Capítulo 3
— O negócio da família… — murmurou Amara, rindo com amargura de si mesma.
Pois é, um poderoso Grupo da Família a aguardava para que ela voltasse e assumisse a gestão, e ainda assim ela continuava adiando por causa de alguém que não merecia nem de longe o amor dela.
Como Tobias a chamou mesmo? Interesseira? Se ele soubesse o sobrenome com que ela nasceu. Os Crawford tinham negócios em toda parte deste mundo. Se não fosse o naufrágio inesperado, o destino dela nunca teria se cruzado com o de Tobias.
Por que continuar insistindo no caminho errado? Era hora de voltar para casa.
Sentada no GMC Yukon preto, Amara atendeu à ligação do avô, Elvis Crawford.
— Vovô, boa noite. — cumprimentou com educação, baixando a cabeça de leve, embora ele não pudesse vê-la.
— Boa noite, Amara. — o velho foi direto. — Você finalmente decidiu parar de brincar de casinha?
— Sim — respondeu Amara com firmeza, com o tom de uma elite treinada pelos melhores tutores. — Vou me divorciar de Tobias Larsen e voltar para casa em breve. Mas tenho um pedido: quero mais tempo para resolver uma coisa aqui primeiro.
Do outro lado da linha, houve silêncio depois das palavras dela, o que fez suas palmas suarem.
Amara franziu o rosto. Ela simplesmente não queria desaparecer como o vento, deixando Tobias e Celestine acharem que ela tinha sido derrotada.
— Por favor, respeite minha decisão, vovô. Eu não vou voltar agora. Não quero ir embora como uma perdedora. Quero construir meu nome aqui antes de voltar para casa.
Pareceu uma eternidade até Elvis falar:
— Você sabe que eu odeio especialmente quando você me desobedece.
— Eu sei, vovô. Desculpe. — ela baixou a cabeça, arrependida, pronta para engolir qualquer coisa que o avô jogasse nela. Sabia que estava sendo teimosa de novo.
— Mas você está certa. Não há covarde na nossa família. Vou te dar um ano para ficar aí como gerente da filial de Londres.
— E, em troca, você vai aumentar o lucro da empresa em trinta por cento dentro de um ano.
— O quê?! Vovô, trinta por cento… isso dá três bilhões!
— E daí? Você é incapaz de fazer isso?
— Não.
— Ótimo. Mas vou ser franco: se você falhar, também haverá consequências.
— Como quais?
— Tenho um amigo muito próximo cujo filho está interessado em você. Tenho certeza de que vocês formariam um casal maravilhoso.
As sobrancelhas de Amara tremeram. Ela entendeu perfeitamente o recado do avô.
— Um casamento arranjado.
— Você aceitou bem o primeiro, não aceitou? E vou te dizer, diferente daquele bastard— Ah, eu devia mandar castrar aquele desgraçado… — Amara soltou uma risadinha ao perceber como o avô tinha se desviado do assunto. — Diferente daquele bastardo, Elijah é um bom homem. Ele vai te tratar bem e—
— Não vai ser necessário, vovô — interrompeu Amara, com educação. — Eu vou aumentar o lucro da empresa em trinta por cento e, então, não vou mais precisar desse casamento.
— Sim.
— Então está bem. Fechado. — Amara concordou.
— Já fiz isso pela minha neta; então, por favor, pare de me desobedecer quando tudo isso acabar.
— Sim, vovô. Obrigada.
— Não me agradeça. Tenho uma reunião de golfe agora. Descanse bem.
— Divirta-se, vovô.
E, assim, a ligação terminou, deixando Amara sozinha com os próprios pensamentos.
Um ano, trinta por cento de lucro.
Não era uma concordância leviana; só ela sabia quanta pressão aquilo traria. Nos últimos seis anos, Amara tinha abandonado sua identidade e também seus talentos apenas para ser a esposa de Tobias de corpo e alma. Mas no fim tudo não passou de um devaneio inútil.
Sim, era hora de acordar. E ela não era generosa a ponto de perdoar tudo.
— Xavier — disse ela, esfregando a têmpora com os dedos, em voz baixa. — Prepare-se para adquirir a empresa de cosméticos da Melanie Woods imediatamente e garanta que sejamos mais rápidos do que os Larsen.
“Sim, minha senhora”, respondeu respeitosamente o homem no banco da frente. “Com certeza vou corresponder à sua confiança.”
Amara olhou pela janela do carro, e um sorriso se desenhou em seus lábios. Ela sabia que sua nova vida tinha começado.
— Melanie, o que a gente está fazendo aqui? — encarando o enorme prédio da boate à sua frente, Amara não conseguiu evitar a confusão.
Ela olhou para o lado e viu Melanie, que acabara de terminar de confirmar a entrada com o segurança, antes de continuar:
— Você disse que a gente ia sair… pra comemorar.
Melanie assentiu com a cabeça. Depois de saber que Amara tinha decidido se divorciar de Tobias, ela mal podia esperar para comemorar que a melhor amiga estava solteira de novo.
Amara topou porque ficar dias deprimida por causa de um pau no cu como Tobias não fazia o estilo dela. Mas agora, encarando a boate chamativa à sua frente, Amara começou a duvidar se tinha tomado a decisão certa.
— Anda, Mara — disse Melanie, puxando-a pelo pulso para dentro. — Pra onde mais você achou que a gente ia vestida desse jeito?
No instante em que Melanie disse isso, Amara passou por um espelho do chão ao teto e se viu pela segunda vez naquela noite. Um vestido justo de couro preto até o joelho, botas que iam até o tornozelo, e um colar dourado reluzente que destacava as curvas do pescoço, exposto pelo cabelo castanho ondulado, agora preso num rabo de cavalo bem apertado.
Ela estava deslumbrante, confiante, e nada parecida com a mulher sem graça que tinha sido casada com Tobias por seis anos horríveis. E os olhares que recebeu assim que entrou na boate confirmaram cada pedaço daquilo.
— Você tá solteira agora, Amara. A gente tem que comemorar. Principalmente quando é você que tá chutando aquele babaca.
Amara soltou uma risadinha seca enquanto Melanie pedia a terceira rodada. Ela realmente admirava a hostilidade da amiga em relação a Tobias. Era de outro nível, bem diferente da raiva meia-boca dela.
— Quatro doses de uísque pras duas damas lindas — anunciou o barman ao voltar com as bebidas que Melanie havia pedido. Quando colocou os copos no balcão, Amara lançou ao homem um sorriso inocente que o fez corar como um nerd do ensino médio.
— Até o barman tá na sua — comentou Melanie, pegando a primeira dose e virando, logo incentivando Amara a fazer o mesmo.
— Bora comemorar a vida de solteira, Mara! — ela comemorou depois da segunda dose, descendo do banquinho na mesma hora, puxando Amara junto e correndo para a pista de dança.
Amara só conseguiu rir da atitude otimista da amiga. Melanie estava claramente determinada a ver Amara se divertir. E ela estava se divertindo; apesar do humor sombrio, tinha conseguido manter um sorriso no rosto a noite inteira.
Mas, claramente, o universo tinha outros planos pra ela.
Enquanto Amara e Melanie dançavam e se balançavam na pista, uma pessoa alta e esguia, vestida de terno, entrou na boate. Ao lado dele vinha uma loira deslumbrante que rapidamente chamou a atenção de muitos homens ali.
— Toby, onde você quer sentar? — perguntou Celestine, enlaçando o braço dele e fazendo cara de inocente enquanto pressionava o peito contra o bíceps.
— Tanto faz — respondeu Tobias, aparentemente sem se incomodar com as atitudes dela.
Celestine não gostou, mas sabia melhor do que reclamar, porque no momento em que fizesse isso — ou insistisse demais — Tobias com certeza notaria a mudança no ar de inocência.
— E ali? — ela apontou para um lugar além da pista de dança.
Tobias seguiu a direção do dedo dela, mas de repente alguma coisa — não, alguém — chamou sua atenção.
