Capítulo 3 Três

Os saltos de Antonia estalavam nervosos contra o piso de mármore quando ela entrou na sede da Walton & Co., o crachá novinho de funcionária preso com firmeza à blusa. Ela tinha passado o fim de semana inteiro alternando entre empolgação e pavor, provando diferentes roupas diante de Helen e Ernest como se estivesse desfilando numa passarela. No fim, decidiu por uma blusa azul-clara, macia, bem colocada por dentro de uma saia lápis preta, combinada com saltos discretos. Profissional. Impecável. Seguro.

As palmas das mãos ainda estavam úmidas.

“Respira, Antonia”, sussurrou para si mesma enquanto subia de elevador. “É só um trabalho. Um trabalho muito importante, que vai salvar sua carreira, mudar sua vida, com um chefe que provavelmente acha que você é uma vândala lunática. Mas, ainda assim — um trabalho.”

As portas se abriram, revelando um escritório amplo e bem iluminado, em plano aberto, vibrando de atividade. Telefones tocavam, teclados tec-tecavam, e o cheiro de café fresco pairava no ar. Funcionários se moviam apressados pelos corredores entre as mesas; alguns riam em grupinhos, outros se curvavam sobre as telas como se a vida dependesse daquilo.

Antonia hesitou na entrada, de repente consciente do quanto ela parecia nova, do quanto tinha cara de recém-contratada. Antes que pudesse começar a duvidar de si mesma, uma voz animada chamou:

— Você deve ser a novata!

Antonia se virou e viu uma mulher baixinha, com cachos até os ombros e um sorriso enorme, vindo em sua direção. Ela usava um vestido de bolinhas e carregava uma aura de confiança que fez Antonia querer, de imediato, ser amiga dela.

— Eu sou a Sarah — disse a mulher, estendendo a mão. — Analista de marketing. Bem-vinda à Walton & Co.!

Antonia apertou a mão dela, grata pelo acolhimento.

— Obrigada. Eu sou a Antonia. Hoje é… meu primeiro dia, obviamente.

Sarah sorriu, como quem já sabia.

— Fica tranquila, você não está andando por aí com uma placa de neon escrito “novata”. Ainda. — Ela piscou. — Vem, deixa eu te dar um tour rápido antes que te enterrem em papelada.

Enquanto Sarah a guiava, ia despejando informações que eram metade orientação, metade fofoca.

— Aquilo ali é o TI — eles salvam vidas, mas nunca peça ajuda numa segunda de manhã. O RH fica naquele corredor — evite, a menos que seja absolutamente necessário. E — ah — cuidado com a geladeira da copa. As coisas somem misteriosamente. Se você trouxer sobras, proteja como se fosse sua vida.

Antonia riu, e o nó no estômago afrouxou só um pouco. Sarah tinha esse efeito — tranquila, falante, o tipo de colega que fazia o escritório parecer menos intimidador.

— E, claro — disse Sarah, parando diante de uma sala elegante de vidro —, ali é a toca do dragão.

As sobrancelhas de Antonia se franziram.

— A do quê?

Sarah se inclinou, baixando a voz como se fosse contar um segredo de Estado.

— O Sr. Kennedy Walton. Nosso amado CEO. Ele é brilhante, afiado, absurdamente bonito — não revira os olhos, eu só estou dizendo fatos —, mas também pode ser assustador se você ficar do lado ruim dele. O homem não tolera bobagem. Nem atraso.

O estômago de Antonia revirou. Bonito, assustador e muito ciente de que ela tinha vandalizado o carro de luxo dele.

Sarah inclinou a cabeça, analisando-a. “Não fica com essa cara de quem vai desmaiar. Ele só morde se você der um motivo. Foca no seu trabalho, sorri com educação e vai ficar tudo bem. Confia em mim, ele mal percebe a maioria de nós.”

Quem dera isso fosse verdade.

Antes que Antonia pudesse responder, uma voz grave atravessou o salão. “Srta. Adams?”

Ela paralisou.

Todo mundo paralisou.

De pé na entrada do próprio escritório, alto e imponente num terno perfeitamente sob medida, estava o próprio Kennedy Walton. A presença dele sugou o ar da sala. As conversas morreram. Cabeças baixaram de volta para as telas.

E aqueles olhos penetrantes estavam nela.

“Sim, senhor?” A voz dela saiu fina e vergonhosa, arrancando um tapinha solidário de Sarah antes de ela se afastar.

“Entre no meu escritório, por favor.”

Os pés dela se mexeram antes que o cérebro conseguisse acompanhar, levando-a até o santuário de paredes de vidro do CEO. A porta se fechou atrás dela com um clique suave e, de repente, eram só os dois.

Kennedy ficou ao lado da mesa, braços cruzados, observando-a como se enxergasse através da roupa cuidadosamente escolhida, da compostura ensaiada, da própria alma.

Antonia engoliu em seco. “Sr. Walton, antes de começarmos, eu… eu só queria pedir desculpas. Pelo… incidente. Com o seu carro.” Ela torceu as mãos, as palavras saindo atropeladas. “Eu estava com raiva, não estava pensando, e foi idiota. Me desculpa. De verdade. Eu prometo que vou pagar o prejuízo, ou… ou compensar de algum jeito. Eu estou te devendo.”

Por um longo momento, ele não disse nada. Apenas a estudou com aquela expressão indecifrável, a mesma que fazia os joelhos dela bambearem.

Então, para o choque dela, o canto da boca dele se ergueu levemente. Não chegava a ser um sorriso, mas quase.

“Eu também lhe devo um pedido de desculpas”, ele disse por fim. A voz era grave, macia, do tipo que ficava no ar. “Eu deveria ter reduzido a velocidade. Estraguei suas roupas naquela manhã. E apesar do nosso… primeiro encontro incomum, acredito que você mereceu este emprego. Suas qualificações falaram mais alto do que aquele incidente. E não pretendo deixar que um momento ruim a prive do que você merece.”

Antonia piscou, atônita. Aquilo não era a dispensa gelada que ela esperava. Ele não estava demitindo-a. Não estava exigindo pagamento. Não estava chamando-a de louca.

Ele estava sendo… justo. Quase gentil.

O alívio inundou o peito dela, misturado a algo mais perigoso. Admiração.

“Obrigada”, ela sussurrou, tentando não soar ofegante demais. “Eu prometo que não vou te decepcionar.”

Kennedy fez um leve aceno e então se virou de volta para a mesa, já estendendo a mão para uma pasta. “Trate de não decepcionar. Agora, vamos trabalhar.”

Quando Antonia saiu do escritório dele, com o coração martelando, Sarah a abordou perto da copa.

“E aí?” Sarah sussurrou, ansiosa. “O dragão cuspiu fogo?”

Antonia balançou a cabeça, ainda zonza. “Não. Pior.”

Sarah franziu a testa. “Pior?”

Antonia suspirou, apertando o peito acelerado. “Ele era… humano.”

Um humano muito bonito.

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