Capítulo 2
“Como assim?” Amara finalmente conseguiu perguntar, depois de um longo silêncio entre os dois. Ela torcia para que o que tinha ouvido antes fosse só algum truque que a própria mente pregara nela.
“Você me ouviu. Agora que o vovô não está mais aqui, acho que chegou a hora de a gente se divorciar.” Tobias respondeu sem hesitar. “E não esquece: foi você quem tocou no assunto primeiro.”
As lágrimas escorreram pelo rosto dela, e Amara sentiu o ar faltar. Sim, ela mencionara divórcio e o testamento do avô naquela mensagem. Se acabassem se divorciando, Amara poderia ficar com metade dos bens dele.
Mas, na verdade, bens nunca foram o que Amara quis. Ela até planejava devolver tudo a ele se um dia Tobias encontrasse alguém que realmente valesse a pena passar a vida junto. Ela só não conseguia ficar parada vendo o legado de Gustavo ser manchado por alguém como Celestine. Por isso, queria Tobias de volta e queria conversar com ele.
Ela tinha escolhido algumas palavras para irritar Tobias de propósito, e estava preparada para enfrentar a fúria dele. Mas, assim que ele voltou, ele a possuíra. Ele a derretera com seu domínio. Fora ele quem tecera para ela a ilusão de que ainda havia esperança para o casamento estilhaçado deles...
“Você… quer o divórcio?” A voz dela falhou. “Então por que você fez amor comigo agora há pouco?”
A voz de Amara estava despedaçada quando ela enterrou o rosto nos lençóis. O cheiro um do outro ainda permanecia na pele dos dois, e as coxas dela ainda tremiam levemente por causa das estocadas ardentes de antes. Eles tinham feito amor como um casal apaixonado há instantes e, no segundo seguinte, palavras tão cruéis tinham saído da boca dele.
“Foi só sexo.” O tom dele era impiedoso, completamente alheio à dor dela. “Além disso, não era isso que você queria? Você gostou, mas eu fiz aquilo só para te dizer a verdade: mesmo que meu pênis esteja acostumado com a sua vagina há seis anos, isso não significa que eu esteja apaixonado por você.”
As palavras dele foram como uma faca afiada enfiada no coração dela. O rosto de Amara empalideceu, e os olhos se encheram d’água. Sim, a vida sexual deles sempre fora maravilhosa, e era isso também que a fizera permanecer naquele casamento por tantos anos. Amara presumira, ingenuamente, que ele sentia ao menos alguma coisa por ela; caso contrário, o desejo dele não se acenderia com tanta facilidade.
Ela já tinha pensado que era amor. Mas não era. Tão errado. Tão errado.
Ele a queria apenas para as próprias necessidades. Ela não passava de uma boneca sexual para ele. Quando o verdadeiro amor dele voltasse, ela só poderia ser descartada.
“Ah, por favor, Amara, não aja como se fosse uma pomba inocente. Você sabe como esse casamento aconteceu! Você salvou meu avô e usou isso para ameaçá-lo. Foi por isso que ele me obrigou a casar com você. Essa é a verdade inteira do nosso casamento!”
“Não, Tobias! Não foi assim!” Amara balançou a cabeça, desesperada. “Eu não ameacei o vovô. Eu me casei com você só porque eu te amo.”
“Chega! Para de me encher!” Tobias vestiu a calça e uma camisa branca, claramente se preparando para ir embora. “Vou mandar os papéis do divórcio para você o quanto antes, então assine em silêncio, sem fazer escândalo.”
Amara não conseguia acreditar no que estava ouvindo. As pálpebras tremularam frenéticas, enquanto ela tentava, desesperadamente, conter as lágrimas que se acumulavam no fundo dos olhos. A cena antes da morte de Gustavo voltou à mente dela.
O velho, à beira da morte, juntara as mãos de Tobias e as dela, gentilmente, dizendo para se amarem e construírem uma vida feliz.
“Amara, minha menina, eu sei que você sofreu muito, mas por favor, por favor, cuide bem do Tobias por mim. Eu sei que só você consegue.”
As últimas palavras dele ecoaram nos ouvidos dela, alimentando sua determinação de tentar uma última vez. No entanto, Tobias não lhe deu a chance. Ele atirou um cartão preto no rosto dela enquanto colocava a gravata, sem sequer olhar para trás.
“Levar metade dos bens da minha família, nem pensar. Aqui estão 50 milhões de libras, o suficiente para você por várias vidas. Pegue o dinheiro e assine os papéis do divórcio como uma boa menina — ou não me culpe por ser rude.”
Com isso, ele se virou e saiu pela porta. A firmeza definitiva em sua postura e em seus movimentos apagou qualquer esperança que ainda restava a Amara.
Em silêncio, ela se sentou na cama, com lágrimas escorrendo pelo rosto. Como tinha acabado daquele jeito?
Se não fosse pelo acidente de carro, Amara nunca imaginou que sua vida cruzaria com a de Tobias.
Por obra do acaso, ela salvou o idoso Gustavo. Para agradecê-la, Gustavo quis que seu neto se casasse com ela, e ela jamais esperou que esse neto fosse Tobias, sua obsessão desde a adolescência. Naquele momento, ela acreditou que era a noiva destinada a ele.
No entanto, ela não esperava que Tobias já tivesse seu primeiro amor. Amara pediu a Gustavo que retirasse sua decisão, mas o velho, desesperado, confidenciou a ela sobre seu câncer e disse que seu único desejo era ver o neto feliz. Amara não conseguiu mais recusar.
Por outro lado, Amara nem imaginava o quanto Gustavo tinha feito para que Tobias se apaixonasse por ela. Ele chegou até a ameaçar deixar Celestine e a família dela sem teto caso Tobias não tratasse Amara direito. Ninguém ousava duvidar da palavra do homem que comandava a família; Celestine literalmente desapareceu da vida deles, e Tobias aceitou o casamento.
Aos olhos de Amara, Tobias era um marido responsável. Até o mês passado, ele costumava voltar para casa no horário e jantar com ela com frequência. Ela ainda tinha fé no casamento deles até descobrir que Celestine havia voltado e que Tobias passara a maior parte do tempo com ela no último mês.
Agora, ela percebia que tudo aquilo tinha sido a vingança de Tobias contra ela.
De repente, seu celular silencioso tocou, e era sua melhor amiga, Melanie! Ela atendeu na mesma hora, e a voz aflita de Melanie veio do outro lado da linha.
— Amara? Por que o Tobias está retirando de repente o investimento da minha empresa?
Amara percebeu imediatamente que aquela era a ameaça de Tobias. Ele estava avisando que queria o divórcio! Se ela se recusasse a assinar os papéis, ele usaria a empresa de Melanie como moeda de troca. Amara não aguentava mais. Nunca em toda a sua vida ela havia sido tão humilhada. Sentia um fogo arder dentro de si!
Então era essa a verdadeira face de Tobias! Que descarado!
Não havia mais motivo para ela continuar naquele casamento. Ela acreditava que Gustavo entenderia sua decisão, então ligou para Tobias na mesma hora.
Antes que ele pudesse falar, ela disse de imediato:
— Eu aceito o divórcio e não vou ficar com uma única moeda nojenta sua! É melhor preparar os papéis do divórcio! AGORA MESMO!
Depois de dizer isso, ela não esperou Tobias responder e desligou o telefone.
Em seguida, escreveu uma mensagem para tranquilizar Melanie. Mesmo sem Tobias, a empresa dela não ficaria sem investimento.
Arrumando suas coisas, ela deixou a propriedade dos Larsen.
Só depois de sentir uma pequena gota úmida cair em sua testa é que ela saiu dos próprios pensamentos e percebeu o que havia ao seu redor.
Estava chovendo.
As lágrimas escorriam pelo seu rosto, misturando-se à chuva, como se o céu refletisse o estado de seu coração. Mas nem um único som escapou de seus lábios.
Ela ficou ali, quieta, deixando as lágrimas caírem, com os ombros curvados e o cabelo encharcado. De repente, sentiu que a chuva parava exatamente onde ela estava.
Ela se virou e viu o rosto de alguém familiar, um rosto marcado pela preocupação.
— Srta. Crawford — cumprimentou Xavier, o mordomo exclusivo da família Crawford.
Amara não respondeu.
Em vez disso, deixou que o homem colocasse um casaco sobre seus ombros, amenizando o frio de seu vestido molhado, antes que ele continuasse:
— O prazo dado estava prestes a expirar. Está na hora de a senhorita se divorciar do Sr. Larsen e voltar para casa para administrar os negócios da família.
— O Mestre está chamando a senhorita de volta como a única e legítima governante.
