Capítulo 4 O testamento

CAPÍTULO 4 - O TESTAMENTO

O escritório do Rafael Kastro não parecia escritório. Parecia o topo do mundo.

Tão alto que a gente tinha dificuldade de enxergar o seu final.

Vidro pra todo lado, São Paulo lá embaixo minúscula, e eu ali com minha calça jeans de brechó fazendo barulho na cadeira de couro que devia custar mais que meu aluguel de seis meses. Meu All Star tava sujo de barro da rua da minha casa. O tapete dele era tão branco que eu fiquei com vergonha de pisar.

Ele não sentou. Ficou em pé, de costas pra mim, olhando a cidade como se eu não tivesse ali. Como se eu fosse só mais uma reunião de 15 minutos na agenda dele.

— Você leu a proposta do Dr. Henrique? — ele perguntou, sem se virar.

— Li. Casamento de doze meses. Mas ele não explicou por que. Por que você precisa casar. Você pode ter qualquer mulher que você quiser sem precisar pagar.

Aí ele se virou. E me olhou como se estivesse me escaneando de novo. Dos pés à cabeça.

— Não posso.

Ele caminhou até a mesa, abriu uma gaveta com chave e tirou uma pasta velha. Não era pasta de empresa. Era papel amarelado, com elástico, com cheiro de guardado em gaveta de avô.

— Meu avô, Bernardo Kastro, fundou a Kastro Holdings há quarenta e dois anos. Começou com um caminhão velho em Guarulhos. Hoje são dezessete empresas, três mil funcionários — ele falou, seco — Quando ele morreu, há oito meses, deixou um testamento. Com uma condição que o conselho inteiro tá usando pra me ferrar.

Ele jogou uma cópia na minha frente. Xerox de cartório, com carimbo.

Eu peguei com a mão tremendo. Li em voz alta:

Cláusula 9ª: O controle acionário definitivo da Kastro Holdings só será transferido ao herdeiro Rafael Kastro mediante comprovação de doze meses ininterruptos de casamento estável, com convivência pública e notória, atestada pelo conselho fiscalizador.

— Seu avô te obrigou a casar pra herdar?

— Ele me obrigou a provar que eu consigo manter alguma coisa estável por mais de um trimestre — ele respondeu, e pela primeira vez teve um pingo de humor amargo — O conselho acha que eu sou volátil. Que eu troco de tudo. De carro, de diretoria, de mulher. Eles não confiam que eu vou manter a empresa estável.

— E você precisa provar que consegue manter um casamento?

— Exato. Doze meses. Sem escândalo. Sem divórcio. Sem matéria no Léo Dias. Casal perfeito em público. Depois dos doze meses, o controle passa 100% pra mim e o contrato acaba. Você vai embora com o dinheiro da cirurgia da sua irmã.

Era negócio. Puro. Matemático.

— Por que eu? — perguntei — Por que não uma socialite que já sabe sorrir pra foto?

— Porque socialite tem Instagram com dois milhões de seguidores e quer capa de revista. Eu preciso do oposto — ele sentou na minha frente, bem perto — Preciso de alguém que ninguém conheça. Que não queira fama. Que precise tanto de dinheiro a ponto de cumprir o contrato sem inventar moda. E que não se apaixone.

— Você acha que eu vou me apaixonar por você?

— Todas se apaixonam — ele disse, sem arrogância, só constatando — Ou acham que vão me fazer mudar. Você não. Você me olha como quem olha um caixa eletrônico que fala. Com raiva do caixa. É perfeito.

Doeu. Mas era verdade. Eu tava ali contando: trezentos mil reais. Trezentos. Que o SUS só ia chamar daqui a oito meses e ela não tem oito meses. Bruna tem dezesseis anos, usa aparelho nos dentes e dorme com luz acesa quando tem pesadelo.

— E se o conselho descobrir que é contrato?

— Não vai. Porque você vai morar na minha cobertura no Itaim. Vai aparecer comigo em três eventos por mês. Vai usar aliança de verdade. Vai aprender a sorrir quando eu encostar a mão nas suas costas. E vai assinar um NDA que se você contar, me deve o dobro. Seiscentos mil de multa.

— É só performance?

— É só performance. Doze meses de performance e sua irmã vive.

Silêncio. Só o ar-condicionado e meu coração batendo no ouvido.

— Quando começa?

— Amanhã. Se você concordar hoje com a parte do testamento, amanhã eu já transfiro 50% direto pro Hospital Sírio. Cento e cinquenta mil. Pra garantir a vaga da Bruna na cirurgia.

Meu estômago virou. Ele sabia onde me pegar.

— E o resto das regras?

Ele pegou outra pasta. Mais fina. Preta. De couro. Com fecho dourado.

— Isso é no próximo passo. Mas já te adianto: tem uma cláusula que não é negociável. Nem por todo dinheiro da Kastro.

Ele deslizou a pasta até mim, mas não abriu. Deixou a mão dele em cima.

— Posso ver?

— Só assina primeiro que você concorda com a parte do testamento. A cláusula você vê depois.

Eu olhei pra cidade lá embaixo. Pra pasta amarelada. Pra pasta preta fechada.

Doze meses. Morar numa cobertura com um homem que me chama de caixa eletrônico. Fingir ser esposa de CEO. Em troca, minha irmã viva.

— Me dá a caneta.

Ele me deu a Montblanc. Nossa mão se encostou. A dele gelada, a minha suando.

Eu assinei a primeira folha. Só o aceite de ciência do testamento. Não o contrato completo ainda.

Laís Nogueira, 24 anos, designer falida, concordando em casar por causa de um morto que eu nem conheci, por trezentos mil reais.

— Bem-vinda à Kastro Holdings, Laís — ele disse, guardando a pasta amarelada.

E aí, sem me perguntar, ele abriu a pasta preta.

Confesso que estava com medo de olhar o que tinha nela, talvez esses papéis fossem mudar as nossas vidas para sempre.

Na primeira página, em negrito, sublinhada duas vezes, uma linha só.

Que loucura é essa?

Eu só devo está lendo algumas coisa errada, talvez o meu nervosismo tenha me feito ver coisas demais.

Eu li. E senti o sangue sumir.

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