrimas molharam meu rosto.
— Por favor, não.
Foi a última coisa que consegui dizer.
Então senti o movimento.
Ouvi o som seco do gatilho.
E, no segundo seguinte...
O tiro.
Meu corpo inteiro estremeceu.
Esperei sentir a dor.
Esperei cair.
Esperei minha vida acabar.
Mas nada aconteceu.
Abri os olhos devagar.
Ele ainda estava parado diante de mim.
Olhei para ele, completamente sem entender.
Depois olhei ao redor.
Eu estava viva.
Meu peito subia e descia rapidamente.
Minhas pernas tremiam tanto que eu mal conseguia me manter em pé.
Eu não conseguia parar de tremer.
Ele havia atirado.
Mas não em mim.
Por alguns segundos, nenhum de nós disse nada.
Eu apenas o encarava, tentando entender o que tinha acabado de acontecer.
Foi então que ele falou:
— Você vai pagar sua dívida trabalhando para mim.
Minha respiração ficou presa.
— Trabalhando para você?
Ele assentiu.
Ainda não conseguia acreditar que estava viva.
— Vendendo droga?
A pergunta saiu assustada.
Ele negou com a cabeça.
Meu coração voltou a acelerar.
A arma ainda estava na mão dele.
Ele a levantou lentamente e passou o cano pelo meu rosto.
Prendi a respiração.
Depois desceu pelo meu pescoço.
Eu fiquei completamente imóvel.
Ele continuou o movimento até meu peito.
Meu corpo inteiro estava rígido.
Eu não sabia o que ele pretendia.
Não sabia por que tinha mudado de ideia.
Não sabia o que significava trabalhar para ele.
Só sabia que aquilo era melhor do que morrer.
Mas, naquele momento, eu também percebi que talvez minha vida tivesse acabado de mudar para sempre.
Ele afastou a arma.
— Esteja na minha casa amanhã de manhã.
Engoli seco.
— Às sete horas.
Ele me encarou.
— Sem atraso.
Assenti rapidamente.
Ainda não conseguia falar.
Ele guardou a arma, mas continuou me olhando.
— Vamos ver se você vai saber pagar essa dívida direitinho.
Um sorriso de canto apareceu em seu rosto.
Aquele sorriso me deu ainda mais medo.
Então ele se afastou.
Eu permaneci encostada na parede, completamente paralisada.
Só consegui respirar de verdade quando ouvi a porta se fechar.
Levei a mão ao peito.
Meu coração ainda estava disparado.
Olhei para a porta por onde ele tinha acabado de sair.
Eu não sabia o que me esperava no dia seguinte.
Não sabia qual seria o trabalho que ele queria me dar.
Não sabia por que tinha decidido me poupar.
E, principalmente, não sabia como seria estar sozinha na casa de Fael às sete da manhã.
Mas uma coisa eu sabia.
Minha dívida ainda existia.
E agora eu teria que pagá-la trabalhando para o homem que eu mais temia naquele morro.
