Capítulo 5 Cinco

Kennedy recostou-se na cadeira, o maxilar tenso, os olhos fixos na parede de vidro que separava seu escritório do salão aberto lá embaixo.

Antonia Adams.

O nome dela permanecia na cabeça dele, sem ser convidado e distraindo mais do que devia. Ele deveria estar revisando as projeções trimestrais espalhadas pela mesa, mas, em vez disso, seu olhar insistia em voltar para ela.

Ela não era como as outras. Ele sabia disso instintivamente. A maioria da equipe se comportava com a rigidez cautelosa de quem não queria ser notado — com medo de escorregar na frente do CEO. Mas Antonia ria, mesmo quando não devia. Sorria como se não tivesse um problema no mundo.

O olhar dele pousou nela de novo. Antonia ria de algo que Sarah, do Marketing, tinha dito, o cabelo escuro balançando enquanto ela sacudia a cabeça. Mesmo com a blusa e a saia discretas, havia um brilho nela, algo que a tornava irresistível.

O que era um problema.

Um problema enorme.

Kennedy odiava distrações.

Ainda assim, quando a voz da mãe dele ecoou na mente — “Espero conhecer sua noiva em breve, Kennedy. Você já evitou isso por tempo demais.” — a garganta dele se apertou. A mãe não estava tratando aquilo de leve.

E agora? O momento não podia ser pior.

Uma noiva? Como se ele tivesse tempo para um romance de verdade. Como se tivesse o luxo de ser vulnerável. Como se sequer tivesse uma namorada.

Mas ele tinha mentido, e agora precisava sustentar a história — ou partir o coração da mãe no processo.

Então e se... e se não precisasse ser real?

A mente fria e calculista de Kennedy começou imediatamente a costurar possibilidades. Ele precisava de alguém ousada, alguém que não desmaiasse sob o olhar penetrante da mãe dele, alguém com audácia suficiente para sustentar a maior mentira da vida dele.

E, como se o universo tivesse um senso de humor cruel, os olhos dele voltaram a cair sobre ela — Antonia.

A mulher que havia quebrado a lanterna traseira do carro dele com uma pedra. A mulher que teve a coragem de encará-lo durante a entrevista, com manchas no vestido e tudo, como se o desafiasse a desclassificá-la. A mulher que, para grande irritação dele, não tinha se humilhado depois da reprimenda daquela manhã.

Sim. Antonia Adams era imprudente. Mas talvez... imprudente fosse exatamente o que ele precisava.

Um sorriso de canto, lento, curvou-lhe a boca antes que ele conseguisse impedir. Ela lhe devia uma. E talvez tivesse chegado a hora de pagar a dívida.

Faltando cinco minutos para o fim do expediente, Antonia estava à mesa, desligando o computador, quando o celular vibrou.

De: Kennedy Blackwood

Assunto: Meu escritório. Agora.

O estômago dela afundou.

Ela olhou ao redor, como se esperasse que outra pessoa tivesse recebido a mensagem por engano. Mas não; todos os outros funcionários já estavam guardando as coisas, jogando as bolsas no ombro, rindo baixinho sobre os planos para a noite.

Era só ela.

As palmas de Antonia ficaram suadas quando ela pegou o caderno — por quê, ela não sabia, talvez como um escudo — e então fez a caminhada temida até a fortaleza de vidro no extremo do andar.

A porta fez um clique suave quando ela entrou. Kennedy estava perto da janela, sem o paletó, com as mangas arregaçadas até os cotovelos, uma mão no bolso. A luz arroxeada do fim de tarde cortava o rosto dele, realçando as linhas do maxilar, deixando-o com aparência de algo esculpido em aço.

— Feche a porta — ele disse, sem se virar.

Antonia fechou, engolindo em seco. — O senhor queria me ver?

Então ele se virou, e o pulso dela falhou uma batida. Os olhos dele — cinzentos e indecifráveis — encontraram os dela e, por um segundo, Antonia se sentiu pregada ao chão.

— Queria — ele disse, com a voz mais suave do que ela esperava. — Sente-se.

Ela se acomodou na cadeira em frente à mesa dele, com o caderno apertado no colo, enquanto se perguntava se era assim que as pessoas eram demitidas — em silêncio, a portas fechadas.

— Se isso é por causa de hoje de manhã—

— É por causa de hoje de manhã.

As sobrancelhas dela se arquearam.

Por um longo instante, ele a observou. Antonia sentiu o peso daquele olhar, como se ele enxergasse muito mais do que ela queria deixar transparecer. Então, para seu choque absoluto, a expressão dele suavizou um pouco.

— Eu devo um pedido de desculpas a você.

Antonia piscou.

— Você... o quê?

Ele soltou o ar, recostando-se na mesa.

— Eu levantei a voz... sem necessidade. — fez uma pausa, os lábios se comprimindo como se ele estivesse brigando com a palavra. — Foi inadequado. Eu não costumo... perder o controle assim. Foi pouco profissional. Então, eu peço desculpas.

Ela piscou de novo, certa de que tinha ouvido errado. Kennedy Walton? Pedindo desculpas?

— Tudo... bem — ela conseguiu dizer, porque o que mais poderia falar? — A culpa foi minha também. Eu não estava olhando—

— Não — ele a interrompeu, balançando a cabeça. — Não foi inteiramente sua culpa.

O rosto dela esquentou.

— Está... tudo bem — disse, mexendo nervosamente na alça da bolsa. — Quer dizer, foi só uma coisinha. Eu não levei para o lado pessoal.

— Mesmo assim. — A voz dele baixou, mais grave, mais suave. — Você não merecia aquilo.

Alguma coisa no olhar dele fez a respiração dela prender. Antonia desviou depressa, os olhos indo até a moldura com a foto dele e da falecida esposa, em cima da mesa.

— Bem — disse, num tom enérgico, tomando coragem para encará-lo de novo e desesperada para cortar o peso estranho no ar —, se era só isso, eu vou deixar o senhor voltar para—

— Jante comigo.

As palavras a atingiram como um tapa. Antonia virou a cabeça de volta para ele, os olhos arregalados.

— Desculpa, o quê?

Kennedy não se mexeu, não remexeu as mãos, não desviou o olhar. A expressão dele era calma, deliberada, como se tivesse acabado de pedir a coisa mais normal do mundo.

— Jantar — repetiu. — Hoje à noite.

O coração de Antonia tropeçou dentro do peito. A mente dela se agarrou a qualquer lógica. Tinha que ser uma pegadinha, ou talvez ela tivesse entendido errado. Mas a intenção nos olhos dele dizia que não.

Ela ficou olhando, boquiaberta.

— Jantar... tipo... você e eu?

— Sim. — Os lábios dele se curvaram, não exatamente um sorriso, mas quase. — A não ser que você tenha outros compromissos.

— Eu... não... quer dizer... eu tenho, mas... — ela se atrapalhou com as próprias palavras, o calor subindo para as bochechas. — Por quê?

Kennedy se inclinou um pouco para a frente, apoiando os cotovelos na mesa.

— Eu preciso de um motivo para convidar minha funcionária para jantar?

— Precisa — ela disparou, e então fechou a boca na hora, horrorizada com a própria ousadia.

Pela primeira vez, ele de fato soltou uma risada baixa. Um som profundo, quente, que a assustou ainda mais do que o pedido.

— Você é sincera. Eu gosto disso.

O pulso de Antonia agora parecia bater na garganta.

— Sr. Walton... — começou, cautelosa.

— Kennedy — ele corrigiu, com suavidade. — Pelo menos fora do horário de expediente.

Ela encarou ele como se tivesse perdido a cabeça.

— Sr. Walton... Sr. Kennedy... você... você não pode estar falando sério. Quer dizer... jantar? Comigo?

— Eu pareço um homem que não fala sério? — ele perguntou, a voz baixa, firme, imperativa.

Ela se esforçou por palavras, por lógica, por ar. Isso tinha que ser algum tipo de brincadeira. Uma armadilha. Qualquer coisa.

— É só um jantar, Antonia — ele acrescentou, com calma.

Só um jantar. Palavras simples, mas carregadas de um peso não dito que revirou o estômago dela.

Mas, quando o olhar dele prendeu o dela, firme e implacável, Antonia se ouviu sussurrar:

— Tá bom.

A expressão dele suavizou por um segundo, a satisfação piscando no rosto antes de ele a esconder de novo. Kennedy pegou o paletó e o vestiu com uma precisão elegante.

— Ótimo — disse. — Tem um restaurante a dois quarteirões. Eu dirijo.

Os pensamentos de Antonia dispararam enquanto ela o seguia para fora do escritório.

Jantar com Kennedy Walton. O que poderia dar errado?

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