Capítulo 1 Um
Antonia Adams deveria ter percebido que o dia estava amaldiçoado no instante em que o céu ficou naquele tom estranho de cinza que prometia chuva, mas entregava só umidade. Ela odiava umidade. Grudava na pele dela como um ex-namorado desesperado e armava o cabelo num frizz que fazia parecer que ela tinha enfiado o dedo numa tomada. Definitivamente não era o visual glamouroso que ela queria para a primeira entrevista de emprego em meses.
Depois de um término desastroso que pôs fim ao relacionamento de seis anos, Antonia decidiu recomeçar do zero. Isso significava um novo trabalho, um novo apartamento e, quem sabe um dia, um novo galã. Apesar da separação devastadora, Antonia ainda tinha esperança de encontrar o amor verdadeiro — mas só depois de colocar a própria vida de volta nos trilhos.
Apertando a bolsa com mais força, ela ajeitou a saia lápis e acelerou o passo pela rua movimentada. A irmã tinha desejado boa sorte naquela manhã — com direito a discurso motivacional, beijo na bochecha e um aviso para não deixar o nervosismo vencer. Fácil falar. Não era ela que ia entrar numa entrevista em que precisava desesperadamente provar que não era um fracasso completo na vida.
— Tá, Antonia — ela resmungou, desviando de um ciclista. — Você é inteligente, qualificada e tem um sorriso de arrasar. Só… seja você mesma e dê o seu melhor nessa entrevista.
Ela estava tão ocupada ensaiando o mantra de “candidata confiante” que nem percebeu o carro preto e elegante acelerando na direção da poça até ser tarde demais.
Vush!
Um jato de água barrenta subiu como uma fonte, respingando pela blusa cor de creme e pela saia.
Antonia parou, imóvel. Por um segundo inteiro, ela só ficou ali, encharcada, olhando para a ruína do próprio traje. Aí o sangue ferveu.
— Você só pode estar brincando?! — ela gritou, e a voz se perdeu no barulho do trânsito.
Ela praticamente ouvia a voz da irmã na cabeça: Fica calma, Antonia. Não passa vergonha.
Mas Antonia não estava calma. Ela pingava lama, estava a cinco minutos de uma entrevista que podia mudar a vida dela, e o motorista arrogante daquele carro nem sequer tinha diminuído para pedir desculpas.
Sem pensar, ela se abaixou, pegou uma pedrinha na beira da rua e arremessou com toda a força da própria frustração.
Clinc!
A boca dela ficou aberta.
A pedra não ricocheteou inofensivamente. Ah, não. Ela rachou a lanterna traseira bem ao meio, deixando um buraco irregular na traseira lisa do carro.
— Oh… meu… Deus — ela sussurrou, paralisada de horror.
O carro freou com um guincho e parou. A porta do motorista se abriu.
E de lá saiu o homem mais absurdamente bonito que Antonia já tinha visto na vida.
Alto. Ombros largos. Cabelo escuro que reluzia até sob a luz opaca do sol. Um rosto talhado com linhas duras de autoridade, combinado com um terno que obviamente custava mais do que toda a roupa que ela vestia.
O coração de Antonia falhou uma batida. Em seguida, entrou em pânico.
Porque aquele não era um homem qualquer — era aquele tipo de homem. Do tipo que parecia poderoso, intocável e assustadoramente capaz de processá-la até ela não ter mais nada por ter danificado o carro de luxo dele.
Ele começou a vir na direção dela, lento e deliberado, os olhos escuros cravados nos dela.
O cérebro de Antonia gritou CORRE! antes mesmo de as pernas acompanharem. Ela agarrou a bolsa, girou sobre os calcanhares e disparou rua abaixo como uma criminosa fugindo de uma cena de crime.
Quando enfim chegou à sede da Walton & Co., os pulmões ardiam e a blusa continuava manchada. Ela se apressou para dentro do saguão, torcendo para que ninguém notasse o quanto estava desgrenhada, e foi direto até a recepcionista.
— Bom dia — cumprimentou às pressas. — Eu… hã… eu vim para a entrevista das dez — ofegou, tentando ajeitar o cabelo sem muito sucesso.
A recepcionista a avaliou de cima a baixo com um olhar que dizia “coitada”, antes de lhe entregar um crachá de visitante. Antonia endireitou os ombros. Manchada ou não, ela não ia desperdiçar aquela chance. Precisava daquele emprego como precisava de oxigênio. Não podia continuar se defendendo da irmã e do cunhado. Precisava colocar a vida nos trilhos, e aquela podia ser a única oportunidade.
Ela subiu no elevador, murmurando mais um discurso de incentivo para si mesma. “Você consegue. Eles vão ver suas qualificações, não a lama. Eles vão ver sua confiança, não o seu…” — ela olhou para a blusa — “…seu look cor de café.”
A sala de reunião estava fervilhando quando ela entrou. Outros candidatos esperavam sentados, todos impecáveis e perfeitos. Antonia afundou numa cadeira, cruzou os braços de propósito sobre a pior parte das manchas e tentou não pensar no fiasco da pedrada.
Então a porta se abriu.
Todas as cabeças se viraram.
E entrou o homem do carro.
O estômago de Antonia despencou.
Ele se movia com uma autoridade natural, o olhar varrendo a sala como se fosse dono de tudo — o que, ao que parecia, era mesmo. Porque, quando a recepcionista entrou atrás dele e se dirigiu a ele como “Sr. Walton”, Antonia quase desmaiou.
Sr. Walton. Kennedy Walton. O CEO.
O homem cujo carro ela tinha vandalizado.
O homem de quem ela tinha fugido.
O homem que agora estava parado à cabeceira da mesa, com os olhos penetrantes percorrendo a sala até pousarem diretamente nela.
Os olhares se prenderam.
E, naquele instante, Antonia soube de duas coisas com absoluta certeza.
Primeiro: ela não ia conseguir aquele emprego.
Segundo: ela acabara de cometer o maior erro da vida.
