Capítulo 9 9

FAEL NARRANDO

— É sério que a garota está trabalhando lá mesmo? — Filipe pergunta, me olhando com uma expressão desconfiada.

— Ela tem que me pagar — respondo, sentando na minha cadeira.

Filipe balança a cabeça.

— Caralho, Fael. Estou achando tudo estranho.

— Não tem nada de estranho.

Pego o rádio e deixo sobre a mesa.

— Fala para o Guize me dar um relatório sobre a vida dela.

Filipe franze a testa.

— Relatório?

— Tenho que saber quem estou colocando dentro da minha casa.

Ele solta uma risada.

— Tu está doidão.

— Estou nada. Fica de boa aí.

Ele continua me encarando por alguns segundos, mas acaba deixando o assunto de lado.

Já era quase meio-dia quando voltei para casa.

Assim que entrei, fui direto para a cozinha e encontrei dona Zélia mexendo nas panelas.

— Cadê a garota?

Ela nem se dá ao trabalho de olhar para mim.

— Foi ao mercado. Pedi algumas coisas para ela buscar.

— Depois pede para ela arrumar meu quarto.

Dona Zélia finalmente olha para mim.

— Ela já arrumou.

— Mas está bagunçado de novo.

— Porque você bagunçou.

— Manda ela lá. Para isso que ela é paga.

A velha me olha torto.

— Fael, o que você quer com essa menina?

Fico alguns segundos encarando dona Zélia.

Aquela mulher já estava comigo há anos e, sinceramente, às vezes parecia que era a única pessoa naquele morro que não tinha medo de me enfrentar.

— Fica de boa.

— Eu estou de boa.

— Só diz que eu mandei ela subir. Manda arrumar logo quando chegar.

Faço uma expressão séria.

— Tenho pavor de quarto bagunçado.

Dona Zélia revira os olhos.

— Pode deixar, menino.

Subo para o quarto.

Assim que entro, olho ao redor.

Tudo estava perfeitamente arrumado.

Eu tinha acabado de chegar e já estava pensando em uma forma de justificar minha ordem.

Olho para a cama.

Puxo algumas roupas do armário e jogo no chão.

Derrubo o abajur de propósito.

Desarrumo a cama.

Olho para o resultado.

Agora sim parecia que alguém tinha passado por ali.

Entro no banheiro, tiro a roupa e entro no banho.

A água cai sobre minha cabeça enquanto fecho os olhos.

E, sem que eu queira, a imagem de Juliana aparece na minha mente.

Abro os olhos imediatamente.

— Merda.

Balanço a cabeça, tentando tirar aquela imagem dos pensamentos.

A garota era bonita.

Muito bonita.

E diferente das outras mulheres que eu conhecia no morro.

Talvez fosse justamente isso que estava me incomodando.

Ela poderia ter feito uma proposta diferente.

Poderia ter tentado negociar comigo de outras formas.

Mas não.

Aceitou trabalhar.

Nem sequer tentou se oferecer para mim.

Se fosse outra mulher, talvez tivesse aproveitado a situação.

Teria tentado pagar a dívida de outra maneira e, provavelmente, ainda tentaria tirar alguma vantagem.

Juliana não.

Ela simplesmente aceitou trabalhar.

Aquilo era estranho.

Muito estranho.

Escuto passos vindo do quarto.

Desligo o chuveiro.

Pego a toalha, me seco rapidamente e saio do banheiro.

Quando abro a porta, encontro Juliana arrumando a cama.

Ela estava resmungando alguma coisa enquanto ajeitava os lençóis.

Até que me vê.

— Meu Deus!

Ela arregala os olhos.

Imediatamente fecha-os e vira de costas.

— Eu achei que o quarto estava vazio!

Quase rio da situação.

— Calma aí.

Ela continua de costas.

— O que você está fazendo no meu quarto?

Faço questão de usar um tom sério.

Ela parece ficar ainda mais constrangida.

— Dona Zélia falou que você pediu para eu arrumar porque estava bagunçado.

Olho para a cama.

Depois para as roupas espalhadas.

— Dona Zélia deve estar louca.

— Eu sempre falei que aquela velha era maluca.

Juliana respira fundo.

— Maluco aqui é você.

Viro o rosto para ela.

— O quê?

— Você pode vestir uma roupa?

Ela fala com raiva, mas continua sem olhar para mim.

— Calma aí, garota.

Pego uma cueca e um calção.

Visto rapidamente.

— Pode virar.

Ela se vira.

Assim que me olha, percebo a expressão de irritação em seu rosto.

— Você deveria ter medo de fuzilar o dono do morro.

Pego meu boné e coloco na cabeça.

Ela me encara.

— Seu aproveitador.

Sorrio de canto.

A garota tinha coragem.

— Termina de limpar.

Ela olha ao redor.

— Você fez toda essa bagunça de propósito, não fez?

Cruzo os braços.

— De propósito para quê?

— Para me fazer entrar aqui?

— Para você me ver pelado?

Ela arregala os olhos.

— Você só pode estar drogado.

— Vai dizer que isso não era seu sonho?

Ela bufa.

— Você vai me deixar fazer o meu trabalho ou não?

— E eu estou te atrapalhando, por acaso?

Ela fica em silêncio.

— Não estou te agarrando.

Dou um passo para trás.

— A não ser que você queira.

Ela vem para cima de mim, claramente querendo me bater.

Seguro suas mãos antes que ela consiga.

— Você é louco!

— Abaixa a marra.

Seguro seus braços, mas sem apertar.

— Eu não quero te machucar.

Ela me encara com raiva.

— Covarde.

Solto uma risada curta.

— Posso soltar?

— Me solta.

Largo suas mãos imediatamente.

Ela ajeita a roupa e continua me encarando.

— Tenha um ótimo dia.

Saio do quarto, deixando-a lá.

Desço as escadas enquanto ajeito meu relógio.

Ainda estou pensando na atitude dela quando o rádio começa a tocar.

Pego o aparelho.

— O que foi?

A voz de Mateus vem do outro lado.

— Tem uns comédia aí atrás da Juliana.

Meu rosto muda.

— O quê?

— Um deles entrou no morro.

— Quem deixou, caralho?

— Passou pela nossa visão.

Paro de andar.

— E vocês deixaram?

— Não sabíamos quem era.

Saio imediatamente de casa e sigo direto para a boca.

Quando chego, encontro Mateus e alguns vapores.

— Algum sinal?

— Não.

Olho para a entrada.

— Não deve mais estar no morro.

Filipe aparece ao meu lado.

— Viu a movimentação e vazou.

— E aqueles comédias que estavam na entrada?

— Vazaram também — Mateus responde.

Fico alguns segundos pensando.

Aquilo não estava certo.

Se aqueles caras estavam procurando Juliana, era apenas uma questão de tempo até tentarem novamente.

— Quero todo mundo de olho.

Olho para Mateus.

— Principalmente na Juliana. Entendeu?

— Sim, chefe.

Ele sai.

Fico olhando para a movimentação do morro.

Filipe permanece ao meu lado.

— Qual é?

Não respondo.

— Você está preocupado demais com essa garota.

Continuo em silêncio.

— É por causa do dinheiro mesmo?

Olho para ele.

— Não enche, Filipe.

Ele levanta as mãos.

— Só estou perguntando.

— Você sabe muito bem que uma invasão aqui no morro ia chamar atenção da polícia.

Cruzo os braços.

— E a gente não quer isso.

Filipe me encara por alguns segundos.

— Tô ligado.

Volto a olhar para a entrada do morro.

Eu precisava manter aquela situação sob controle.

Não podia deixar ninguém invadir.

Não podia deixar ninguém trazer polícia para dentro.

E, principalmente, não podia deixar que transformassem Juliana em motivo para uma guerra dentro do meu território.

Capítulo Anterior
Próximo Capítulo