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No segundo dia, o silêncio do Rafael ganhou método.
Ele acordou antes de mim — coisa que nunca acontecia — e quando eu cheguei na cozinha ele já tinha tomado café e estava de chave na mão.
— Reunião cedo — ele disse, sem me olhar direito. — Não me espera pra jantar.
— Rafael.
— Tô atrasado, amor.
Amor. Ele me chamava de amor com a mesma facilidade com que respirava, e pela primeira vez em três anos a palavra me soou como uma porta se fechando. Amor era o que ele dizia pra não dizer mais nada. Amor era anestesia.
Ele saiu. A porta bateu. E eu fiquei na cozinha com duas xícaras, uma usada e uma vazia, e comecei a entender uma coisa que levaria mais um dia inteiro pra tomar forma.
O silêncio dele não era ausência de resposta.
O silêncio dele era a resposta. Ele só estava torcendo pra que eu não percebesse.
Naquele dia, no escritório, eu não consegui fechar uma planilha sequer. Sônia, minha sócia, me trouxe um café sem eu pedir e sentou na ponta da minha mesa.
— Você tá com cara de quem não dormiu.
— Tô bem.
— Helena. — Ela cruzou os braços. — A gente abriu esse escritório juntas há cinco anos. Eu sei distinguir a sua cara de "tô estressada com o balanço" da sua cara de "alguma coisa quebrou em casa". Essa aí é a segunda.
Eu contei. Contei do almoço, do "é ela ou eu", do garfo, das duas noites de silêncio.
Sônia me ouviu até o fim sem interromper. Quando eu terminei, ela não disse "que absurdo", não disse "larga ele", não disse "dá um tempo, vai passar". Ela só me olhou e perguntou:
— E você tá esperando o quê, exatamente?
— Que ele me escolha — eu falei. E ouvir a frase saindo da minha própria boca me deu vergonha.
— Tá. — Sônia balançou a cabeça devagar. — E você já parou pra pensar que esperar que ele escolha já é deixar ele decidir o valor que você tem?
Eu não respondi. Mas a pergunta entrou e ficou.
Naquela noite, sozinha de novo — porque ele de fato não voltou pra jantar —, eu fiz uma coisa que nunca tinha feito em três anos de casamento. Eu sentei na mesa da cozinha, peguei um caderno, e comecei a escrever.
Não sei explicar direito o impulso. Eu acho que era a necessidade de ver no papel uma coisa que dentro de mim ainda estava embaçada. Comecei a escrever os momentos.
O Natal em que a mãe dele disse que minha farofa estava "interessante" e ele riu junto, e eu fingi que tava tudo bem.
A vez em que a Camila comentou, na frente de todo mundo, que "mulher que trabalha demais esquece de cuidar do marido", e ele não disse nada, e na volta pra casa, quando eu reclamei, ele falou "ela é assim mesmo, deixa pra lá".
A vez em que Dona Lúcia ligou às onze da noite chorando porque tinha sentido uma "dor estranha no peito", e ele saiu correndo, e quando chegou lá era azia, e ele dormiu na casa dela, e eu acordei sozinha no dia do meu aniversário.
A viagem que a gente planejou pra Fernando de Noronha, dois anos guardando dinheiro, e que ele cancelou três dias antes porque a mãe "não ia ficar bem sozinha tanto tempo". A gente perdeu metade do valor das passagens. Eu chorei no banheiro pra ele não ver, e quando saí, ele me abraçou e disse "ano que vem a gente vai, prometo". Nunca fomos.
O domingo em que eu fiz aniversário de trinta anos da minha mãe — a minha, a Dona Marlene — e marquei um almoço, e a Dona Lúcia marcou outro almoço "da família" no mesmo dia, de propósito, e o Rafael, em vez de dizer "mãe, hoje é o dia da sogra", me perguntou, baixinho, "amor, será que a gente não podia passar rápido na minha mãe antes?". A gente chegou atrasado no almoço da minha mãe. Ela fez questão de dizer que não tinha problema. Mas teve.
Eu escrevi tudo. Três anos. Página após página. A caneta corria e eu percebia, com uma vergonha que ia virando outra coisa, que eu lembrava de cada uma daquelas vezes com uma precisão assustadora — porque eu nunca tinha realmente esquecido nenhuma. Eu só tinha empilhado todas num canto da cabeça, do mesmo jeito que empilhei meus livros num canto do escritório, e fingido que não ocupavam espaço.
E quando eu olhei a lista pronta, eu percebi uma coisa que me deu um frio na barriga: não tinha uma única vez. Não tinha um único momento, em três anos, em que ele tivesse ficado do meu lado quando ficar do meu lado custasse alguma coisa pra ele.
Ele me amava nas horas baratas. Me amava quando amar não exigia escolher.
Eu fechei o caderno. Mas não rasguei a lista.
Guardei. Porque alguma coisa em mim — alguma coisa nova, que eu ainda não sabia nomear — sabia que aquela lista ia ser útil.
Eu só ainda não sabia pra quê.
