Despertando para a realidade

Sophia

Na manhã seguinte, a luz suave do sol penetrava pelas pesadas cortinas, pintando o quarto com tons quentes e dourados. O calor dos lençóis ao meu redor parecia estranho, quase reconfortante. Por um breve momento, esqueci onde estava — esqueci quem estava deitado ao meu lado. Mas a realidade me atingiu como um golpe, e um peso se instalou no meu peito ao lembrar de tudo o que havia acontecido.

Ao meu lado, ele ainda dormia, seu rosto relaxado, livre do habitual traço de controle e frieza. Ali, ele parecia quase vulnerável, mas eu sabia bem que era apenas uma máscara que ele usava para esconder sua crueldade. O que eu tinha feito? Senti um turbilhão de emoções, desde arrependimento até raiva, mas no fundo havia também um sentimento confuso que eu não queria admitir: um lampejo de atração, uma faísca de curiosidade sobre ele que me perturbava.

Silenciosamente, tentei sair da cama, mas seus olhos se abriram lentamente, e ele me observou com um olhar firme.

“Não há necessidade de pressa, Sophia,” ele disse, sua voz ainda marcada pelo sono. “Você está exatamente onde deveria estar.”

O tom possessivo me fez estremecer. Sentei na beira da cama, segurando o lençol contra meu corpo, como se pudesse proteger alguma parte de mim que ele ainda não havia tomado.

“Eu... eu não sei o que estou fazendo aqui,” murmurei, tentando soar mais firme do que realmente me sentia.

Ele riu suavemente, levantando-se e ajustando a camisa que estava sobre a cadeira. “Sim, você sabe. Você só não quer admitir.” Ele se aproximou, seu olhar predatório retornando. “Na noite passada, você me deu sua confiança. E espero que entenda que isso não é algo que eu leve levianamente.”

“Isso foi... um erro,” eu disse, minha voz mal passando de um sussurro, mas ele balançou a cabeça.

“Foi uma escolha,” ele corrigiu, colocando uma mão no meu rosto, seus dedos frios contrastando com minha pele quente. “E escolhas têm consequências, Sophia.”

Antes que eu pudesse responder, ele se afastou, dirigindo-se para a porta. “Vista-se,” ordenou sem nem olhar para trás. “Temos muito a discutir.”

Assim que ele saiu, permiti-me respirar fundo, tentando controlar a angústia que crescia dentro de mim. Na noite passada, uma parte de mim queria acreditar que havia algo humano nele, um vislumbre de bondade que pudesse me fazer vê-lo de forma diferente. Mas agora, à luz do dia, eu entendia o erro desse pensamento.

Vesti-me lentamente, ainda sentindo o peso da noite anterior em cada fibra do meu ser. Eu sabia que ele estava certo sobre uma coisa: eu tinha feito uma escolha, mesmo que parte de mim tivesse sido movida pelo impulso. Mas eu precisava encontrar uma maneira de me proteger, de recuperar algum controle sobre minha vida antes que ele me destruísse completamente.

Quando terminei, desci para o grande salão onde ele estava esperando. Ele estava perto da janela, observando o jardim lá fora como se estivesse perdido em pensamentos. Ao ouvir meus passos, ele se virou e fez um gesto para que eu me aproximasse.

“Espero que agora você entenda a seriedade da sua situação, Sophia,” ele começou, seu tom implacável. “Posso te dar uma vida confortável aqui. Mas você deve entender que esse conforto vem com obrigações.”

“Obrigações?” perguntei, sentindo a raiva queimar no meu peito. “Você quer me manter aqui como sua prisioneira? Como uma marionete para seu prazer?”

Ele apenas sorriu, sem mostrar nenhum traço de remorso no olhar. “Quero você ao meu lado. Em troca, te darei tudo o que desejar. Mas é uma troca, Sophia. E você não tem muita escolha.”

Cada uma de suas palavras me fazia sentir mais determinada. Eu sabia que, para ganhar qualquer tipo de liberdade, teria que jogar conforme as regras dele... por enquanto. Precisava ser cuidadosa, estratégica. Ele podia ter o poder agora, mas eu não desistiria tão facilmente.

“E se eu concordar... o que acontece comigo?” perguntei, escolhendo minhas palavras com cautela.

Ele se aproximou novamente, seus olhos me estudando com uma intensidade perturbadora. “Se você concordar, viverá uma vida que muitos invejariam. Segura, confortável, e ao lado de alguém que sabe o que quer e não tem medo de conseguir.” Ele passou a mão pelo meu rosto, um toque estranho, uma mistura de afeto e posse. “Mas se me desafiar, as coisas podem mudar drasticamente.”

Olhei para ele, meus olhos firmes. “E se eu não quiser apenas sobreviver?” perguntei, deixando a frustração transparecer na minha voz.

Ele riu, um som frio que ecoou pela sala. “Então aprenda a querer. Será melhor para nós dois.”

Eu sabia que, por enquanto, resistir abertamente só traria mais sofrimento. Mas, no fundo, uma faísca rebelde ainda queimava. Sabia que o caminho à frente seria difícil, mas também sabia que, no momento certo, encontraria uma maneira de sair desse pesadelo.

Então, depois que ele me deixou sozinha, uma velha memória surgiu, me pegando de surpresa. O rosto do meu padrasto apareceu na minha mente, frio, cheio de desdém. Lembrei da minha juventude, todos os anos que vivi sob seu teto, cercada por um controle silencioso e palavras duras que gradualmente me quebraram por dentro.

Ele sempre dizia que eu não valia nada, que não tinha futuro, e eu cresci questionando se isso era verdade. Por muito tempo, acreditei que ser digna de afeto ou respeito estava além do meu alcance. Parecia que, agora, tudo o que estava acontecendo era uma repetição daquele controle, mas agora em um nível mais profundo e perturbador.

Mas então, pensei que talvez, só talvez, essa nova vida pudesse ser melhor do que a anterior. Talvez ele, com todo seu poder e controle, ainda pudesse me dar mais do que o vazio e as humilhações que suportei com meu padrasto. Uma parte de mim odiava admitir isso, mas uma frieza prática me dizia que eu poderia sobreviver — talvez até me tornar mais forte — se jogasse minhas cartas corretamente.

Eu me odiava por pensar assim, mas o que mais eu poderia fazer?

Capítulo Anterior
Próximo Capítulo