Capítulo 5 A cláusula

CAPÍTULO 5 — A CLÁUSULA

A linha em negrito não saía da minha cabeça.

CLÁUSULA 3ª - A CONTRATADA se compromete a não engravidar durante a vigência deste contrato, por qualquer meio, sob pena de rescisão imediata por justa causa e devolução integral dos valores pagos.

Li três vezes. Na terceira, minha voz saiu.

— Que porra é essa?

Rafael não se abalou. Continuou com a mão em cima da pasta, me olhando como se eu tivesse lido a previsão do tempo.

— Linguagem contratual.

— Padrão onde? — empurrei a pasta de volta — Você tá me proibindo de engravidar? Como se eu fosse engravidar sozinha?

— Não é sobre como. É sobre se.

— E por que tá aqui? A gente nem vai transar. Você mesmo falou. Quarto separado. Performance. Então por que colocar isso?

Pela primeira vez, o rosto dele mudou de verdade. Não foi raiva. Foi uma coisa fechada, dura, como se eu tivesse apertado um botão que não devia.

— Porque faz diferença. E não é negociável.

— Tudo é negociável. Trezentos mil não é negociável?

— Essa cláusula, sim. É não negociável.

Uma palavra. Seca.

Levantei da cadeira. Fui até a janela, de costas pra ele. São Paulo lá embaixo, formiguinha, sem saber que minha vida tava sendo decidida numa sala com tapete branco.

— Me explica. Se você quer que eu seja sua esposa perfeita por doze meses, você tem que me explicar essa parte.

Silêncio.

— Rafael.

— Não.

— Não o quê?

— Não vou explicar. Você assina concordando ou não assina.

Virei pra ele. Ele tava de pé também agora. Alto, de terno escuro, gravata alinhada, com expressão de que aquela conversa tinha acabado.

— Você só joga contrato na minha cara e fala assina?

— Já te expliquei o testamento do Bernardo. O resto são regras — ele abriu a pasta na segunda página e listou, como PowerPoint — Regra um: aparência de casal perfeito em público. Sorrir quando eu sorrir. Segurar minha mão quando eu estender. Beijo no rosto, nunca na boca, a menos que a imprensa esteja perto. Regra dois: discrição total. Ninguém sabe que é contrato. Nem sua amiga Sofia. Nem minha avó Dona Corina. Ninguém. Regra três: moradia na cobertura do Itaim durante os doze meses. Quarto separado, banheiro separado. Regra quatro: três eventos por mês obrigatórios, roupa aprovada pela assessoria. Regra cinco: nada de entrevista, nada de post sem aprovação do jurídico. Regra seis: a cláusula três.

— Que você não explica.

— Que eu não explico.

— E se eu quebrar?

— Um, dois, quatro, cinco: multa. Três e seis: você perde tudo. O dinheiro já transferido tem que ser devolvido. A vaga da sua irmã no hospital é cancelada. E eu entro com processo.

Ele falou "sua irmã" e eu senti um soco no estômago.

— Você tá me chantageando com a Bruna.

— Tô te mostrando o que tá em jogo. Se eu não cumprir doze meses de casamento estável, perco a empresa que meu avô construiu com um caminhão velho. A Kastro inteira vai pra mão do sócio dele. Eu perco tudo também.

— Quem é o sócio?

Ele fechou a pasta seco.

— Não vem ao caso agora. Isso é capítulo 101 na sua bíblia. Foca aqui.

Voltei pra cadeira. Minha perna tremia. Olhei pra cláusula de novo. Aquela linha gritava.

"Não engravidar por qualquer meio."

Pensei na Bruna. Nos trezentos mil. Nos quinhentos mil no total que ele tinha falado. Trezentos pro hospital, duzentos pra eu recomeçar. Vinte e cinco mil por mês? Não, duzentos dividido por doze dá dezesseis. Ainda assim, nunca vi dezesseis mil na conta.

— Se eu assinar, os cento e cinquenta mil já vão amanhã pro Sírio?

— Amanhã às nove. Comprovante no seu e-mail.

— E os outros cento e cinquenta?

— Depois da cirurgia bem-sucedida. Mais os duzentos do contrato em doze parcelas.

Quinhentos mil. Sobre mim. Sobre a menina de 24 anos que até ontem dava aula de artes por 40 reais a hora.

— E se acontecer por acidente? — perguntei baixo — Eu tomo anticoncepcional, mas se falhar...

Ele me olhou. E pela primeira vez, vi medo no olho dele. Não medo de perder dinheiro. Medo antigo.

— Toma todo dia. Sem falhar. Quarto separado resolve noventa por cento.

— E se acontecer mesmo assim?

— Se quebrar, você perde tudo. E eu também.

Era quase a frase do capítulo sete, mas ainda não era. Ainda faltava o sobrenome. Ainda faltava o coração. Essa era só a versão fria, contratual.

Peguei a caneta. A Montblanc pesava um quilo.

— Posso pensar até amanhã?

— Pode. Mas a vaga da sua irmã não espera. O hospital tem fila. E tem outra menina na frente se você não confirmar.

Filho da puta. Eficiente.

Olhei pra foto da Bruna no meu celular. Aparelho nos dentes, fazendo V com a mão, no dia que fomos no Ibirapuera e ela cansou no meio e tive que carregar nas costas. Dezesseis anos e trinta e dois quilos porque o coração não deixa engordar.

Trezentos mil. Quinhentos no total. Doze meses da minha vida. Do meu útero.

— Onde assino?

Ele abriu na última página. Tinha um X amarelo.

— Aqui. E inicial aqui na cláusula três.

Assinei. Laís Nogueira, duas vezes. Uma na última página, uma do lado da cláusula que eu odiava com toda força.

Quando terminei, ele não sorriu. Só guardou a pasta e apertou um botão na mesa.

— Dr. Henrique vai te levar pro NDA e te entregar a chave da cobertura. Mudança amanhã às oito. E Laís...

— O quê?

— Toma o remédio hoje. Sem falhar.

Tive vontade de jogar a caneta na cara dele. Mas só assenti. Porque no papel, eu tinha acabado de vender meu direito de ser mãe por doze meses.

Laís Nogueira, pelos próximos doze meses, não podia engravidar.

E eu não fazia ideia de que exatamente trinta e um dias depois, eu ia estar num banheiro de farmácia no Itaim, com um teste na mão, rezando pra segunda linha não aparecer.

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