Capítulo 2 Uma proposta indecente

CAPÍTULO 2 - UMA PROPOSTA INDECENTE

Eu acordei no chão do banheiro. Não sei como mais acabei pegando no sono aqui.

Literalmente. A Bruna tava batendo na porta. Me levantei toda dolorida, por dormir jogada.

— Laís? Você dormiu aí? Tá tudo bem?

Não estava tudo bem, porém eu não ia dizer isso para ela, pelo menos não agora, vou esperar o momento certo para contar, talvez esse momento não apareça, mas ele não será hoje.

Me levantei com a coluna travada e abri a porta como se nada tivesse acontecido.

— Tá, sim. Só tava com dor de cabeça. Fiz compressa.

Mentira péssima. Ela me olhou daquele jeito de quem sabe que eu tô mentindo mas não tem idade pra me confrontar. Também de onde arranjei uma mentira tão ruim, quem vai acreditar que eu dormir no chão do banheiro porque estava com dor de cabeça? Se ao menos tivesse dito que era uma dor de barriga, talvez soasse mais realista.

Fiz café, coloquei o pão na chapa e enquanto ela tomava café eu abri o notebook. Mandei currículo pra sete agências. Mandei mensagem pra três ex-clientes perguntando se precisavam de freela. Resposta? Nenhuma.

Porém tinha que continuar tentando porque dessa vez não era apenas a fome que nos esperava, mas poderia causar a morte da pessoa que eu mais amo nessa vida e que venho lutando para manter bem.

Às 9h47 meu celular tocou. Número desconhecido, DDD 11.

Quase não atendi. Atendi porque achei que era do hospital. E se era de lá, poderia ser uma novidade positiva sobre o caso da irmã, quem sabe a médica pode ter e enganado. Ri sem querer porque a minha cabeça já estava começando a sonhar de mais.

— Laís Nogueira? — uma voz de homem, uns 50 anos, formal demais.

Não lembro de conhecer essa voz, porém pode ser algum trabalho e isso já foi motivo suficiente para me manter pendurada na linha com a esperança gritando mais alto em meu coração.

— Sou eu.

Por favor! Senhor! Que seja um trabalho, por favor, sei que oro tão pouco, mas o senhor sabe do desejo do meu coração.

— Aqui é Dr. Henrique Alves, do escritório Alves & Marcondes. Represento a Kastro Holdings. Você tem dez minutos agora?

Meu estômago despencou. Kastro Holdings. Eu só conhecia de outdoor na Marginal e de matéria na Exame falando do CEO mais novo e mais gelado do país.

Meu coração dispara, porque uma empresa tão importante como a dele iria entrar em contato comigo? Com certeza eles são exigentes nos contratos e digamos que apesar de ter uma experiência vasta com certeza não sirvo para eles.

— Sobre o quê?

Na verdade, sequer tinha mandado currículos para eles, Justamente por saber o nível de exigência.

— Sobre uma proposta de trabalho. Bem remunerada. Que cobre integralmente o tratamento da sua irmã, Bruna Nogueira. Nós sabemos do diagnóstico dela de ontem. E da sua rescisão com a agência Solis.

Fiquei muda. Como assim eles sabiam? Mas quem falou sobre isso para eles? Se não conheço ninguém de lá.

— Como vocês sabem disso?

Porque era impossível eles terem descoberto por mim, já que estou quase caindo dura surpresa por causa desta bendita ligação.

— A Kastro tem um programa social no hospital onde sua irmã é atendida. Seu caso chegou até nós. Não é caridade, Laís. É negócio. O Sr. Kastro gostaria de te conhecer hoje, às 18h, no escritório dele na Faria Lima. É uma proposta de doze meses. O valor... — ele fez uma pausa — ...cobre a cirurgia da sua irmã três vezes.

Espera! O valor vai além do que é nescessário para a cirurgia? Que emprego é esse que vai me dá benefícios assim?

— Que tipo de trabalho paga isso por doze meses?

Porque nem não melhores sonhos receberia algo assim, ainda mais somente em um ano.

— Casamento.

Eu achei que tinha ouvido errado.

— Como?

— Casamento por contrato. Doze meses de casamento estável com o Sr. Rafael Kastro. Aparência pública, discrição total. Em troca, todo o custo da cirurgia da Bruna, mais acompanhamento, mais uma compensação mensal pra você. Contrato registrado.

Eu comecei a rir. De nervoso. De absurdo.

— Isso é trote, né? É pegadinha da Sofia?

— Não é trote. Estarei na portaria do prédio da Kastro às 17h50 para acompanhá-la. Se você não for, entendo perfeitamente. Mas se for... — e a voz dele ficou mais baixa — ...sua irmã opera semana que vem.

Ele desligou.

Fiquei olhando pro celular. Casamento. Com um CEO que eu nunca vi na vida. Doze meses. Cobre a cirurgia três vezes.

A Bruna saiu do quarto com a mochila.

— Tô indo pra escola. Você tá esquisita hoje.

— Bruna, vem cá.

Ela veio. Abracei ela tão forte que ela reclamou.

— Se alguém te oferecesse muito dinheiro pra resolver tudo... tudo mesmo... mas você tivesse que fazer uma coisa muito louca, você faria?

Ela me olhou séria, com dezesseis anos sendo mais madura que eu.

— Se fosse pra te salvar, eu faria. Mesmo que fosse muito louco.

Ela saiu. E eu fiquei sozinha na sala com o celular na mão e uma decisão que não era decisão.

Às 17h50 eu tava na Faria Lima. De calça jeans e tênis velho, porque era a única roupa limpa que eu tinha que não tava com cheiro de hospital.

Um homem de terno cinza veio até mim.

— Laís? Dr. Henrique. Vamos?

Entramos num elevador que subia rápido demais. No último andar, uma porta preta com KASTRO em dourado.

Ele abriu.

E lá dentro, de costas pra janela de São Paulo inteira, tinha um homem. Alto. Terno escuro impecável. Cabelo preto arrumado. Ele nem se virou de imediato.

— Sr. Kastro, essa é Laís Nogueira.

Ele se virou.

E quando ele me olhou, da cabeça aos pés, como quem avalia um contrato e não uma pessoa, eu entendi na hora que aquele homem não tinha vindo pra me salvar.

Ele tinha vindo pra me comprar.

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