O príncipe desmascarado

Sophia

Dessa vez, o soco veio sem aviso, tão forte que minha visão escureceu por um momento. A dor explodiu no lado do meu rosto, irradiando para o maxilar. A cozinha parecia girar ao meu redor, e eu me agarrei ao balcão para não cair. Tomás estava na minha frente, o rosto vermelho de raiva, os olhos fixos em mim.

"Eu te disse para não queimar os ovos!" ele gritou, o hálito cheirando a álcool entrando no meu nariz. "Você não faz nada direito!"

Tentei me defender, dizer que tinha sido um acidente, mas as palavras ficaram presas na minha garganta. Tomás não se importava com desculpas. Ele precisava de um alvo, alguém para descontar sua frustração, e eu sempre era a escolha perfeita.

Ele me empurrou com força, e eu bati na parede da cozinha, sentindo o impacto vibrar pelos meus ossos. Cada golpe dele era um lembrete de que eu não tinha controle sobre minha própria vida.

"Sophia, você tem sorte de estar sob meu teto, de ter comida para comer!" ele rosnou, antes de me deixar no chão e sair como se minha dor não significasse nada.

Eu senti o gosto de sangue na boca, mas me recusei a chorar. Aprendi cedo que lágrimas só aumentavam o prazer de Tomás. Quando finalmente consegui me levantar, cada músculo doía e o lado do meu rosto pulsava. Toquei o local dolorido, sentindo a pele quente e inchada. A dor física era suportável; a pior parte era a humilhação de ser tratada como um objeto descartável.

Eu precisava sair dali. Daniel, meu namorado, sempre foi minha única fuga. Nas raras tardes em que conseguia escapar de Tomás e Vanessa, eu corria para os braços dele, acreditando que finalmente estava segura ali. Ele era meu refúgio, meu porto seguro, a promessa de um futuro diferente, longe do inferno que eu chamava de lar. Quando ele olhava para mim, eu sentia que talvez eu fosse alguém, alguém que merecia ser amada.

Hoje, depois de mais uma manhã infernal, eu estava desesperada para encontrá-lo. A última mensagem que recebi dele foi um convite para almoçarmos juntos, algo que eu precisava mais do que nunca. Com o coração acelerado e a esperança de que ele trouxesse um pouco de luz para o meu dia, corri pelas ruas até o café onde costumávamos nos encontrar.

O lugar estava cheio de gente, mas eu conseguia ver Daniel à distância. Seu sorriso era brilhante, seus olhos azuis exalavam uma confiança que eu invejava. Ele era tudo o que eu não era: seguro, amado, pertencente. Quando entrei no café, vi-o sentado na nossa mesa de sempre, mas ele não estava sozinho.

Vivian, minha melhor amiga desde a infância, estava sentada ao lado dele. Eles estavam rindo e pareciam até próximos demais. Tentei pensar que era apenas coincidência, que eu estava imaginando coisas. Mas quando ela colocou a mão no braço dele e ele não se afastou, senti um calafrio.

Aproximei-me, tentando manter a compostura, mas a verdade estava diante dos meus olhos antes mesmo que eu pudesse processá-la. Eles se viraram para mim e o sorriso de Daniel desapareceu. Vivian soltou uma risadinha nervosa, ajeitando o cabelo como se nada estivesse errado.

"Sophia... não esperava te ver aqui tão cedo," disse Daniel, a voz trêmula. O desconforto em seus olhos dizia muito. Ele estava envergonhado, mas não o suficiente para se afastar dela.

"Eu pensei que íamos almoçar juntos," murmurei, tentando não deixar minha voz tremer. Mas a dor estava lá, subindo pela minha garganta. "O que está acontecendo aqui?"

Vivian riu, um som agudo e falso, antes de se aproximar de Daniel. "Ah, Sophia, por que você está preocupada? Daniel e eu estávamos apenas... conversando."

Conversando.

A palavra soou como uma piada amarga. Eu sabia exatamente o que significava. As mensagens não respondidas, as ligações curtas, os encontros cancelados. As peças estavam todas lá, mas eu, desesperada para acreditar que Daniel era diferente, fechei os olhos para o óbvio.

"Eu não posso explicar agora," Daniel começou, evitando meu olhar. "Mas não é o que você está pensando."

Eu queria acreditar nele. Queria que aquelas palavras fossem sinceras, que tudo não passasse de um mal-entendido. Mas enquanto ele falava, vi um brilho de arrependimento nos olhos de Vivian, mas não era arrependimento por mim. Era arrependimento por ter sido pega, não por me machucar.

Agarrei-me à borda da mesa, tentando me equilibrar. "Há quanto tempo?"

Ele hesitou, um segundo que pareceu uma eternidade, antes de responder. "Algumas semanas..."

Algumas semanas. Todo aquele tempo ele me segurou, prometendo-me um futuro, enquanto eu sofria em silêncio na casa de Tomás. Todo aquele tempo, ele estava com ela. Cada promessa, cada palavra de amor agora soava vazia, desprovida de qualquer significado.

Vivian deu de ombros, como se estivesse cansada da cena. "Sophia, você sempre foi tão dramática. Daniel precisa de alguém que possa realmente estar com ele, sem... tantos problemas."

Essas palavras foram o golpe final. Eu era a complicação, o fardo, a culpa. Não havia mais nada a dizer. Daniel não me defendeu, não tentou me seguir, pedir desculpas, nada. Virei as costas e senti meus olhos arderem com lágrimas que me recusei a derramar.

Saí apressada do café. A dor no meu peito era quase insuportável, uma ferida aberta que Daniel, meu príncipe, havia rasgado sem piedade.

Virei-me uma última vez e vi o sorriso triunfante de Vivian e a expressão derrotada de Daniel através da janela. Ele não era o herói que eu imaginava. Era apenas um garoto fraco, incapaz de lutar pelo que realmente importava. E eu? Eu era apenas uma tola que acreditava em contos de fadas.

O céu começava a escurecer, com nuvens pesadas que ameaçavam desabar a qualquer momento. Era apropriado, pensei enquanto a primeira gota de chuva caía no meu rosto. A tempestade que se aproximava era um reflexo perfeito do que estava acontecendo dentro de mim.

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