Capítulo 1 O Preço

CAPÍTULO 1 - O Preço

O cheiro de hospital gruda na roupa mesmo depois que você sai de lá. Parece que nada que você faça, consegue tirar o cheiro das suas narinas. Odeio hospitais e passei a odiar mais ainda depois do que descobrir hoje. Nada no mundo me preparou para receber este bendito diagnóstico.

Talvez por sempre ter visto a minha irmã como a minha menininha, a quem eu devo proteger a todo e a qualquer custo, até mesmo com minha própria vida, agora sinto como se a vida dela estivesse escapando das minhas mãos sem que eu possa fazer absolutamente nada, estou me sentindo uma inútil diante da situação.

Eu tava sentada naquela cadeira de plástico azul há três horas, com a minha caneca de café já frio na mão, quando a Dra. Renata entrou com a prancheta. Ela nem precisou falar. Só pelo jeito que ela me olhou eu já soube que não era vamos só observar.

— Laís, a Bruna tem uma cardiopatia congênita que evoluiu. Ela precisa de correção cirúrgica. E precisa ser agora. Nas próximas quatro semanas — ela falou, e deslizou o papel pra mim como se fosse um atestado qualquer. Ali meu mundo caiu, porque eu já sabia que o valor daquela cirurgia não se comparava ao que eu poderia ter neste momento.

Bruna. Dezesseis anos. Minha irmã que ainda dorme com a luz acesa quando tem pesadelo e que quer fazer faculdade de veterinária. Como vou explicar para uma garota cheia de sonhos, que a sua vida depende de uma cirurgia que eu sequer sei como vou fazer para pagar?

Eu encarei o orçamento. Trezentos e quarenta e sete mil reais. Hospital, equipe, UTI, tudo.

— Quanto tempo a gente tem? — perguntei. Minha voz saiu um lixo.

— O coração dela não vai esperar, Laís. Se não operar em um mês, a gente começa a correr risco de insuficiência.

Não! Eu vou lutar contra o tempo, nem que eu precise trabalhar 24 horas por dia, mas a minha irmã vai fazer essa cirurgia, mas no fundo eu sei que somente trabalhando um mês sem parar não vou conseguir esse valor, chega a ser absurdo sonhar desta maneira.

Meu pix naquele momento tinha mil oitocentos e quarenta e sete reais e trinta e dois centavos. O aluguel vencia em cinco dias.

Eu assenti, falei um obrigada que nem eu acreditei e saí. No corredor, tentei ligar pra Sofia.

— Amiga? — ela atendeu.

— Tá tudo bem — eu falei, e desliguei. Porque não tava porra nenhuma bem.

Saí do hospital correndo pro coworking onde eu fazia freela de design pra uma agência que me pagava por job. Cheguei ofegante, vinte minutos atrasada pra call.

O Ricardo tava na sala com a câmera desligada. Isso nunca é bom sinal. Porque tínhamos uma reunião por call e neste exato momento a sala inteira já deveria está preparada para o início da reunião.

— Laís, a gente precisa falar — ele começou. — A agência tá cortando custos. Seus jobs de artes pro Instagram, a gente vai internalizar. Hoje é seu último dia. Te mando o acerto proporcional até sexta, tá?

A decisão me pegou de surpresa, justo agora que eu preciso tanto de dinheiro, fazer qualquer coisa para juntar dinheiro, porque tinham que cortar gastos justamente na parte que eu trabalho? Parece que a vida se empenha em me humilhar.

Fui demitida. No mesmo dia do diagnóstico da Bruna. Em dez minutos eu perdi as duas únicas coisas que me mantinham de pé: a ilusão de que eu tinha tempo, e a ilusão de que eu tinha alguma renda.

Porque agora noa tenho esperanças de conseguir juntar sequer metade do dinheiro que preciso para prosseguir com a cirurgia da minha irmã, sinceramente não sei o que vou fazer, só sei que desistir de ao menos tentar não é uma opção neste momento.

Voltei pra casa a pé. Não tinha nem dinheiro da passagem.

Na verdade se fosse contar tinha, porém neste exato momento tenho que economizar qualquer valor, ao máximo possível, só gastar com o básico que é a nossa alimentação, o resto vamos ter que ir nos virando.

A Bruna tava no sofá, de uniforme da escola, fazendo lição de matemática. Ela levantou a cabeça e sorriu daquele jeito que só ela sorri.

— Como foi no médico? Tô liberada pra educação física?

Eu olhei pra ela. Pra menina que é tudo que me restou desde que meu pai sumiu e deixou só dívida e um sofá velho. Como vou explicar que ela precisa de algo para viver que no momento não está ao meu alcance? Não posso simplesmente virar para ela e dizer que seu coração está prestes a falhar se não tiver uma intervenção cirúrgica, isso seria cruel da minha parte.

— Por enquanto não, amor — eu disse, tentando não tremer. — Mas vai ficar tudo bem. Eu juro que vai ficar.

Era uma promessa que eu não sabia se iria cumprir e isso estava me destruindo por dentro.

Porque eu sempre cumprir com tudo que tinha lhe prometido, mas dessa vez corria o risco de ficar devendo.

Ela fez uma careta, mas voltou pro caderno. Não acreditou. Nem eu.

Por mais que eu tentasse acreditar que daria um jeito, tudo me dizia que não, as circunstâncias não eram favoráveis para isso.

Tranquei a porta do banheiro, sentei no chão frio e finalmente deixei desmoronar. Chorei sem som, com a mão na boca, pra ela não ouvir. Chorei de raiva, de medo, de ser sempre a Laís que tem que resolver tudo e que nunca pode quebrar.

Agora principalmente não posso quebrar, porque preciso encontrar uma mentira de salvar a minha irmã, não importa como e o que tenha que sacrificar.

Quando eu levantei, me olhei no espelho embaçado. Olho inchado, cabelo preso de qualquer jeito, camiseta velha.

Sem emprego. Sem dinheiro. Com uma irmã de dezesseis anos pra salvar e um orçamento de quase trezentos e cinquenta mil reais na bolsa.

Eu não tinha nenhuma saída.

Nenhuma.

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