Vendido

Sophia

Eu estava encolhida no meu quarto, o lugar que deveria ser um refúgio, mas que parecia mais uma prisão. Depois do que aconteceu com Daniel, eu mal conseguia me mover. A dor da traição ainda queimava no meu peito, como se cada respiração fosse um esforço para não desmoronar completamente.

Eu ainda podia ouvir os gritos abafados de Tomás lá embaixo, discutindo ao telefone como fazia todas as noites, sempre nervoso e impaciente. Eu estava acostumada com esses surtos, mas naquele dia, algo parecia diferente. As vozes estavam mais altas e o tom dele mais urgente do que o habitual.

Curiosa, me aproximei da porta do meu quarto, que estava ligeiramente aberta, para tentar ouvir melhor.

“Sim, está tudo pronto! Amanhã ela será sua. Sim, eu sei sobre o contrato. Não, ela ainda não sabe de nada. Apenas envie o dinheiro e ela é sua.”

Meu coração congelou. Fiquei paralisada, incapaz de processar o que acabara de ouvir. A voz de Tomás estava tão cheia de malícia e certeza que era impossível não perceber. Ele estava falando de mim.

Ele me vendeu.

Senti um nó na garganta enquanto a verdade brutal se revelava. Eu não era apenas um peso morto para ele; eu era mercadoria, algo a ser trocado pelo preço certo. Respirei fundo, tentando segurar as lágrimas que ameaçavam cair, mas o desespero me dominou. Tomás estava disposto a se livrar de mim a qualquer preço. E agora ele tinha encontrado um comprador.

Não consegui ouvir o resto da conversa. Tudo ao meu redor começou a ficar turvo, como se o mundo estivesse se fechando sobre mim. Voltei para o meu quarto e fechei a porta cuidadosamente, tentando não atrair atenção.

Sentei na beira da cama, abraçando meus joelhos e tentando entender o que tudo aquilo significava. Quem compraria uma pessoa? Que tipo de monstro faria algo assim? Ele não era uma pessoa normal. Era alguém com dinheiro suficiente para comprar uma mulher, alguém que via as pessoas como objetos.

As horas passaram, mas eu não conseguia dormir. O medo me mantinha acordada, como uma sombra constante pairando sobre mim. Cada ruído na casa parecia ameaçador, como se alguém fosse me levar a qualquer momento. Eu sabia que precisava fazer algo, mas não tinha para onde correr, ninguém a quem pedir ajuda. Eu estava sozinha, presa em uma armadilha da qual não conseguia escapar.

Na manhã seguinte, acordei com o som de batidas na porta. Tomás entrou sem pedir permissão, sua expressão mais fria do que nunca. Ele tinha um sorriso satisfeito nos lábios, como se finalmente tivesse se livrado de um fardo.

“Vista-se. Alguém está vindo te buscar,” ele ordenou, jogando uma mala velha aos meus pés.

“O que você está fazendo?” perguntei, minha voz trêmula, mas determinada. Eu sabia a resposta, mas uma parte de mim ainda esperava que fosse tudo um mal-entendido.

“Isso não é da sua conta,” ele respondeu com desdém. “Você deveria estar agradecida. Vai sair desta casa e nunca mais voltar. Ele pagou uma fortuna por você.”

Eu não podia acreditar no que estava ouvindo. “Quem? Quem compraria alguém assim?”

Tomás deu de ombros como se não importasse. “Um homem com dinheiro, influência e motivos que não são da sua conta. Faça o que ele mandar.”

Eu queria gritar, bater nele, chorar. Mas eu sabia que não adiantaria nada. Tomás não se importava com o que eu sentia e não havia ninguém para me salvar. Sem outra escolha, vesti as roupas que ele me deu e desci as escadas.

Lá embaixo, Vanessa estava encostada na porta com um sorriso presunçoso no rosto. Seus olhos brilhavam com um prazer cruel enquanto me observava descer as escadas.

“Então hoje é o dia, né?” ela zombou, sua voz cheia de falsa simpatia. “Finalmente vou me livrar de você, sua desgraçada. Quem diria que alguém pagaria tanto por uma aberração? Realmente há gosto para tudo por aí.”

Tentei ignorá-la e me concentrar no que precisava fazer para manter minha sanidade. Mas suas palavras eram lâminas afiadas, cortando minha pele já tão marcada pela humilhação. Vanessa adorava me ver sofrer; para ela, minha dor era um espetáculo divertido.

“Só espero que seu novo marido não te devolva em alguns dias,” ela continuou, rindo, “ou você vai acabar voltando para cá, e ninguém quer isso, quer?”

Senti um nó na garganta, mas mantive a cabeça erguida. Eu não daria a ela o prazer de me ver desmoronar. “Você nunca mais vai me ver,” murmurei, empurrando a mala em sua direção. Mas, no fundo, suas palavras ecoavam um medo que eu não conseguia afastar.

Lá fora, um carro de luxo preto estava estacionado. As janelas escuras não permitiam ver quem estava dentro. Quando a porta do carro se abriu, um homem saiu. Alto, vestindo um terno, com uma expressão que exalava autoridade. Sua presença era opressiva, e tudo nele gritava perigo. Ele tinha cicatrizes visíveis nas mãos e no pescoço e olhos frios e calculistas.

Ele se aproximou com passos firmes e controlados. Cada movimento exalava uma espécie de poder bruto, algo que me deixou ainda mais alerta. Eu nunca o tinha visto antes, mas sabia que esse homem não era comum.

“Vamos,” ele disse, sem se preocupar em dar mais detalhes. Sua voz era baixa e controlada, cheia de uma confiança perigosa. “Não temos o dia todo.”

Fiquei paralisada, tentando processar o que estava acontecendo. Era esse o homem para quem Tomás me vendeu? Ele parecia um predador, não alguém que estaria interessado em se casar comigo.

Tomás, impaciente, me empurrou em direção ao homem com força. “Seja uma boa menina e entre no carro,” ele disse com um ar de zombaria.

O homem estendeu a mão para me guiar até o carro, mas não havia nada de gentil no gesto. Era um movimento controlado, uma ordem silenciosa que eu tinha que obedecer.

Com o coração acelerado, entrei no carro. O interior era escuro, luxuoso, mas não havia nada de confortável nele. Ele não disse nada, apenas me observou com aqueles olhos frios, analisando cada movimento meu como se estivesse decidindo o que fazer comigo.

Foi uma longa viagem até o carro de luxo parar em frente a uma mansão gigantesca que exalava poder. Antes que eu pudesse abrir a porta, uma empregada me puxou para fora como se já estivesse me esperando. Enquanto ela me conduzia para dentro pelo braço, o homem acendeu um charuto.

“Prepare-a para mim, estarei esperando no quarto principal,” ele disse, enquanto eu era arrastada para dentro.

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