Capítulo 4 Quatro
Kennedy Walton guiou seu sedã preto e elegante para dentro da garagem subterrânea da Walton & Co., o ronco do motor ecoando nas paredes de concreto. Estacionou com perfeição na vaga reservada, aquela com a plaquinha do seu nome brilhando como um distintivo de autoridade. Para a maioria das pessoas, as manhãs eram um martírio, uma marcha sonolenta em direção ao café. Para Kennedy, as manhãs eram um ritual. Ordem. Disciplina. As únicas coisas que mantinham o caos à distância.
Mas hoje, sentado ao volante com o motor em marcha lenta, ele não pegou a pasta. Não ajeitou a gravata nem conferiu a agenda. Fitou o próprio reflexo no retrovisor, maxilar travado, olhos cansados de uma noite com pouco sono.
A vibração estridente do celular estilhaçou o silêncio. Ele nem precisava olhar a tela. Só uma pessoa no mundo ligava para ele a essa hora.
Mesmo assim, atendeu. — Bom dia, mãe.
A voz de Priscilla Walton vinha carregada de calor — e também daquela firmeza familiar que não admitia resistência. — Kennedy, não venha com “bom dia”. Você esqueceu que dia é hoje?
Kennedy apertou a ponte do nariz. — É terça-feira. Reunião do conselho às dez. Sessão de estratégia às duas. É isso que é hoje.
A mãe fungou daquele jeito que só ela sabia fazer — desaprovação embrulhada em afeto. — É o dia em que eu te lembro do nosso acordo. Você me prometeu, Kennedy. Disse que não ia me deixar esperando para sempre.
Kennedy se recostou no banco de couro, os olhos se fechando devagar. Sabia que essa conversa ia acontecer, mas isso não a tornava mais fácil. — Mãe—
— Já se passaram seis anos — ela interrompeu, seca, a voz amaciando só nas bordas. — Seis longos anos desde que a Ruth nos deixou. Seis anos em que você se enterra no trabalho e finge que isso basta. Mas não basta. Nunca vai bastar.
Ao ouvir o nome de Ruth, o peito de Kennedy se apertou. O sorriso dela, a risada, as mãos gentis — tudo passou como um slideshow na mente dele. Ele ainda usava a aliança presa a uma corrente no pescoço, escondida sob a camisa. Um peso secreto que carregava todos os dias. Jurara a si mesmo que ninguém jamais ocuparia o lugar dela.
— Eu não esqueci a Ruth — disse em voz baixa. — Nunca vou esquecer. Nenhuma mulher pode substituí-la.
O suspiro de Priscilla atravessou a linha, pesado de amor e exasperação. — Meu querido, eu não estou pedindo que você a esqueça. Estou pedindo que você viva. Quero ver você feliz de novo. E quero ver meus netos antes de eu deixar este mundo.
A garganta de Kennedy se fechou. Ela manejava a culpa como uma arma, mas a voz tremia de sinceridade. Não era só intromissão. Ela estava sozinha. Estava com medo de o tempo estar escapando.
— Você me disse que estava saindo com alguém?
Kennedy suspirou baixo; tinha mentido para a mãe para que ela saísse do seu pé.
— Sim... mas a gente ainda está indo devagar — disse, gaguejando um pouco.
— Devagar? — ela repetiu. — Por quanto tempo?
O silêncio se estendeu. Ele não respondeu.
— Escute bem, Kennedy Walton — disse Priscilla por fim, num tom que não admitia discussão. — Vou te visitar neste fim de semana. Espero conhecer sua noiva. E eu não quero desculpas. Quero um nome, um rosto, uma mulher com quem você esteja construindo um futuro. Ficou claro?
— Noiva? — ele esganiçou.
— Sim. Peça aquela garota em casamento antes de eu chegar.
A mão de Kennedy se apertou no volante, o couro rangendo sob o aperto. — Mãe—
— Eu. Fui. Clara?
O maxilar dele se contraiu. — Sim, mãe.
O murmúrio satisfeito dela o fez ranger os dentes. “Ótimo. Vejo você no sábado, querido. E, por favor—tente não fazer a pobre menina sair correndo pela própria vida antes disso. Deus sabe que essa sua cara séria já basta pra mandar as garotas embora.”
Antes que ele pudesse responder, a ligação caiu.
Kennedy largou o celular no banco do passageiro e passou a mão pelos cabelos. Uma noiva. Como se amor fosse um chapéu que ele pudesse tirar de uma prateleira e usar de novo. Ele não tinha noiva. Nem planos de ter. Ele tinha trabalho, uma empresa para comandar, um legado para proteger. Isso era o suficiente. Tinha que ser o suficiente.
Só que agora não era.
Priscilla Walton era sua mãe, sua única fraqueza, a única pessoa no mundo a quem ele não conseguia dizer não. Se ela disse que vinha, ela vinha. E se ela esperava uma noiva, ele teria que arranjar uma—ou partir o coração dela.
Nenhuma das opções lhe agradava.
Kennedy desligou o motor e saiu do carro, os sapatos bem polidos estalando no concreto. Quando entrou no elevador, seu rosto já estava esculpido de volta na máscara do controle, as emoções bem guardadas, fora de vista.
Mas, enquanto atravessava a passos firmes o saguão reluzente e subia ao andar executivo, com a mente ainda em tempestade por causa do pedido da mãe, o destino decidiu intervir.
Ele virou uma esquina rápido demais e trombou com alguém, fazendo um monte de documentos recém-impressos voarem e caírem no chão como pássaros assustados.
“Olha por onde—” A voz dele saiu cortante, dura, mais áspera do que pretendia.
Antonia.
Ela congelou, segurando a borda da pasta, os olhos arregalados batendo nos dele. Por um instante, parecia que tinha sido pega roubando as joias da coroa. A raiva de Kennedy não era por causa dela—era por causa dele mesmo, da mãe, do vazio que Ruth deixara—mas, ainda assim, transbordou, crua e sem filtro.
“Da próxima vez, mantenha os olhos abertos”, ele rosnou, o barítono ecoando pelo corredor. Sem esperar pelo pedido de desculpas engasgado dela, passou por ela, sem quebrar o passo, o terno sob medida um borrão de autoridade sombria desaparecendo atrás das paredes de vidro do seu escritório.
O silêncio que ele deixou era pesado.
Antonia permaneceu plantada no lugar, o calor subindo às bochechas. “Ele… ele acabou de gritar comigo?”, sussurrou, meio para si, meio sem acreditar.
“Sim, acabou.”
Sarah surgiu ao lado dela, agachando-se para ajudar a recolher as folhas espalhadas. Os lábios dela se curvaram num meio sorriso que era, ao mesmo tempo, solidariedade e divertimento. “Não leva pro lado pessoal. Esse homem podia ganhar um prêmio de Chefe Mais Intimidador. Mas, falando sério, Tonia, dá pra pelo menos tentar não babar quando ele passa?”
Antonia arfou, sem graça. “Eu não estava babando!”
Sarah arqueou uma sobrancelha, nada convencida. “Aham. Diz isso pros seus olhos vidrados e pra sua boca aberta de agora há pouco. Relaxa, você está em boa companhia. Toda mulher neste escritório tem uma quedinha por ele. Até as casadas.”
Antonia gaguejou, apertando os papéis contra o peito. “Eu não tenho quedinha. Eu só… me assustei. Só isso.”
“Se assustou com o maxilar dele? Com a voz? Com aqueles ombros ridiculamente largos?”, Sarah provocou, mexendo as sobrancelhas. “Ah, para. Você é humana como o resto de nós. Esse homem é uma tentação ambulante.”
O olhar de Antonia desviou para o escritório de vidro fechado no fim do corredor.
Ela engoliu em seco. “Ele é meu chefe, Sarah.”
Sarah sorriu, maliciosa. “O que deixa tudo ainda mais emocionante, não deixa?”
Antonia gemeu. “Você é impossível.”
Mas, quando voltou para a mesa, seu coração traiçoeiro martelava mais alto e, apesar da negativa, ela não conseguiu afastar a imagem daqueles olhos penetrantes—tão frios quando a encaravam e, ainda assim, tão bonitos.
