Capítulo 2 Dois
O som da risada enlatada do sitcom passando na TV pouco fez para melhorar o humor de Antonia. Ela estava encolhida no sofá, abraçando uma almofada como se ela pudesse absorver a decepção que a esmagava. O gosto do fracasso ainda grudava amargo na língua, não importava quantas xícaras do café doce demais da irmã ela tomasse para tentar espantar aquilo.
Ontem tinha sido um desastre.
Um desastre de proporções cósmicas, de lama espirrando para todo lado e lanterna traseira estilhaçada.
Ela gemeu contra a almofada. “Por que eu?”
“Você quer uma lista itemizada ou só os melhores momentos?”, a voz de Helen veio da cozinha, carregada de sarcasmo e calor.
Antonia espiou por cima da almofada e viu a irmã mais velha mexendo uma panela de ensopado no fogão, o avental já manchado de extrato de tomate. Helen estava irritantemente arrumada — cabelo preso num coque certinho, a pele radiante como se não tivesse nenhuma preocupação no mundo. Claramente, a vida de casada fazia bem a ela.
Antonia, por outro lado, era a definição do fundo do poço: desempregada, de coração partido e ainda revivendo o olhar horrorizado no rosto de Kennedy Walton quando ele a reconheceu na sala de entrevistas.
“Eu estraguei tudo, Helen. Você não viu como ele me olhou. Como se eu fosse inimiga pública número um. Sério, quem joga uma pedra no carro de um CEO? O que eu estava pensando?”
Helen deu um meio sorriso, servindo o ensopado numa tigela. “Você não estava pensando. Estava reagindo. O que é bem a sua cara.”
Antonia enterrou o rosto na almofada de novo, gemendo mais alto dessa vez. “Eu devia mudar de nome, me mudar pra outra cidade. Talvez outro país. ‘Antonia Adams, vândala famosa de lanterna traseira’ não é exatamente como eu planejava causar uma boa impressão.”
“Você está sendo dramática.” Helen atravessou a sala com a tigela de ensopado e a colocou à frente da irmã. “Come. Você vai se sentir melhor. Ou pelo menos vai ter em que chorar que não seja a minha almofada.”
Antonia soltou uma risadinha fraca, pegando a colher. “Fácil pra você falar. Você é casada com o amor da sua vida, tá estabelecida, estável. Eu tenho trinta anos, tô desempregada e morando com você e seu marido, que nem uma adolescente crescida.”
Helen sentou ao lado dela, lançando-lhe um olhar que era meio provocação, meio proteção. “Ah, por favor. Você não é um peso. Além disso, você está recomeçando. Todo mundo merece um reset depois do que você passou com… como é o nome dele mesmo? Ah, isso — o Sr. Desperdício-de-Seis-Anos.”
“Nem me lembra.” Antonia fez uma careta, espetando a colher no ensopado como se fosse a cara do ex. “Eu desperdicei meus vinte e poucos anos com ele. E pra quê? Pra ser traída com uma mulher que nem consegue soletrar ‘compromisso’?!”
Helen riu. “Tá, essa foi boa. Seu brilho está voltando.”
Antes que Antonia pudesse responder, o celular dela vibrou em cima da mesa de centro. Ela o pegou no automático, esperando mais uma mensagem promocional ou algum texto da mãe tentando fazê-la se sentir culpada.
Mas, quando atendeu, uma voz familiar a cumprimentou.
— Alô, srta. Adams? Aqui é a Denise, recepcionista da Walton & Co. Estou falando com Antonia Adams?
O coração de Antonia deu um salto. Ela se endireitou no sofá. — S-sim, sou eu.
Ao lado dela, Helen ficou imediatamente alerta, estreitando os olhos, curiosa.
— Estou ligando a respeito da entrevista de ontem — continuou Denise, com um tom calmo e profissional. — O escritório do sr. Walton analisou sua candidatura e tenho o prazer de informar que você foi selecionada para a vaga.
Antonia piscou. Uma vez. Duas. O cérebro dela entrou em pane.
— Eu… eu fui o quê?
— A vaga é sua — repetiu Denise, paciente, como se falasse com alguém com dificuldade de ouvir. — Gostaríamos que você começasse logo na segunda-feira, às oito da manhã.
Por um instante, o silêncio se esticou entre elas. Antonia ficou paralisada, encarando a irmã sem expressão.
Então ela gritou.
Foi o tipo de grito que fez as janelas vibrarem, assustou o cachorro do vizinho a ponto de ele começar a latir e quase fez Helen derrubar a colher.
— Você conseguiu o emprego? — Helen guinchou, agarrando os ombros dela. — Você conseguiu o emprego!
— Sim! Sim, eu consegui o emprego! — Antonia começou a pular no sofá, a voz subindo para guinchos de incredulidade. — Ai, meu Deus, Helen, eu consegui! Eu achei que tinha estragado tudo, mas mesmo assim eles me escolheram!
As lágrimas arderam nos olhos dela, quentes e avassaladoras. Pela primeira vez em semanas, não eram de coração partido ou humilhação — eram de alegria.
— Parabéns, srta. Adams — disse Denise ao telefone, agora com um tom mais caloroso. — Vamos enviar um e-mail de confirmação com os detalhes. Bem-vinda à Walton & Co.
— Obrigada, obrigada, muito obrigada — Antonia gaguejou, antes de a ligação terminar.
Ela largou o celular no sofá e apertou as mãos de Helen como se fossem uma boia. As duas irmãs deram mais um grito e se abraçaram com força.
A algazarra atraiu o marido de Helen, Ernest, que se apoiou no batente da porta com uma expressão divertida. — Eu quero saber por que vocês duas estão quase berrando até derrubar o telhado?
— Ela conseguiu o emprego! — exclamou Helen, irradiando orgulho da irmã.
Ernest ergueu as sobrancelhas. — O mesmo emprego em que você achou que tinha passado vergonha sem conserto?
Antonia riu em meio às lágrimas, o peito subindo e descendo. — Sim! Esse mesmo! Pelo visto, me humilhar faz parte do meu charme.
Helen bagunçou o cabelo dela com carinho. — Charme, insanidade… dá no mesmo.
Antonia se jogou de volta no sofá, ainda tremendo de choque. Ela tinha entrado naquela entrevista convencida de que tinha destruído para sempre qualquer chance. E, ainda assim… ela tinha conseguido. Um recomeço.
O coração dela se encheu de alívio, mas por baixo havia uma ondinha de inquietação. Porque, se Kennedy Walton tinha aprovado aquilo… significava que ela o veria de novo.
Cara a cara. Todos os dias.
O homem cujo carro ela tinha vandalizado.
O homem cujo olhar quase a despiu naquela sala de reuniões.
E Antonia não sabia se devia comemorar — ou se preparar para a tempestade.
